Fatia dos EUA nas exportações brasileiras cai ao menor nível desde 1997
Mesmo após recuo do tarifaço, vendas brasileiras ao mercado americano seguem em queda e reforçam diversificação comercial do país
247 – A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu para 9,4% entre janeiro e maio de 2026, o menor nível para o período desde o início da série histórica da Secretaria de Comércio Exterior, em 1997. No mesmo intervalo de 2025, os EUA respondiam por 12,2% dos embarques brasileiros.
As informações foram divulgadas pelo Valor Econômico, com base em dados da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. O recuo ocorre mesmo sem a aplicação de novas tarifas anunciadas recentemente pelos Estados Unidos, o que indica um enfraquecimento mais estrutural da relação comercial bilateral após o tarifaço imposto pelo presidente Donald Trump.
Tarifaço deixou marcas no comércio bilateral
A queda da fatia americana nas exportações brasileiras é apontada por economistas como reflexo direto da política tarifária adotada por Trump em 2025. No primeiro semestre daquele ano, antes da entrada em vigor das sobretaxas, os embarques do Brasil aos Estados Unidos ainda cresciam 4,4%.
A partir de julho de 2025, porém, parte relevante da pauta brasileira passou a sofrer alíquotas totais de importação entre 40% e 50%. O impacto foi imediato. No segundo semestre, as vendas brasileiras ao mercado americano passaram a cair e reverteram completamente o desempenho positivo observado nos primeiros meses do ano.
Como resultado, as exportações do Brasil para os Estados Unidos encerraram 2025 com queda de 6,7%, em sentido oposto ao comportamento geral do comércio exterior brasileiro. No mesmo ano, os embarques totais do país cresceram 3,3%.
Exportações aos EUA seguem em queda em 2026
Entre janeiro e maio de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos somaram US$ 14 bilhões, queda de 16% em relação ao mesmo período de 2025. O resultado mostra que a tendência negativa permaneceu mesmo depois de o tarifaço ter sido derrubado em fevereiro.
A reversão ocorreu após decisão da Suprema Corte americana, que afastou o uso da IEEPA, a lei de poderes econômicos emergenciais internacionais dos Estados Unidos, como base para a imposição das tarifas. Ainda assim, os dados indicam que os efeitos da medida continuaram a pesar sobre o fluxo comercial.
Para analistas, o tarifaço deteriorou a relação comercial entre os dois países por dois movimentos simultâneos. De um lado, produtores brasileiros buscaram diversificar seus destinos de exportação. De outro, importadores americanos passaram a procurar novos fornecedores, reduzindo a dependência de itens brasileiros.
Diversificação comercial ganha força
A perda de participação dos Estados Unidos ocorre em um momento em que o Brasil amplia sua presença em outros mercados e reforça uma estratégia de diversificação comercial. A redução da dependência de um único destino tende a ganhar relevância diante da instabilidade provocada por medidas protecionistas.
As novas propostas tarifárias divulgadas pelos Estados Unidos nesta semana, de 25% e 12,5%, reforçam a percepção de que a política comercial americana continua sendo marcada por incertezas. Nesse cenário, a busca por novos compradores passa a ser vista como uma resposta pragmática da economia brasileira.
A queda da participação americana para o menor nível desde 1997 é, portanto, mais do que um dado conjuntural. Ela expressa uma mudança no padrão recente das exportações brasileiras e evidencia os custos de políticas comerciais agressivas para a relação entre os dois países.
Balança comercial registra superávit em maio
Apesar da retração nas vendas aos Estados Unidos, a balança comercial brasileira manteve desempenho positivo em maio. O superávit foi de US$ 7,8 bilhões, segundo dados divulgados pela Secex/Mdic.
No mesmo mês de 2025, o saldo havia sido positivo em US$ 7,1 bilhões. O resultado de maio de 2026 representa, portanto, alta de 10,8%.
As exportações brasileiras somaram US$ 31,9 bilhões no mês, avanço de 6,6%. Já as importações alcançaram US$ 24,1 bilhões, crescimento de 5,3%.
Superávit acumulado cresce no ano
No acumulado de janeiro a maio, o superávit comercial chegou a US$ 32,7 bilhões, alta de 34,2% em relação ao mesmo período do ano anterior. As exportações totalizaram US$ 148,6 bilhões, crescimento de 8,7%.
As importações, por sua vez, somaram US$ 115,9 bilhões, avanço de 3,2%. A corrente de comércio, que reúne exportações e importações, alcançou US$ 264,5 bilhões, alta de 6,2%.
Os números indicam que, embora o mercado americano tenha perdido peso relativo, o comércio exterior brasileiro segue em expansão. O desempenho reforça a importância da diversificação de parceiros comerciais em um cenário internacional marcado por disputas tarifárias, protecionismo e reorganização das cadeias globais de fornecimento.



