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Trump diz que petroleiras dos EUA investirão bilhões para recuperar produção de petróleo da Venezuela

Declaração ocorre horas após remoção de Nicolás Maduro por forças americanas; analistas alertam que reerguer a indústria exigirá “dezenas de bilhões”

Chevron (Foto: Reprodução)

247 – A entrada de grandes petroleiras americanas na Venezuela para reconstruir a capacidade de produção de petróleo no país voltará ao centro da política energética dos Estados Unidos, segundo afirmou neste sábado o presidente Donald Trump. A declaração foi feita poucas horas depois de Nicolás Maduro ter sido capturado e removido por forças dos EUA, em um movimento que pode redesenhar o futuro do setor petrolífero venezuelano e intensificar a disputa geopolítica na América do Sul.

As informações foram publicadas pela Reuters, que acompanhou as declarações do presidente e ouviu especialistas e representantes do setor sobre o tamanho do desafio para reativar a infraestrutura petrolífera venezuelana.

Em fala a jornalistas, Trump afirmou que empresas dos Estados Unidos estariam dispostas a investir pesado para recuperar campos e instalações que hoje operam com capacidade degradada. Segundo ele, o objetivo seria reconstruir a infraestrutura e aumentar rapidamente o fluxo de petróleo: “Vamos colocar nossas muito grandes empresas de petróleo dos EUA, as maiores em qualquer lugar do mundo, para entrar, gastar bilhões de dólares, consertar a infraestrutura muito quebrada, a infraestrutura de petróleo, e começar a fazer dinheiro para o país”, disse Trump neste sábado.

A Venezuela, dona das maiores reservas de petróleo do mundo, vive há anos uma queda acentuada na produção. De acordo com dados citados pela Reuters com base na U.S. Energy Information Administration, o país produzia 3,2 milhões de barris por dia em 2000, mas hoje opera bem abaixo desse patamar. Ainda assim, exportou cerca de 921 mil barris por dia em novembro, segundo o mesmo levantamento.

Chevron no centro do tabuleiro e antigas gigantes de olho

Atualmente, a Chevron é a única grande petroleira americana ainda presente nos campos venezuelanos, produzindo petróleo pesado — matéria-prima importante para refinarias da Costa do Golfo dos Estados Unidos e de outras unidades. Outras gigantes, como Exxon Mobil e ConocoPhillips, tiveram atuação histórica no país, mas deixaram o território após a nacionalização de projetos que ocorreu há quase duas décadas, no período do ex-presidente Hugo Chávez.

O American Petroleum Institute, principal entidade de representação do setor de petróleo e gás nos EUA, afirmou que está monitorando a evolução da situação no país sul-americano.

Para Francisco Monaldi, diretor do programa de energia para a América Latina do Baker Institute, da Rice University, a Chevron sai na frente caso haja uma abertura de mercado mais ampla. Ainda assim, ele ressalta que a volta de outras empresas dependerá de estabilidade e regras claras. “A empresa que provavelmente terá muito interesse em voltar é a Conoco, porque ela tem mais de US$ 10 bilhões a receber, e é improvável que ela seja paga sem voltar ao país”, afirmou Monaldi, segundo a Reuters.

Sobre a Exxon, ele indicou que também poderia retornar, embora com valores menores a recuperar. O especialista acrescentou ainda que as grandes americanas não tenderiam a evitar o petróleo pesado, por ser essencial ao mercado doméstico: “Exxon, Conoco e Chevron, as três, não vão se preocupar em investir em petróleo pesado, dado que ele é muito necessário nos Estados Unidos e que elas têm menos foco em descarbonização”, disse Monaldi.

O fantasma das nacionalizações e o peso da insegurança jurídica

O retorno das gigantes esbarra em um histórico de conflitos e arbitragens. A Conoco busca há anos compensações bilionárias ligadas à tomada de três projetos. Já a Exxon travou longas disputas de arbitragem após sair do país em 2007, também em decorrência da política de nacionalização.

Esse passado reforça o temor de que, mesmo com uma mudança política, a segurança jurídica e a previsibilidade contratual possam ser obstáculos para investimentos de grande porte — sobretudo em um setor que exige estabilidade de longo prazo, capex alto e projetos com maturação em anos.

Licenças, bloqueio e a estratégia delicada da Chevron

A Chevron, por sua vez, vem tentando manter operações sob regras restritivas impostas por Washington nos últimos anos. A Reuters lembra que, em fevereiro, Trump cancelou uma licença concedida anteriormente no governo do ex-presidente Joe Biden que permitia exportar petróleo venezuelano. Em julho, no entanto, a empresa recebeu uma nova autorização, mais limitada, permitindo retomar parte das operações e realizar trocas de petróleo desde que nenhum recurso fosse destinado ao governo Maduro.

Em dezembro, o CEO da Chevron, Mike Wirth, disse ter conversado com autoridades tanto do governo Biden quanto do governo Trump sobre a necessidade de manter uma presença americana no país atravessando diferentes ciclos políticos. A empresa atua na Venezuela há mais de 100 anos.

Neste sábado, um porta-voz da Chevron afirmou por e-mail que a companhia prioriza segurança e integridade operacional: “Continuamos a operar em total conformidade com todas as leis e regulamentos relevantes”, disse o representante, segundo a Reuters.

Serviços essenciais e o alerta: “dezenas de bilhões” e uma década (ou mais)

Para que a produção venezuelana volte a crescer de forma significativa, analistas lembram que não basta trocar comando político. A indústria exige uma cadeia de serviços e equipamentos que depende de empresas como SLB, Baker Hughes, Halliburton e Weatherford — companhias citadas pela Reuters como fundamentais para viabilizar qualquer expansão consistente do petróleo pesado venezuelano. Elas não responderam imediatamente aos pedidos de comentário da agência.

A dimensão do problema, porém, é descrita como gigantesca. Para Peter McNally, Global Head of Sector Analysts da Third Bridge, o nível de deterioração e incertezas indica que a recuperação exigirá uma reconstrução quase estrutural: “Ainda há muitas perguntas que precisam ser respondidas sobre o estado da indústria de petróleo venezuelana, mas é claro que levará dezenas de bilhões de dólares para dar a volta por cima nessa indústria”, afirmou. Ele acrescentou que pode ser necessário pelo menos uma década de compromisso contínuo de grandes empresas ocidentais para reposicionar a Venezuela.

A Reuters também observa que companhias europeias tendem a ser mais cautelosas, sobretudo em relação à Faixa do Orinoco, uma das áreas mais prolíficas do país, mas que requer investimentos elevados, tecnologia e estabilidade.

Embargo segue em vigor e Trump fala em presença militar

Apesar do discurso de “recuperação” e de “óleo fluindo”, Trump afirmou que o embargo dos EUA sobre todo o petróleo venezuelano segue plenamente em vigor. Ele disse ainda que forças militares americanas permanecerão posicionadas até que exigências dos EUA sejam cumpridas.

“A armada americana permanece posicionada, e os EUA mantêm todas as opções militares até que as demandas dos Estados Unidos tenham sido totalmente cumpridas e totalmente satisfeitas”, disse Trump, de acordo com a Reuters.

A agência também relata que petroleiros fretados pela Chevron foram alguns dos poucos a deixar a Venezuela no último mês, após Trump anunciar em dezembro um “bloqueio” contra navios sancionados que entrassem ou saíssem do país.

Um plano de alto impacto — e alto risco

A sinalização de Trump aponta para uma tentativa de reconfigurar o setor de energia venezuelano sob influência direta de empresas americanas e sob a lógica de mercado, mas em meio a um ambiente ainda incerto: infraestrutura degradada, histórico de nacionalizações, dúvidas sobre estabilidade e um embargo que, por ora, segue de pé.

Mesmo com a promessa de bilhões em investimentos, especialistas destacam que a reconstrução não será rápida. E, no pano de fundo, permanece a grande questão política: que tipo de arranjo institucional e contratual será estabelecido após a remoção de Maduro — e por quanto tempo ele poderá se sustentar sem uma nova espiral de instabilidade.

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