Fundo ligado ao Master registra R$ 122 mi em despesas com advogados sem comprovação
Auditoria não teve acesso a documentos do fundo GSR com advogados e consultoria
247 - Um fundo de investimento administrado pela corretora Trustee passou a chamar a atenção do mercado financeiro e de órgãos de controle após registrar despesas milionárias sem a devida comprovação documental. As demonstrações financeiras indicam uma dívida de R$ 122 milhões relacionada a honorários advocatícios e outros R$ 10,7 milhões classificados como gastos com consultoria, sem que haja documentos que atestem a prestação efetiva desses serviços.
Segundo o jornal O Estado de São Paulo, o fundo GSR é administrado pela Trustee, empresa de Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master. Procurada, a administradora afirmou ter cobrado as informações dos assessores legais responsáveis, mas declarou não ter recebido a documentação necessária até a publicação do balanço.
Fundo concentrado e ligação com a Reag
O GSR possuía até setembro do ano passado um patrimônio de cerca de R$ 3 bilhões, segundo os dados mais recentes. Ele conta com apenas um cotista, o fundo Astralo 95, conforme levantamento do consultor Einar Rivero, sócio-fundador da Elos Ayta. Na prática, todos os recursos do GSR têm origem nesse único veículo.
O fundo Astralo é administrado pela Reag Trust e está sob investigação da Polícia Federal por suspeita de integrar uma cadeia de fundos supostamente utilizada em transações fraudulentas. Tanto a Trustee quanto a Reag já haviam sido alvo da Operação Carbono Oculto, que apurou o uso de fundos de investimento por organizações criminosas. A Reag não se manifestou até a publicação da reportagem.
Recursos direcionados ao Banco Master
Como já havia mostrado o Estadão/Broadcast, o Astralo e outros três fundos ligados à Reag transferiram recursos ao Banco Master em um período em que a instituição enfrentava dificuldades de liquidez. Esses aportes superaram R$ 1,2 bilhão e ocorreram por meio da compra de Certificados de Depósitos Bancários do banco. O Banco Master também não respondeu aos questionamentos.
Maurício Quadrado, proprietário da Trustee, tem passagem relevante pelo mercado financeiro. Foi sócio da corretora Planner entre 2007 e 2020 e, após sua saída, fundou a Trustee, inicialmente chamada de Planner Trustee. Pouco depois, tornou-se sócio do banqueiro Daniel Vorcaro no Banco Master, vínculo que se encerrou em meados de 2024.
Em novembro do ano passado, o Banco Central determinou a liquidação do Banco Master, citando uma “grave crise de liquidez”. Daniel Vorcaro passou a ser investigado por suspeitas de gestão fraudulenta e pela venda de carteiras de crédito supostamente falsas ao Banco de Brasília.
Auditoria faz ressalvas às demonstrações financeiras
Na análise das demonstrações financeiras de 2024 do fundo GSR, os auditores independentes afirmaram não ter tido acesso aos documentos necessários para comprovar as despesas com advogados e consultores. Diante disso, não foi possível validar a adequação das informações apresentadas.
“Não nos foram fornecidas as documentações sobre as referidas despesas, não sendo possível obter evidências de auditoria apropriadas e suficientes para concluirmos sobre a adequação dessas despesas”, afirmou a RSM Auditores no relatório que acompanha o balanço do fundo.
Para especialistas, a ausência de documentação representa um alerta relevante. André Camara, sócio da área societária do Benício Advogados, destacou que o problema vai além do valor envolvido. “A inexistência ou indisponibilidade de documentos que justifiquem despesas de um fundo configura falha grave de governança”, afirmou. Segundo ele, a descrição genérica dos gastos também não atende às normas regulatórias. “A classificação genérica da despesa, sem detalhamento sobre escritórios contratados, natureza dos serviços, processos vinculados ou contratos firmados, não atende aos padrões regulatórios de informação adequada aos cotistas.”
Ativos sem mensuração de valor justo
Além das despesas sem comprovação, o fundo GSR registrou a aquisição de R$ 792,3 milhões em direitos creditórios, como ações judiciais e precatórios. As demonstrações financeiras, no entanto, não apresentaram a mensuração do valor justo desses ativos, ou seja, a estimativa de retorno efetivo da carteira, como exigem as regras da Comissão de Valores Mobiliários.
Posicionamento da administradora
Em nota, a Trustee informou que, durante o processo de auditoria das demonstrações financeiras de 2024, adotou diligências para cobrar do responsável o fornecimento das informações e documentos necessários à validação contábil. Segundo a empresa, os dados considerados suficientes pelo auditor independente ainda não haviam sido entregues.
“A Trustee deliberou pela publicação das Demonstrações Financeiras, ainda que acompanhadas de ressalvas do auditor independente”, informou a administradora. A empresa acrescentou que os ativos do fundo estão avaliados pelo custo de aquisição, no montante de R$ 792 milhões, compostos por direitos creditórios relacionados a ações judiciais e precatórios.
A Trustee declarou, por fim, que segue acompanhando as obrigações regulatórias e que mantém tratativas em curso para a obtenção das informações necessárias, com o objetivo de reemitir as demonstrações financeiras e endereçar os pontos indicados pela auditoria.


