Casa dos Ventos critica térmicas, mas data center no Ceará dependerá de energia firme para operar
Projeto ligado à ByteDance, dona do TikTok, precisa de fontes estáveis para sustentar operações 24 horas por dia
247 – A ofensiva de grupos ligados à geração renovável contra o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) 2026 ganhou um novo elemento de contradição no Ceará. A Casa dos Ventos, empresa do empresário Mário Araripe, tem se posicionado contra a expansão das usinas termelétricas contratadas pelo certame, mas seu projeto de fornecimento de energia para data centers no Porto do Pecém dependerá justamente da estabilidade do sistema elétrico nacional — e, em última instância, de fontes firmes como térmicas e hidrelétricas — para operar sem riscos.
O caso envolve a construção de um data center em Caucaia, destinado a atender à chinesa ByteDance, dona do TikTok. O empreendimento deve funcionar em regime 24x7, ou seja, 24 horas por dia, sete dias por semana, e consumir cerca de 300 MW de energia, volume suficiente para abastecer até 300 mil residências.
Eólica não garante sozinha operação contínua
A geração eólica, principal negócio da Casa dos Ventos, é intermitente. Isso significa que sua produção varia ao longo do dia conforme a intensidade dos ventos. Para atividades industriais comuns, essa oscilação já exige coordenação com o sistema elétrico. Para data centers, que abrigam servidores e supercomputadores sensíveis, a exigência de estabilidade é ainda maior.
Por isso, embora o projeto seja apresentado como associado à energia renovável, ele precisa estar conectado à rede básica de transmissão para garantir fornecimento contínuo. Na prática, essa estabilidade só é possível porque o sistema elétrico conta com fontes capazes de entregar potência firme, inclusive usinas termelétricas acionáveis em curto prazo.
A contradição é evidente: enquanto empresas renováveis pressionam contra o LRCAP e criticam a contratação de térmicas, grandes projetos de data centers dependem da robustez da rede e da existência de fontes estáveis para não ficarem vulneráveis às oscilações naturais da geração solar e eólica.
Justiça manteve o leilão estratégico
A importância do LRCAP para a segurança energética brasileira foi reforçada nesta semana pela Justiça Federal. A 6ª Vara Federal Cível de Brasília manteve o indeferimento do pedido de suspensão do leilão movido pela Abraenergias, destacando que as decisões da EPE, ONS, Aneel e Ministério de Minas e Energia possuem presunção de legalidade e legitimidade.
Na decisão, o juiz afirmou que o processo que resultou no LRCAP envolveu estudos técnicos públicos, consultas públicas formalizadas e deliberações colegiadas, além de alertar que seria “temerário” reverter o certame sem fundamentos suficientes. O magistrado também ressaltou que o próprio Tribunal de Contas da União negou pedido cautelar para interromper o leilão.
ONS apontou risco de sobrecarga
No início deste ano, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou a Casa dos Ventos a acessar a rede básica de energia para viabilizar o projeto. Poucos dias depois, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) publicou relatório apontando “inviabilidade sistêmica”, diante do risco de sobrecargas significativas provocadas pela conexão do empreendimento.
Após ter recurso negado pela Aneel, a empresa obteve novo parecer favorável do ONS, mas com condicionantes. Entre elas, a necessidade de obras estruturantes para reforçar a rede, incluindo linhas de transmissão capazes de evitar sobrecarga no sistema.
Mesmo assim, o que se viu foi o anúncio de dois novos parques eólicos para abastecer os data centers. Para críticos do setor, a movimentação não resolve o problema central: a geração eólica amplia a oferta de energia, mas não garante, sozinha, a estabilidade exigida por uma operação digital de alta intensidade e funcionamento ininterrupto.
Judicialização para acessar a rede
Para viabilizar seu empreendimento, a Casa dos Ventos recorreu à Justiça contra regras de segurança do sistema e conseguiu medida cautelar para ter acesso à rede de transmissão.
O episódio reforça a tensão entre a expansão acelerada de projetos renováveis e os limites físicos do sistema elétrico brasileiro. O setor já enfrenta gargalos de escoamento de energia provocados pelo crescimento das fontes intermitentes, especialmente eólica e solar, e pela demora em viabilizar novas conexões de usinas capazes de garantir energia firme 24 horas por dia.
Hoje, o País já precisa cortar parte relevante da geração eólica em determinados períodos para evitar sobrecargas e preservar a estabilidade do sistema. Esse fenômeno, conhecido como curtailment, ocorre quando há mais energia sendo produzida do que a rede consegue absorver ou transportar.
LRCAP busca garantir segurança energética
É nesse contexto que o governo federal defende o LRCAP 2026 como um instrumento essencial de segurança energética. O leilão, realizado em março, buscou contratar potência firme despachável, fornecida principalmente por usinas termelétricas e hidrelétricas, para garantir abastecimento nos horários críticos.
Esses momentos ocorrem especialmente no início da noite, quando a geração solar desaparece e a produção eólica pode cair. Sem fontes despacháveis, o sistema fica mais vulnerável a oscilações, sobrecargas e risco de apagões.
A ofensiva contra o LRCAP interessa a proprietários de empreendimentos solares e eólicos afetados pelo curtailment. Esses grupos defendem que baterias, conhecidas como BESS, poderiam substituir parte da necessidade de potência firme. Especialistas do setor, no entanto, afirmam que baterias têm papel relevante na transição energética, mas ainda não substituem integralmente térmicas e hidrelétricas na garantia de estabilidade contínua do sistema.
Lobby político
Nos bastidores, Mário Araripe tem no deputado federal Danilo Forte (PP-CE) um aliado importante na ofensiva contra o LRCAP. O parlamentar já recebeu doações de campanha de César Araújo Alencar Araripe, irmão do empresário.
A ação civil pública que tentou suspender a homologação dos contratos do leilão foi assinada pela advogada Fernanda Cristinne Rocha de Paula, esposa de Danilo Forte, em nome da Abraenergias.
A movimentação chama atenção porque o próprio Ceará pode ser beneficiado por projetos contratados no LRCAP. Estimativas do setor apontam potencial de R$ 10 bilhões em investimentos no estado, com cerca de 4.500 empregos diretos e indiretos associados aos empreendimentos.
Contradição estratégica
A disputa revela um dilema central da transição energética brasileira. De um lado, empresas renováveis buscam expandir seus negócios em áreas como data centers, baterias e geração eólica. De outro, esses mesmos projetos dependem de um sistema elétrico robusto, estável e sustentado por fontes firmes.
O caso da Casa dos Ventos no Ceará simboliza essa contradição. A empresa combate a contratação de termelétricas no LRCAP, mas seu projeto de data center só poderá operar com segurança se houver rede forte, capacidade firme e estabilidade permanente no fornecimento de energia.
Para o governo Lula, a conclusão é clara: o Brasil precisa continuar expandindo renováveis, mas sem abrir mão da segurança do sistema elétrico. Sem potência firme, a transição energética pode deixar de ser solução e passar a representar risco para a economia, para a indústria e para os consumidores.



