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Especialistas defendem leilão do setor elétrico como escudo contra apagões e alertam para riscos da ofensiva política

Manifesto assinado por ex-ministros, ex-dirigentes do ONS e doutores em energia afirma que leilão é essencial para garantir confiabilidade do sistema

Torres de transmissão de energia elétrica no Pará 30/03/2010 REUTERS/Paulo Santos (Foto: Paulo Santos)
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247 – Um grupo de especialistas do setor elétrico divulgou um manifesto em defesa do Leilão de Reserva de Capacidade na Forma de Potência (LRCAP 2026), considerado estratégico pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para garantir segurança energética ao País e evitar riscos de apagões e racionamentos nos próximos anos. O documento afirma que a ofensiva contra o certame ignora critérios técnicos internacionalmente reconhecidos e coloca em risco a confiabilidade do Sistema Interligado Nacional (SIN).

O manifesto sustenta que o LRCAP é um mecanismo de segurança eletroenergética baseado em critérios definidos pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) e consagrados na literatura internacional de confiabilidade de sistemas elétricos. Segundo os especialistas, o objetivo do leilão é assegurar que a “probabilidade de perda de carga” do sistema permaneça abaixo de 5%, reduzindo também a profundidade de eventuais cortes de energia.

Especialistas afirmam que leilão garante segurança 24 horas por dia

O documento destaca que o LRCAP não é um leilão voltado apenas para atender picos de demanda, mas sim um mecanismo destinado a garantir confiabilidade ao sistema elétrico “24 horas por dia, 7 dias por semana”. Os signatários lembram que grandes blecautes ocorridos recentemente no Brasil, em 2023, e na Península Ibérica, em 2025, aconteceram fora dos horários tradicionais de ponta do consumo.

Os especialistas também explicam que o volume elevado de contratação no leilão de 2026 ocorreu porque o Brasil acumulou necessidades de expansão desde 2022. O último certame semelhante havia ocorrido em 2021, enquanto cerca de 14 GW de termelétricas existentes terão seus contratos encerrados no período coberto pelo novo LRCAP.

Alta global de turbinas exigiu revisão dos preços-teto

Outro ponto abordado no manifesto é a revisão dos preços-teto promovida pelo Ministério de Minas e Energia. Segundo os especialistas, a medida foi necessária devido à disparada global dos preços de turbinas e equipamentos críticos, causada pelo reaquecimento internacional do mercado de geração elétrica e pela corrida energética em países desenvolvidos.

O texto destaca ainda que a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e o Operador Nacional do Sistema (ONS) passaram a exigir novos requisitos de flexibilidade das usinas vencedoras, elevando naturalmente os custos dos projetos. Em compensação, afirmam os autores, as novas usinas garantirão confiabilidade elétrica, energética e operacional ao País.

Manifesto contesta substituição de térmicas por baterias

Os especialistas também dedicam parte do documento à discussão sobre sistemas de armazenamento por baterias (BESS), defendidos por grupos ligados às renováveis como alternativa às termelétricas.

Segundo o manifesto, as baterias terão papel importante no futuro da matriz elétrica brasileira, mas ainda não possuem condições técnicas de substituir térmicas e hidrelétricas nas funções exigidas pelo LRCAP.

O texto afirma que:

  •  baterias não conseguem atender continuamente aos critérios de confiabilidade exigidos pelo leilão; 
  •  ainda não existem sistemas com tecnologia Grid Forming Control (GFM) em operação no Brasil; 
  •  há incertezas sobre vida útil, estabilidade operacional e interação dos controladores; 
  •  a duração média de descarga das baterias é de aproximadamente quatro horas, insuficiente para garantir estabilidade contínua do sistema. 

Os autores afirmam que o uso de baterias deve ocorrer “no tempo e no espaço certo”, mas alertam que armazenadores não geram energia e, portanto, não resolveriam riscos estruturais de blecautes e racionamentos.

Sem leilão, custo de apagões poderia chegar a R$ 970 bilhões

Um dos trechos mais contundentes do manifesto é a estimativa de prejuízos econômicos caso o País deixe de contratar potência firme.

Com base em estudos do ONS e da consultoria Thymos Energia, os especialistas afirmam que, sem o LRCAP, o Brasil poderia enfrentar custos de até R$ 210 bilhões em blecautes ao longo dos próximos 15 anos.

Além disso, o documento projeta a possibilidade de dois períodos críticos de racionamento semelhantes ao de 2001, com impacto estimado em R$ 760 bilhões. Somados, os prejuízos poderiam alcançar R$ 970 bilhões.

O manifesto cita ainda gráficos elaborados pelo Operador Nacional do Sistema mostrando aumento expressivo dos riscos de déficit de potência entre 2026 e 2029 caso não haja expansão da capacidade firme no País. A análise aponta elevação acelerada da LOLP (Loss of Load Probability) nos próximos anos.

“O resto é interesse particular”, dizem especialistas

Na parte final do texto, os signatários fazem uma defesa contundente do certame e afirmam que os argumentos técnicos apresentados são sólidos. “Isto é a parte técnica. O resto é interesse particular, sem compromisso com a segurança do SIN”, conclui o manifesto.

Quem assina o manifesto

O documento é assinado por especialistas, ex-dirigentes do setor elétrico, engenheiros e ex-integrantes do governo federal:

  •  Adriano Pires – PhD em Economia Industrial pela Universidade Paris XIII 
  •  Bento Costa Lima Leite de Albuquerque Junior – ex-ministro de Minas e Energia e coordenador da Lei 14.120/2021, que estabeleceu o LRCAP 
  •  Boris Garbati Gorenstin – PhD em Engenharia de Produção pela UFRJ 
  •  Eduardo Marcio Teixeira Nery – ex-presidente do CIGRÉ-Brasil 
  •  Fillipe Soares – PhD em Sistemas de Potência pela USP 
  •  João Carlos de Oliveira Mello – PhD em Engenharia Elétrica pela PUC-Rio 
  •  Jorge Luiz Jardim – PhD pelo Imperial College, University of London 
  •  José Carlos Aleluia Costa – ex-deputado federal e ex-presidente da Chesf 
  •  Luiz Alberto da Silva Pilotto – D.Sc em Engenharia Elétrica pela UFRJ 
  •  Luiz Carlos Ciocchi – ex-diretor-geral do ONS 
  •  Luiz Fernando Zancan – presidente da Associação Brasileira do Carbono Sustentável 
  •  Mario Daher – ex-gerente executivo do ONS 
  •  Paulo Cesar Vaz Esmeraldo – mestre em Ciências pela Unifei 
  •  Paulo Gomes – PhD em Engenharia Elétrica pela Unifei 
  •  Reive Barros – ex-secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético do MME e ex-presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE)

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