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Crash global: guerra de Trump e Netanyahu provoca queda histórica na Ásia

Índice da Coreia do Sul chega a cair mais de 12% e aciona suspensão de negócios em meio ao choque do petróleo ligado à guerra com o Irã

Negociação chegou a ser suspensa na Coreia do Sul (Foto: Getty Images)

247 – O mercado acionário da Coreia do Sul viveu uma sessão de forte aversão ao risco nesta quarta-feira, 4 de março de 2026, com o índice Kospi aprofundando uma queda que já vinha do pregão anterior e caminhando para o tombo mais severo em um único dia desde a crise financeira global de 2008. No auge do estresse, o índice chegou a recuar mais de 12% após uma baixa de 7,2% na sessão anterior, num movimento que surpreendeu de estrategistas de Wall Street a investidores de varejo recém-chegados à Bolsa. A queda é consequência da guerra aberta por Donald Trump e Benjamin Netanyahu contra o Irã. 

Segundo a Bloomberg, o pânico tomou as mesas de operação justamente em um mercado que havia se tornado um “queridinho” global nos últimos meses, impulsionado pela corrida da inteligência artificial e pela explosão de demanda por chips de memória. 

Queda concentrada em gigantes de tecnologia e indústria

A onda de vendas teve como epicentro as ações que haviam “puxado” o rali até o mês passado. Entre os principais motores da baixa estavam Samsung Electronics, SK Hynix e Hyundai Motor — pesos-pesados que concentraram parte relevante do entusiasmo com a tese do ciclo de semicondutores e com o apetite por empresas exportadoras.

O pano de fundo, porém, mudou de forma abrupta. A escalada do conflito envolvendo o Irã — com impactos diretos sobre o preço do petróleo — ampliou temores de inflação global e reprecificação de juros, pressionando sobretudo países mais dependentes de energia importada, como a Coreia do Sul. 

Guerra com o Irã, petróleo em alta e reprecificação do risco

O choque do petróleo entrou no centro do debate porque a Coreia do Sul é uma grande consumidora e importadora de energia, ficando exposta a qualquer disparada em preços e fretes. Com o risco inflacionário reacendido, investidores passaram a rever posições consideradas “quentes demais” após meses de euforia.

A turbulência não ficou restrita a Seul: mercados asiáticos recuaram em bloco, com perdas relevantes em índices do Japão, Hong Kong e outros centros, refletindo o temor de que a guerra e o encarecimento de energia atinjam crescimento e margens corporativas. 

Suspensão de negócios e sinais de estresse no sistema

A volatilidade foi tamanha que houve interrupção temporária das negociações. Na Coreia do Sul, a bolsa chegou a suspender o trading por 20 minutos após os índices atingirem limites de queda que acionam mecanismos automáticos de contenção. 

O episódio reforçou a leitura de que o mercado saiu de um regime de “otimismo contínuo” para um ambiente de liquidez mais rarefeita e movimentos bruscos, típicos de momentos de desalavancagem.

Alavancagem, compra no crédito e liquidações forçadas

Um elemento-chave apontado por gestores foi o excesso de posições compradas com financiamento. Houve sinais de superaquecimento: alta de dívida de margem e de depósitos em corretoras, ao mesmo tempo em que cresciam dúvidas sobre a sustentabilidade de um rali concentrado em poucas ações.

A Bloomberg citou o executivo An Hyungjin, da Billionfold Asset Management, descrevendo a dificuldade de qualquer projeção num cenário de preços “fora de escala”: “Os movimentos são extremos demais, então prever parece quase impossível — a análise não ajuda muito”. Ele acrescentou: “Os investidores de varejo parecem hesitar também; as ofertas de compra estão desaparecendo desde ontem. Enquanto escolhemos nomes de qualidade e fazemos hedge, isto não é uma oportunidade clara”.

No mesmo sentido, Kim Dojoon, da Zian Investment Management, apontou o risco embutido na “compra no crédito” e no consequente gatilho de liquidações automáticas: “Houve muita compra a crédito, especialmente nesses papéis de peso, com investidores colocando apenas 30% a 40% como depósito de margem”. Segundo ele, com essas posições sofrendo liquidação forçada, uma nova queda poderia criar um ambiente em que “ninguém vai tentar pegar uma faca caindo”.

Governo e reguladores se preparam para contágio

O temor de contágio da instabilidade para outras classes de ativos levou autoridades a sinalizarem atenção reforçada. A Bloomberg informou que Lee Eog-weon, presidente da Comissão de Serviços Financeiros, pediu a instituições relevantes que usem ativamente planos de contingência, se necessário, diante do risco de transbordamento de volatilidade.

Nos últimos meses, a Bolsa sul-coreana vinha se comportando como “ponto fora da curva” na Ásia, subindo mesmo em dias de queda regional. Esse desempenho havia sido associado tanto ao boom de semicondutores quanto a uma agenda de reforma corporativa, que ajudou a reprecificar um mercado historicamente visto como subavaliado.

Rali ainda é grande, mas o choque muda o clima

Apesar do tombo, o Kospi ainda acumulava alta expressiva no ano, sustentado por ganhos anteriores. O movimento recente, portanto, foi lido por parte do mercado como correção violenta de um excesso de otimismo — agora confrontado por uma variável externa de alto impacto: energia.

Além disso, o aumento do risco inflacionário levou investidores a reavaliarem a trajetória de juros, o que tende a penalizar ações com valuations esticados e a reduzir a disposição ao risco em carteiras globais.

Fluxo estrangeiro, varejo mais cauteloso e volatilidade recorde desde 2008

O fluxo também se deteriorou: fundos estrangeiros foram vendedores líquidos, enquanto investidores locais compraram, porém de forma mais lenta do que no pregão anterior, segundo o relato do texto original.

Um termômetro do medo apareceu no mercado de opções: o índice de volatilidade Kospi 200 disparou para o maior nível desde novembro de 2008, evidenciando o aumento abrupto do preço de proteção. 

O trader Shawn Oh, da NH Investment & Securities, descreveu um mercado em que as próprias corretoras recuam do risco: “As corretoras locais começaram a parar de oferecer margem e estamos vendo o ‘comprar na queda’ do varejo bem mais fraco hoje”. Ele completou: “Podemos ver mais fraqueza na última hora de negociação por medo de chamada de margem”.

Nem tudo caiu: energia disparou e “vencedores” aparecem no caos

Embora a sessão tenha sido marcada por perdas amplas, houve exceções importantes. Ações de energia como Daesung Energy, Kukdong Oil & Chemicals e Korea Petroleum Industries chegaram a subir cerca de 30%, beneficiadas pela disparada do petróleo e pelo reposicionamento para papéis ligados ao setor.

A Bloomberg também citou avaliação de Park Sojung, da Matthews Asia, apontando que o choque pode abrir espaço para compras seletivas em ativos descontados: “Isso pode criar oportunidades específicas para montar posições em empresas e setores que agora estão negociando a preços atraentes”. Ela acrescentou que industriais sul-coreanas, como defesa e construção naval, “podem novamente ser destacadas como beneficiárias da instabilidade global, da oferta restrita e da crescente importância estratégica da Coreia”.

O que observar a partir daqui

O episódio expôs uma combinação perigosa: rali acelerado, concentração em poucos papéis, alavancagem disseminada e choque externo de energia. Se a pressão do petróleo persistir e a percepção de inflação continuar subindo, o mercado pode permanecer vulnerável a novas rodadas de desalavancagem — sobretudo em ações que haviam se beneficiado mais intensamente do entusiasmo com inteligência artificial.

Ao mesmo tempo, a reação das autoridades, a intensidade das chamadas de margem e o comportamento do investidor estrangeiro tendem a definir se a sessão de 4 de março de 2026 será lembrada como um “pico de pânico” isolado ou como o início de uma reprecificação mais prolongada do risco na Coreia do Sul e na Ásia. 

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