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Petrobras segura preços e descarta reajuste imediato dos combustíveis mesmo com disparada do petróleo

Magda Chambriard afirma que estatal não fará repasses automáticos da alta internacional e diz que prioridade é evitar volatilidade na economia brasileira

Magda Chambriard (Foto: Reuters/Tita Barros)

247 – A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, descartou um reajuste imediato nos preços dos combustíveis, mesmo após a forte alta do petróleo no mercado internacional. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, a dirigente afirmou nesta sexta-feira (6) que o cenário externo ainda é instável demais para justificar uma decisão precipitada sobre os valores cobrados no mercado interno.

Ao comentar a pressão provocada pela escalada do conflito no Oriente Médio, Magda indicou que a companhia prefere aguardar uma definição mais clara da tendência dos preços internacionais antes de promover qualquer mudança. "Nesse momento, a gente se pergunta qual a tendência [de preços do petróleo], onde isso vai ficar, é spike [pico] momentâneo?", disse, durante encontro com analistas para detalhar o resultado financeiro de 2025. Em seguida, reforçou: "Esta pergunta ainda não está respondida."

A declaração ocorre em meio à disparada do petróleo Brent, que nesta sexta superou os US$ 90 por barril pela primeira vez desde abril de 2024. O movimento intensificou a diferença entre os preços praticados pela Petrobras e a chamada paridade de importação, acompanhada pela Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Na abertura do mercado, o diesel vendido pela estatal estava R$ 2,04 por litro abaixo da referência internacional. No caso da gasolina, a defasagem era de R$ 0,69 por litro.

Petrobras rejeita repasses automáticos

Magda Chambriard voltou a defender a política comercial adotada pela Petrobras, que rejeita o repasse automático das oscilações externas para o consumidor brasileiro. A posição marca distância da lógica adotada em períodos anteriores, quando a política de preços era diretamente atrelada às cotações internacionais e ao câmbio, impondo forte instabilidade ao mercado doméstico.

Em entrevista coletiva concedida na tarde de sexta-feira, a presidente foi enfática ao criticar esse modelo. "A política de repasses nervosos da variação do preço do petróleo para cima é coisa do passado. Gerou muita confusão, muita insegurança e só beneficiou grandes importadores", afirmou. Em seguida, acrescentou: "A sociedade perdeu, a Petrobras perdeu e dois ou três lucraram".

A fala reforça a estratégia da companhia de amortecer impactos externos e evitar que choques geopolíticos sejam imediatamente transferidos aos preços pagos por consumidores e setores produtivos no Brasil. A avaliação da direção da empresa é que uma reação automática a cada alta internacional poderia importar para a economia brasileira uma volatilidade que não interessa nem à sociedade nem à própria estatal.

Ainda assim, Magda reconheceu que a Petrobras poderá rever os preços caso a alta do petróleo se mostre consistente e prolongada. "Mas, nesse momento, a gente não tem certeza sequer dessa premissa", repetiu.

Defasagem cresce e mercado privado já reage

Enquanto a Petrobras mantém cautela, outros agentes do mercado já começaram a reajustar preços. Importadores e refinarias privadas vêm repassando o aumento de custos aos postos de combustíveis. A Refinaria de Mataripe, maior refinaria privada do país, já realizou dois reajustes no diesel e um na gasolina desde o início do agravamento do conflito no Oriente Médio.

Esse movimento evidencia uma diferença importante entre a atuação da Petrobras e a dos demais fornecedores. Enquanto agentes privados tendem a responder mais rapidamente à elevação dos custos internacionais, a estatal aposta numa leitura mais ampla do cenário, buscando preservar estabilidade no mercado interno.

Área técnica monitora petróleo, dólar e concorrência

O diretor de Comercialização e Logística da Petrobras, Claudio Schlosser, afirmou que a companhia acompanha diariamente a evolução do mercado por meio de relatórios técnicos que analisam o comportamento do petróleo, do dólar e dos preços praticados por concorrentes. Segundo ele, a empresa está monitorando o quadro com atenção antes de qualquer eventual decisão.

Schlosser afirmou que, na "foto do momento", o cenário ainda se mostra favorável à Petrobras. De acordo com o executivo, a alta do petróleo ampliou as margens sobre as exportações da companhia, o que ajuda a compensar parte das pressões externas.

O dado ganha peso porque, em 2025, a Petrobras registrou recorde de vendas externas, com 765 mil barris exportados por dia. O desempenho reforça a posição da estatal como grande exportadora de petróleo, o que lhe garante algum colchão financeiro em momentos de valorização do barril no exterior.

Estreito de Hormuz preocupa, mas Petrobras diz estar tranquila

Outro fator de tensão no mercado internacional é o impacto logístico decorrente do fechamento do Estreito de Hormuz, uma das rotas mais estratégicas para o comércio mundial de petróleo. Segundo Schlosser, a Petrobras se encontra em posição relativamente protegida diante desse cenário.

O diretor informou que cerca de 30% da frota de petroleiros da empresa opera com contratos de longo prazo, o que reduz a exposição imediata ao aumento dos fretes. Além disso, afirmou que a Petrobras segue recebendo petróleo leve da Arábia Saudita por rota alternativa ao estreito.

Ao tratar da segurança operacional da companhia, Schlosser buscou transmitir tranquilidade. "Estamos tranquilos, temos estoque bastante significativo de óleo", declarou.

Lucro bilionário e dividendos dentro do mínimo

A discussão sobre combustíveis ocorreu no mesmo dia em que a Petrobras detalhou seus resultados financeiros de 2025. A companhia registrou lucro de R$ 110,1 bilhões, um salto de 201% em relação ao ano anterior. O desempenho foi favorecido também pela base de comparação, já que o resultado anterior havia sido fortemente afetado por efeitos contábeis ligados à desvalorização do real.

Além do lucro expressivo, a empresa anunciou R$ 8,1 bilhões em dividendos aos acionistas. No total, repassou R$ 45,2 bilhões referentes aos resultados de 2025. O valor, porém, ficou restrito ao piso previsto em sua política de dividendos, sem distribuição extraordinária.

Esse ponto também foi abordado pela diretoria. Em entrevista coletiva, o diretor Financeiro da Petrobras, Fernando Melgarejo, afirmou que a empresa também não prevê dividendos extraordinários em 2026, mesmo diante da valorização do petróleo. Segundo ele, a prioridade da companhia é ampliar investimentos.

Prioridade é investimento, não remuneração extra

A sinalização de que não haverá dividendos extraordinários reforça a linha adotada pela atual gestão, que vem defendendo maior equilíbrio entre remuneração ao acionista e capacidade de investimento. A estratégia busca fortalecer a posição da Petrobras em projetos estruturantes e reduzir a visão de curto prazo que, durante anos, dominou os debates sobre a estatal.

Nesse contexto, a decisão de segurar reajustes imediatos nos combustíveis e a opção por não ampliar dividendos extraordinários apontam para uma mesma diretriz: preservar a empresa, sustentar investimentos e evitar que turbulências externas sejam convertidas, de forma automática, em pressão sobre a economia brasileira.

Com o petróleo em alta e o quadro geopolítico ainda indefinido, a Petrobras indicou que seguirá observando os próximos movimentos do mercado antes de qualquer mudança. Por ora, a mensagem da companhia é clara: não haverá repasse apressado, e a volatilidade internacional não ditará sozinha o preço dos combustíveis no Brasil.

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