Guerra dos EUA e Israel contra o Irã provoca disparada do preço do petróleo para quase US$ 120
Guerra no Golfo, fechamento do estreito de Hormuz e cortes de produção elevam preço do barril ao maior nível desde 2020
247 - O preço internacional do petróleo registrou forte disparada e se aproxima da marca de US$ 120 por barril em meio à intensificação do conflito no Oriente Médio e a interrupções no fluxo global de energia. A guerra de EUA e Israel contra o Irã, a escalada das tensões na região, somada a cortes de produção por grandes exportadores e ao fechamento do estratégico estreito de Hormuz, provocou um choque nos mercados e elevou os temores de uma nova onda inflacionária global.
De acordo com reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, o barril do Brent chegou a subir até 29%, alcançando US$ 119,50 — o maior patamar desde abril de 2020 — enquanto o petróleo West Texas Intermediate (WTI) avançou cerca de 31% no mesmo período.
A valorização acelerada ocorre em um cenário de instabilidade geopolítica crescente. O estreito de Hormuz, corredor marítimo por onde normalmente circula cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo, praticamente deixou de operar, bloqueando rotas estratégicas de exportação e pressionando ainda mais os preços da energia.
Entre os maiores produtores do Golfo, Kuwait e Emirados Árabes Unidos iniciaram cortes na produção diante do rápido aumento dos estoques provocado pelo bloqueio logístico. Já o Iraque começou a suspender operações petrolíferas na semana anterior. O conflito regional, intensificado após ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, segue sem sinais de recuo.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comentou a disparada dos preços em publicação na plataforma Truth Social. Segundo ele, os efeitos econômicos imediatos são aceitáveis diante da estratégia militar em curso. Trump afirmou que os movimentos de curto prazo representam "um preço muito pequeno a pagar" pelos Estados Unidos, pelo mundo e pela paz. O presidente acrescentou ainda que os valores da commodity devem cair rapidamente "quando a destruição da ameaça nuclear iraniana terminar".
Apesar da justificativa, o aumento da energia já gera impactos internos nos Estados Unidos. Os preços da gasolina no varejo atingiram o nível mais alto desde agosto de 2024, o que representa um desafio político para Trump e aliados às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato.
Ao mesmo tempo, a guerra continua a se ampliar. Mais de uma dúzia de países já foram envolvidos direta ou indiretamente no conflito regional. Em nova publicação nas redes sociais no início do sábado, Trump indicou que Washington poderá considerar ataques a áreas e grupos no Irã que anteriormente não eram classificados como alvos militares.
A resposta iraniana também elevou a tensão diplomática. O presidente do país, Masoud Pezeshkian, declarou que Teerã não recuará diante das pressões externas. No domingo, a agência estatal Fars informou que o Irã nomeou o filho do falecido aiatolá Ali Khamenei como novo líder supremo, com a Guarda Revolucionária Islâmica prometendo lealdade ao sucessor.
O ambiente de risco levou também a medidas de segurança por parte de aliados dos Estados Unidos. Segundo o jornal The New York Times, o Departamento de Estado ordenou a retirada de funcionários americanos da Arábia Saudita.Especialistas avaliam que o nível de US$ 100 por barril pode ser apenas um ponto intermediário de uma trajetória ainda mais elevada. Para Andy Lipow, presidente da consultoria Lipow Oil Associates, o mercado pode enfrentar novos aumentos enquanto persistirem as restrições logísticas. "O nível de US$ 100 pode ser apenas uma meta de preço de curto prazo a caminho de patamares mais altos, à medida que o conflito se arrasta", afirmou. Segundo ele, "a produção está sendo represada porque os estoques estão se enchendo e os navios-tanque não conseguem carregar".
Projeções do banco JPMorgan indicam que as interrupções na produção do Oriente Médio podem ultrapassar 4 milhões de barris por dia até o final da próxima semana. A estimativa foi apresentada em relatório assinado por analistas liderados por Natasha Kaneva em 8 de março. A região responde por aproximadamente um terço da produção global de petróleo.
Além da redução da oferta, ataques e ameaças a instalações energéticas aumentam o risco de novas interrupções. No fim de semana, a Arábia Saudita informou ter interceptado e destruído drones que tinham como alvo o campo petrolífero de Shaybah, capaz de produzir cerca de 1 milhão de barris por dia. Na semana anterior, o país também suspendeu operações na refinaria de Ras Tanura, a maior do reino, enquanto tenta redirecionar embarques para portos no Mar Vermelho após o fechamento de Hormuz.
A pressão sobre o mercado de energia já se espalha para outros derivados. A China ordenou que suas principais refinarias suspendam exportações de diesel e gasolina, enquanto a Coreia do Sul avalia implementar um teto para os preços do petróleo pela primeira vez em três décadas.
Indicadores do mercado financeiro também refletem o aperto na oferta imediata. O chamado spread prompt do Brent — diferença entre os dois contratos mais próximos — ultrapassou US$ 8,10 por barril em estrutura de backwardation, quando preços à vista superam contratos futuros. Há apenas um mês, essa diferença era de cerca de 62 centavos.Para Haris Khurshid, diretor de investimentos da Karobaar Capital LP, o principal temor permanece concentrado na logística global do petróleo. "No momento, o maior temor ainda é a interrupção dos fluxos pelo estreito de Hormuz", disse. Segundo ele, "as suspensões de produção importam, mas o que realmente preocupa o mercado são os barris que não conseguem se mover".


