Vorcaro diz que gostaria de ter saído do sistema financeiro pela porta da frente
Em depoimento no caso Banco Master, executivo nega fraude de R$ 12 bilhões, relata pressão por documentos e afirma que transação com o BRB “não existiu”
247 – Daniel Vorcaro afirmou que gostaria de ter deixado o sistema financeiro “pela porta da frente”, sem gerar prejuízo para ninguém, ao comentar a crise que culminou na liquidação do Banco Master e em sua prisão. A declaração foi dada em depoimento à Polícia Federal no final de 2025, no qual ele contesta a narrativa de que teria havido uma fraude bilionária envolvendo carteiras de crédito e operações ligadas ao BRB.
Ao longo do interrogatório, Vorcaro buscou sustentar que o negócio que se tornou o centro do escândalo não chegou a se concretizar plenamente. “O que eu posso afirmar é que a transação não existiu”, disse, ao ser questionado sobre a venda de carteiras de crédito supostamente intermediadas pela empresa Tirreno e atribuídas como originadas pela Cartos Sociedade de Crédito Direto. Segundo ele, o processo foi interrompido antes de qualquer conclusão contábil ou operacional que caracterizasse a efetivação das operações.
Depósito em "conta escrow" e ausência de pagamento efetivo
Questionado sobre a relação do Banco Master com a Tirreno, Vorcaro confirmou que os recursos vinculados a uma promessa de transação ficaram depositados em uma conta específica, sem que houvesse pagamento efetivo. “Os recursos estavam depositados numa conta escrow ali, que era uma conta que a gente criou reserva remunerada”, afirmou.
No depoimento, ele reconheceu que a Tirreno não apresentou a documentação necessária para formalizar as operações de crédito cedidas. Por isso, segundo sua versão, o Master não teria concluído o pagamento. “A Tirreno jamais apresentou essa documentação. O Banco Master, portanto, nunca pagou efetivamente”, confirmou ao ser confrontado com documentos do Banco Central.
Origem das carteiras vendidas ao BRB e a versão de que "o negócio foi desfeito"
Um dos pontos centrais do interrogatório envolve a tentativa de esclarecer de onde vieram as carteiras de crédito que o Banco Master teria vendido ao BRB por R$ 12,2 bilhões. Vorcaro afirmou não ter informações detalhadas sobre a origem. Disse apenas que havia “18 parceiros originadores”, mas reforçou que, como a transação final não teria sido efetivada, o banco não se aprofundou na investigação da qualidade ou da documentação completa desses créditos.
“Eu não posso dizer que as carteiras eram falsas. Eu não posso afirmar”, declarou. E completou: “A gente não aprofundou porque a transação final não foi realizada”.
Ele também contestou a ideia de que o Master tenha recebido valores como se o negócio estivesse concluído. Segundo ele, para uma transação existir de fato, seria necessário registrar aquisição e venda, recolher impostos, alocar o prêmio como resultado e iniciar a cobrança dos clientes, o que, em sua versão, não ocorreu. “Nada disso foi feito. Então ela foi interrompida e desfeita antes de ser concluída”, afirmou.
"Não concordo" com a tese de créditos fabricados
Ao ser confrontado com a hipótese de que as carteiras teriam sido criadas artificialmente — o que indicaria créditos falsos — Vorcaro rejeitou essa conclusão. “Não concordo. Volto a dizer, eu não sei dessas operações”, disse, argumentando que o banco não chegou a aprofundar as análises na ponta porque a operação teria sido desfeita antes da conclusão.
Em outro momento, diante da cobrança para escolher uma das três alternativas sobre a origem das carteiras (transferência gratuita, fabricação do nada ou apropriação sem pagamento), ele se recusou a apontar qualquer hipótese como verdadeira. “Não tem como entrar na transação entre Cartos e Tirreno. Desculpa, não consigo identificar dessas três qual aconteceu”, afirmou.
Cancelamento "imediato e irreversível" e novas compras bilionárias
Um trecho que chamou atenção no depoimento foi a confirmação de que o Banco Master notificou a Tirreno em 2 de abril de 2025 sobre o “imediato e irreversível cancelamento” das operações por descumprimento contratual e falta de documentação. “Confirmo”, disse Vorcaro.
O interrogatório, porém, destacou uma aparente contradição: após esse cancelamento, o Banco Master teria adquirido mais R$ 2,3 bilhões em carteiras da mesma Tirreno em abril e maio de 2025. Vorcaro justificou dizendo que havia uma negociação em curso e que, naquele momento, o banco ainda esperava receber a documentação completa.
Segundo ele, a notificação não foi “encenação” para criar um álibi. “De forma alguma. Ali a gente estava pressionando para ter a documentação que era tão importante para a gente”, declarou. Ele afirmou que o desfazimento definitivo só ocorreu semanas depois, em maio, e que após isso não houve novas aquisições.
Participação direta nas tratativas com o BRB
Vorcaro admitiu que participou pessoalmente das negociações com o BRB para a cessão de carteiras de crédito. “Sim, participei”, afirmou. Segundo ele, a negociação “macro” era feita entre ele e Paulo Henrique Costa, presidente do Banco Regional de Brasília (BRB), enquanto equipes operacionais tratavam dos detalhes.
Ele citou nomes que teriam participado do lado do Banco Master, como Ângelo, Alberto Félix (tesoureiro) e Luiz Bu, além de diretorias e equipes de tesouraria.
Venda sem documentação completa e responsabilidade pelo "vício formal"
Outro ponto sensível do depoimento envolve a acusação de que o Banco Master teria cedido ao BRB créditos cuja documentação ainda não estava completa. Vorcaro reconheceu que a cessão ocorreu sem que todos os documentos tivessem sido entregues.
“Sim. Faz parte do negócio”, disse, ao confirmar que a cessão ocorreu antes da documentação completa estar em mãos. Ele argumentou, porém, que existia uma “documentação básica” e que tanto o Master quanto o BRB teriam realizado análises de crédito e compliance.
Vorcaro também afirmou que o risco de inadimplência costuma passar ao comprador em operações de cessão, mas que permanece o risco de “vício documental” e de existência do que está previsto em contrato. Segundo ele, foi justamente esse problema documental que levou ao desfazimento da operação.
Prêmio de R$ 5,5 bilhões e registro contábil em "conta transitória"
O interrogatório também abordou o prêmio de R$ 5,5 bilhões associado à operação. Vorcaro afirmou que o valor não foi registrado como resultado. “Não foi registrado. Ele ficou numa conta transitória também esperando a conclusão da transação”, declarou.
Ao ser questionado sobre a crítica do Banco Central de que o Master teria feito um registro contábil “não previsto nas normas”, ele sustentou que houve discussão entre a controladoria do banco e agentes da supervisão do BC, e que a explicação era justamente a não conclusão da transação.
Defesa do negócio e elogios ao BRB
Mesmo sob suspeitas, Vorcaro afirmou que, se fosse presidente do BRB, ainda tentaria comprar o Banco Master. “Sim, se eu fosse o BRB, compraria. E foi uma pena o negócio ter sido negado”, disse, argumentando que a operação teria sido positiva para o sistema financeiro e para o crescimento do banco público.
Ele afirmou que o BRB poderia ganhar escala nacional e competir com grandes bancos, e sustentou que o negócio teria sido recomendado por auditorias e avaliado como positivo até por instâncias de fiscalização antes da negativa final.
Reunião com diretor de fiscalização e surpresa com liquidação e prisão
Vorcaro relatou que participou em 17 de novembro de 2025 de uma videoconferência com Airton de Aquino Santos, diretor de fiscalização do Banco Central. Segundo ele, a reunião foi solicitada por ele próprio e fazia parte da continuidade de conversas para apresentar um plano de solução após a negativa da transação com o BRB.
Ele negou ter conhecimento de que a liquidação extrajudicial do Banco Master seria decretada no dia seguinte e disse não ter qualquer pressentimento sobre mandado de prisão. “De maneira nenhuma. Nem nos meus piores pesadelos”, afirmou.
Vorcaro também negou que sua viagem ao exterior, com escala em Dubai, tivesse objetivo de fugir. “Com certeza para negócios”, disse, alegando que isso teria sido provado documentalmente.
Relações políticas e negativa de interferência
Questionado sobre conversas com o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, Vorcaro confirmou contatos em “poucas oportunidades” e disse que foram conversas institucionais. Ele afirmou que não houve diálogo com outras autoridades públicas sobre a aquisição do Banco Master pelo BRB além do governador e das autoridades do Banco Central.
Vorcaro negou qualquer tentativa de interferência política na supervisão do Banco Central ou junto ao BRB. “De forma alguma”, respondeu.
Também negou doações eleitorais, embora tenha mencionado patrocínios a eventos de discussão institucional. “Doações eleitorais nenhuma”, afirmou.
Destino dos R$ 16,7 bilhões e negação de benefício pessoal
Segundo o interrogatório, o BRB teria transferido aproximadamente R$ 16,7 bilhões ao Banco Master entre julho de 2024 e outubro de 2025. Vorcaro afirmou que os recursos tiveram destino nas “atividades normais do banco”, como resgate de investidores.
Ele negou que qualquer parcela tenha sido usada para remunerá-lo pessoalmente ou beneficiar familiares. “De forma alguma”, declarou. Disse ainda que, nos últimos seis meses, teria feito cessão de ativos pessoais e integralizado recursos no banco, numa tentativa de buscar solução definitiva.
Contas no exterior e holding nas Ilhas Cayman
Questionado sobre bens e investimentos fora do país, Vorcaro disse não se lembrar de todas as contas, mas confirmou que a holding proprietária do banco estava estruturada nas Ilhas Cayman. “Eu possuo a holding do banco, que era proprietária do banco, que é nas Ilhas Cayman”, afirmou. Ele negou ter casa em Miami, dizendo que houve apenas “locação de um imóvel” e que a mídia teria distorcido o caso.
"Forças internas" e a ideia de retirada do mercado
Nos momentos finais, Vorcaro afirmou que sua percepção é de que havia forças internas no Banco Central e no mercado que desejavam sua saída do setor financeiro. “Existiam forças ali internas do Banco Central e de mercado que queriam que eu estivesse fora do mercado e queriam que acontecesse o que aconteceu”, declarou.
Ele disse ter sido alertado de que seria retirado do mercado se não deixasse o banco e afirmou que chegou a se dispor a sair, mas queria evitar danos. “Eu me dispus a deixar, me dispus a fazer todo o roteiro de saída, só que eu queria ter saído pela porta da frente, não gerando prejuízo para ninguém e não foi possível pela maneira que eles conduziram”, disse.
Pedido de "benefício da dúvida" e contestação de fraude bilionária
Vorcaro encerrou sua fala pedindo que as autoridades considerem o “benefício da dúvida” diante da pressão midiática. “Eu continuo confiando na Justiça”, afirmou, alegando que não houve prejuízo a terceiros e que “essa fraude que foi colocada aqui, ela não existiu”.
Em outro trecho, ele contestou diretamente a narrativa central do caso. “Realmente não existe ninguém que foi prejudicado e realmente não existe uma fraude de R$ 12 bilhões”, declarou, sustentando que há interesses por trás do desfecho que atingiu o banco e sua liberdade.
Ainda assim, ele afirmou estar disposto a colaborar para esclarecer os fatos. “Eu vou fazer tudo que for possível, doutor, para a gente estabelecer a verdade”, disse, admitindo que o banco não era perfeito, mas insistindo que a acusação de fraude bilionária não corresponde à realidade apresentada por ele no depoimento.


