Tesouro faz maior intervenção da história no mercado de títulos, mas juros do BC seguem sob pressão
Recompras somam R$ 43,99 bilhões em dois dias, enquanto risco de greve e alta do diesel mantêm instabilidade
247 – O Tesouro Nacional realizou a maior intervenção da história, em valor nominal, no mercado de títulos públicos ao intensificar seu programa extraordinário de recompras. Segundo informações do jornal Estado de S. Paulo, as operações realizadas entre segunda e terça-feira somaram R$ 43,99 bilhões, superando inclusive a atuação registrada no início da pandemia de covid-19, em 2020.
Somente nesta terça-feira, o Tesouro recomprou mais R$ 9,4 bilhões em títulos prefixados e R$ 7,1 bilhões em NTN-Bs, papéis indexados à inflação. A iniciativa ocorreu em meio a um ambiente de forte instabilidade no mercado de juros, após uma onda de perdas e acionamento de ordens automáticas de encerramento de posições (“stop-loss”) que atingiram fundos locais na semana anterior.
Intervenção recorde e reação limitada
Apesar do volume histórico de recursos mobilizados, a resposta do mercado foi apenas parcial. Os juros futuros chegaram a cair no início do pregão, refletindo o efeito imediato das recompras, mas inverteram a trajetória ao longo da tarde.
A mudança de direção foi influenciada por novas preocupações dos agentes financeiros, especialmente diante da possibilidade de uma paralisação de caminhoneiros em protesto contra a alta do diesel. Com isso, a taxa do DI para janeiro de 2028 subiu de 13,575% para 13,635%, enquanto a do DI para janeiro de 2029 avançou de 13,575% para 13,605%.
O movimento evidencia que, apesar da atuação agressiva do Tesouro, o mercado segue sensível a fatores de risco domésticos e externos, mantendo um ambiente de elevada volatilidade.
Contexto: estresse técnico e perdas de fundos
A intervenção ocorre após um período de forte disfuncionalidade no mercado de juros, especialmente no fim da semana passada. Muitos fundos estavam posicionados em estratégias que apostavam na queda das taxas futuras e acabaram sendo obrigados a encerrar posições automaticamente para limitar perdas.
Esse processo gerou uma pressão adicional sobre as taxas, ampliando o descolamento entre preços e fundamentos. A atuação do Tesouro buscou justamente reduzir esse efeito, oferecendo liquidez e suavizando movimentos abruptos.
Um estrategista ouvido pelo Valor destacou que o Tesouro “continuou a dar alívio para a parcela do mercado que sofreu com ‘stops’ na semana passada”, reforçando o caráter emergencial das medidas.
Comparação com a pandemia e outros episódios de crise
O volume de R$ 43,99 bilhões supera a intervenção realizada em março de 2020, quando o Tesouro recomprou R$ 35,59 bilhões em meio ao pânico global provocado pela covid-19, segundo dados da Necton Investimentos.
Ainda assim, quando se considera o risco efetivamente retirado do mercado — medido pelo dv01 —, a operação da pandemia ainda foi mais intensa, com cerca de R$ 19,1 milhões, contra aproximadamente R$ 14,3 milhões na atuação atual.
Historicamente, o Tesouro já interveio em outros momentos críticos, como na crise fiscal de dezembro de 2024, na greve dos caminhoneiros de 2018, no “Joesley Day” de 2017, na eleição de Donald Trump — atual presidente dos Estados Unidos — em 2016, e na perda do grau de investimento do Brasil em 2015.
Avaliações do mercado: atuação rápida, mas com ressalvas
Para Frederico Catalan, membro da gestão de renda fixa do Opportunity, a atuação foi decisiva para restabelecer o funcionamento do mercado.
“A atuação foi muito boa. O Tesouro agiu bem, de forma preemptiva e bastante decidida. Atuou rapidamente, após dois dias em que o mercado de juros locais negociou muito mal, com um movimento técnico relevante até sexta-feira e colocou um lote bastante significativo, tanto no prefixado quanto nas NTN-Bs”, afirmou.
Segundo ele, a estratégia foi adequada ao contexto. “Foi uma intervenção como deveria ser: sem esperar muito e, quando entrar, entrar com um lote relevante para, de fato, causar impacto e normalizar o mercado.”
Catalan avalia ainda que o Tesouro pode seguir atuando nos próximos dias para consolidar o processo de estabilização.
Já Gustavo Pi Okuyama, gestor de renda fixa da Porto Asset, considera que a intervenção foi correta, mas poderia ter sido antecipada.
“Mas, de qualquer maneira, o Tesouro foi bem correto na intervenção, com um bom timing”, disse.
Ele pondera, no entanto, que o impacto poderia ter sido maior caso a atuação tivesse ocorrido já na sexta-feira, dia em que o estresse foi mais intenso.
Debate sobre estratégia e tamanho da intervenção
Okuyama também levanta dúvidas sobre o volume inicial das recompras. Para ele, o Tesouro poderia ter adotado uma estratégia mais gradual.
“Não é consenso de que foi estratégia ótima ele ter vindo com um tamanho tão grande e ter sido até agressivo em aceitar as propostas”, afirmou.
Segundo o gestor, a dinâmica observada ao longo do dia reforça essa avaliação. “Quando o Tesouro interveio, o mercado performou bem e as curvas fecharam, mas, ao longo do dia, com a notícia de uma possibilidade de greve dos caminhoneiros, houve uma nova piora relevante das taxas.”
Na visão dele, um programa mais longo e previsível poderia gerar resultados mais consistentes. “Talvez fosse uma estratégia onde ele conseguiria agir por mais tempo e ter um resultado melhor. Sobra essa dúvida no mercado sobre se ele vai conseguir ou não manter esse ritmo.”
Ainda assim, Okuyama defende a continuidade das ações. “Faz sentido ele continuar no mercado, pelo menos por alguns dias. Não sei se com esse tamanho todo, mas, pelo menos, para mostrar que está ali para diminuir a volatilidade.”
“Bala de prata” e uso do caixa acumulado
Outro gestor, que preferiu não se identificar, avaliou que a intervenção demonstra a eficácia da estratégia do Tesouro de acumular caixa nos últimos meses.
“Até me surpreendeu ele anunciar logo nesta semana. O cenário de guerra e petróleo ainda está muito instável. Mas, no fim das contas, ele tinha espaço para fazer e acabou usando sua bala de prata”, afirmou.
Ele também questiona a decisão de atuar simultaneamente em títulos prefixados e NTN-Bs. “Acho que ele quis passar o recado de que veio para resolver o problema. Não sei dizer se foi certo ou não.”
Para esse gestor, os acontecimentos do próprio dia indicam que o impacto foi limitado. “À tarde, tivemos o leilão de NTN-B e, logo depois, o ruído envolvendo os caminhoneiros. Adiantou? Parece que não.”
Mercado ainda longe da normalidade
Mesmo com a maior intervenção da história, o diagnóstico predominante entre os agentes financeiros é que o mercado de juros ainda está distante de um funcionamento plenamente normal.
Os movimentos abruptos ao longo do pregão e a rápida reversão das taxas indicam que fatores de risco continuam pesando sobre as expectativas. Nesse cenário, a atuação do Tesouro tende a permanecer como um instrumento relevante para conter a volatilidade e evitar distorções mais profundas no sistema financeiro.


