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Caso Master: setor financeiro se une para defender autonomia do Banco Central

Defesa do BC mira risco de interferência política em decisões técnicas

Sede do Banco Central em Brasília-DF - 29/10/2019 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247 - O sistema financeiro brasileiro passou a adotar uma posição pública unificada em defesa do Banco Central (BC), diante do temor de que decisões técnicas da autoridade monetária possam ser revistas por outros órgãos institucionais. Grandes bancos, instituições médias, fintechs e entidades representativas do setor decidiram atuar de forma coordenada após o avanço de questionamentos sobre a liquidação do Banco Master. A avaliação, segundo a Folha de São Paulo, é que uma eventual reversão das decisões do BC pode fragilizar a regulação bancária e abrir espaço para interferências de natureza política.

União inédita do setor financeiro

Associações que representam, juntas, 244 instituições financeiras divulgaram uma série de notas públicas alertando para os riscos sistêmicos de um enfraquecimento do Banco Central. Além disso, representantes do setor intensificaram contatos com autoridades influentes em Brasília, incluindo integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal de Contas da União (TCU).

A articulação conjunta era considerada improvável até poucas semanas atrás e simboliza um esforço para conter os efeitos de disputas internas que se acirraram nos últimos anos, especialmente entre bancos tradicionais e fintechs.

Caso Master e o impacto sobre o FGC

O Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro, ganhou espaço no mercado com uma estratégia agressiva de captação, baseada na venda de CDBs com remuneração acima da média e forte apelo ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Em caso de quebra, o fundo assegura investimentos de até R$ 250 mil por CPF.

Com o crescimento acelerado da instituição, o FGC passou a concentrar grande parte de sua exposição nos títulos do Master. A liquidação do banco, determinada pelo Banco Central em novembro, resultou na maior perda da história do fundo, que agora terá de desembolsar cerca de R$ 41 bilhões para honrar os investidores.

Risco institucional e temor de precedentes

Apesar de críticas à atuação do Banco Central — avaliadas por alguns executivos como tardias no caso Master —, o entendimento predominante no setor é de que o risco institucional se sobrepõe às divergências. O temor é que a revisão do mérito técnico das decisões do BC comprometa um dos pilares da estabilidade financeira.

Um executivo do setor sintetizou essa preocupação ao afirmar: “é um olhar para o futuro e uma questão de sobrevivência da estabilidade regulatória”. Segundo ele, a convergência atual não elimina divergências sobre o rigor e a velocidade de eventuais mudanças regulatórias, nem sobre a recomposição das reservas do FGC.

Notas públicas e articulação em Brasília

A primeira manifestação pública partiu da ABBC (Associação Brasileira de Bancos), após o ministro do TCU Jonathan de Jesus conceder prazo de 72 horas para que o Banco Central explicasse a liquidação do Master, atendendo a pedidos do Ministério Público de Contas e da liderança da minoria na Câmara dos Deputados.

Na sequência, Acrefi, Febraban, Zetta e a própria ABBC divulgaram notas conjuntas em defesa da autoridade monetária. Em posicionamento separado, a Anbima também reforçou a importância da autonomia e da independência do Banco Central. Outro dirigente do setor resumiu o sentimento predominante ao afirmar que, neste momento, defender o regulador significa proteger a própria indústria financeira.

Disputas antigas e convergência estratégica

As tensões que antecederam o episódio remontam a encontros entre os CEOs dos cinco maiores bancos do país e o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, quando foram cobradas regras mais duras para o uso do FGC. As mudanças implementadas posteriormente, já sob a gestão de Gabriel Galípolo, foram consideradas insuficientes por parte dos grandes bancos.

Do lado de instituições menores e fintechs, a preocupação sempre foi evitar retrocessos na agenda de inovação e de ampliação da concorrência, posição que também encontrou respaldo em Galípolo. A tentativa de venda do Master ao BRB trouxe ainda mais visibilidade ao conflito, expondo uma disputa entre banqueiros em momentos distintos de influência junto ao poder em Brasília.

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