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Combustíveis disparam com guerra no Irã e ameaça ao Estreito de Ormuz

Conflito iniciado por EUA e Israel pressiona oferta global de petróleo e eleva preços de gasolina, diesel e querosene de aviação

Posto de combustível (Foto: Reuters/Andrew Kelly)

247 - A escalada da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã provocou forte impacto nos mercados globais de energia e já se reflete no preço dos combustíveis. A interrupção do fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz — uma das rotas marítimas mais estratégicas para o transporte de petróleo no mundo — impulsionou as cotações da gasolina, do diesel e do querosene de aviação, elevando custos e reacendendo temores inflacionários, relata a Bloomberg

O avanço das tensões militares e a perspectiva de prolongamento do conflito aumentam a pressão sobre o mercado. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, chegou a exigir a rendição total do Irã, ampliando a incerteza sobre o cenário energético global. Analistas alertam que a continuidade da guerra pode provocar novas altas nos combustíveis nas próximas semanas.

Nos Estados Unidos, o impacto já é percebido pelos consumidores. O motorista de aplicativo Ahmed Abdelmagid relatou a escalada dos preços enquanto abastecia em Nova York. “Está muito caro”, afirmou. Ele acrescentou que “principalmente para Nova York, tudo está muito caro”.

De acordo com dados da plataforma GasBuddy, o preço à vista do galão de gasolina comum — equivalente a cerca de 3,7 litros — subiu 30 centavos durante a noite, atingindo US$ 3,29. A tendência, segundo especialistas, é de novas elevações.

Patrick De Haan, chefe de análise de petróleo da GasBuddy, afirmou que o valor médio da gasolina nos Estados Unidos pode alcançar entre US$ 3,50 e US$ 3,65 por galão ainda nesta semana. Para ele, a possibilidade de o combustível chegar a US$ 4 por galão, considerada improvável no início do conflito, agora já não parece distante. “Ainda tenho alguma confiança de que o presidente do 'perfure, perfure, perfure, US$ 1,85 por galão em Iowa' vai intervir antes de chegarmos a US$ 4”, disse.

Apesar do aumento da produção de petróleo nos Estados Unidos na última década, o mercado global continua altamente dependente do petróleo do Oriente Médio. Grande parte desse volume passa pelo Estreito de Ormuz, atualmente afetado pela guerra. Além do risco direto à oferta, os custos de seguro para navios petroleiros aumentaram significativamente, encarecendo o transporte de petróleo e derivados mesmo quando as cargas conseguem chegar aos destinos.

Para Jeff Currie, diretor de estratégia de caminhos energéticos do Carlyle Group, o impacto da crise energética pode superar episódios recentes. “O impacto nos mercados de energia provavelmente será muito maior do que quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022”, afirmou.

As disrupções no fornecimento também começam a alterar rotas comerciais globais. Os Estados Unidos, por exemplo, voltaram a exportar gasolina para a Austrália pela primeira vez desde 2023, evidenciando mudanças no fluxo internacional de combustíveis.

Pressão na cadeia global de suprimentos

O impacto da crise não ocorre de forma uniforme entre as regiões. Na Ásia, onde muitos países dependem fortemente do petróleo importado do Golfo Pérsico, empresas fornecedoras de combustíveis já começaram a reduzir vendas para preservar estoques diante da incerteza sobre o abastecimento.

Jeff Currie destacou que os efeitos logísticos já se espalham pela região. “Problemas na cadeia de suprimentos estão se espalhando pela Ásia, levando ao acúmulo de estoques, o que amplifica a escassez. Os preços estão começando a convergir com a realidade”, explicou.

Nos Estados Unidos, apesar da relativa abundância de petróleo bruto e combustíveis, os preços internos continuam fortemente influenciados pelo mercado internacional. Como os impostos representam uma parcela menor do preço final da gasolina no país, qualquer elevação no valor do petróleo costuma aparecer rapidamente nas bombas.

Segundo a Associação Americana de Automóveis (AAA), o preço médio nacional da gasolina comum chegou a US$ 3,41 por galão no sábado, o nível mais alto registrado sob o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na semana anterior, o valor médio era de US$ 2,98.

A escalada dos preços pode se tornar um problema político para aliados republicanos do governo, especialmente com a proximidade das eleições legislativas de meio de mandato, previstas para o outono.

Enquanto isso, os postos de combustíveis enfrentam dificuldades para acompanhar a volatilidade do mercado. Eric Blomgren, diretor executivo do New Jersey Energy Marketers Group, afirmou que muitos estabelecimentos estão reduzindo suas margens de lucro para evitar perda de clientes.

“Do jeito que os preços continuam subindo a cada dia, como consumidor, recomendo abastecer agora”, afirmou.

Combustível de aviação dispara

Na Europa, os reajustes ao consumidor têm sido mais moderados até o momento, em parte porque impostos mais elevados sobre combustíveis reduzem a volatilidade dos preços finais. Ainda assim, mercados como o de diesel e querosene de aviação começam a mostrar sinais de aperto.

Comerciantes se preparam para possíveis interrupções prolongadas no fornecimento do Oriente Médio e para rotas marítimas mais longas e caras — incluindo desvios ao redor do continente africano.

O governo da Alemanha já monitora a necessidade de medidas para conter a alta dos combustíveis, e analistas acreditam que outros países também avaliam possíveis intervenções.

Entre os combustíveis mais afetados está o querosene de aviação. Na região de Nova York, o preço do combustível para aeronaves saltou para cerca de US$ 3,89 por galão na última semana, após ter permanecido próximo de US$ 2 durante grande parte de 2025.

A elevação ocorre em um momento delicado para as companhias aéreas, que enfrentam demanda incerta por viagens e agora lidam com custos operacionais mais elevados.

Segundo Susan Bell, vice-presidente sênior de pesquisa de downstream da Rystad Energy, o mercado global de combustível de aviação opera próximo do limite de produção das refinarias. Qualquer redução adicional de oferta causada pela guerra pode gerar dificuldades para reposição do combustível em outras regiões do mundo.

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