Almeida vê 'EUA em decadência', mas alerta para cobiça do governo Trump na América Latina
Analista diz na TV 247 que o continente latinoamericano é alvo central dos Estados Unidos em meio à ascensão chinesa e à crise da hegemonia estadunidense
247 - O analista político Ricardo Almeida fez duras críticas ao governo Donald Trump (EUA) e afirmou esta semana que os “Estados Unidos estão em decadência”. Em participação no programa Giro das Onze, da TV 247, o comentarista disse que a pretensão da gestão trumpista é reafirmar influência na América Latina em um momento de perda de força global. Segundo ele, a disputa entre EUA e China molda parte do cenário latino-americano e ajuda a explicar a pressão sobre países como Venezuela, Colômbia, Bolívia e Brasil.
“A América Latina é a única que pode salvar a decadência dos Estados Unidos”, alertou Almeida, que também repudiou a política externa estadunidense na relação com a Venezuela. “Um país sob embargo econômico expulsa seus habitantes, faz com que seus habitantes sofram?”
O analista defendeu que os dois terremotos no país sul-americano não podem ser analisados sem o contexto internacional. Almeida classificou o terremoto como o terceiro grande golpe recente sofrido pela Venezuela, depois do embargo econômico e da instabilidade política causada pela pressão estrangeira.
De acordo com o analista, a disputa pelo rumo da Venezuela envolve interesses econômicos e estratégicos de potências estrangeiras. “Eu diria que é um Estado em disputa pelo capital internacional, principalmente os Estados Unidos”, disse.
Cenário político regional

Atualmente, a direita governa El Salvador, na América Central, com o presidente Nayib Bukele, e também tem presidentes na América do Sul, como Chile (Antonio Kast), Argentina (Javier Milei), Bolívia (Rodrigo Paz), Paraguai (Santiago Peña) e Equador (Daniel Noboa).
Em outros dois países sul-americanos, a direita conseguiu se eleger. Um deles foi a Colômbia, onde o direitista Abelardo de la Espriella foi declarado oficialmente vencedor contra Iván Cepeda, candidato apoiado pelo presidente Gustavo Petro, de viés progressista.
Com 99,8% das urnas apuradas, Espriella tinha 49,7% dos votos, e Cepeda, 48,7%. Mesmo que todos os votos que representam os 0,2% restantes fossem integralmente para o candidato da esquerda, ele só poderia chegar a 48,9%. No Peru, a candidata Keiko Fujimori conseguiu 50,135% dos votos válidos. Ela alcançou 9.223.396 votos, contra 9.173.755, ou 49,865%, de Roberto Sánchez, de esquerda.
Na América do Sul, o campo progressista governa países como Brasil, com Lula, e Uruguai, com Yamandú Orsi. A esquerda também tem presidente em Cuba, com Miguel Díaz-Canel, na América Central, e no México, com Claudia Sheinbaum, na América do Norte.
A Venezuela, na América do Sul, tinha Nicolás Maduro, que foi sequestrado em 3 de janeiro deste ano por forças estadunidenses. Sua sucessora, Delcy Rodríguez, implementa uma abertura da economia venezuelana aos EUA.
Bolívia
Na Bolívia, Almeida descreveu um cenário de exceção, tensão social e resistência organizada. Segundo ele, o povo boliviano mantém alto grau de mobilização nas ruas, sobretudo em regiões camponesas, indígenas e mineiras. “O povo da Bolívia é muito organizado, muito mais que a Colômbia, muito mais que o Brasil, muito mais do que quase todos os países da América”, afirmou.
O analista disse que a população recuou temporariamente após a aprovação de medidas de exceção, mas segue em estado de preparação. “Deram esse prazo, essa pausa, vamos dizer assim”, afirmou. Ele também mencionou a região do Chapare, onde Evo Morales contaria com proteção popular diante da possibilidade de prisão.
Colômbia
O analista Ricardo Almeida também comentou a Colômbia e avaliou que a derrota do campo ligado a Gustavo Petro não encerra o ciclo da esquerda no país. Para ele, o Pacto Histórico segue organizado e conserva peso institucional. “Eles vão voltar, eles vão voltar porque eles são muitos e foi a primeira vez que eles se elegeram”, afirmou.
Ao explicar o resultado colombiano, o comentarista afirmou que o campo progressista errou ao concentrar esforços contra uma candidata da direita tradicional e subestimar o avanço da extrema direita. “Eles se preocuparam muito mais em combater essa candidata e deixaram o Espriella sozinho. Quando se deram conta, já era tarde”, disse.
Fator China
Em sua análise sobre a América Latina, Almeida contrastou a política externa dos EUA com a presença chinesa, que, segundo ele, atua de forma mais silenciosa e focada em infraestrutura. “A China investe em infraestrutura dos Estados-nação. Ela não intervém na política diretamente”, disse.
Principal potência que ameaça a hegemonia dos EUA na economia internacional, a China ficou na segunda posição no ranking das maiores economias globais em 2025 divulgado pela agência de classificação de risco Austin Rating. O Produto Interno Bruto chinês foi de US$ 19,46 trilhões, atrás apenas do PIB estadunidense, de US$ 30,62 trilhões.
O analista conectou esse ponto à comunicação política no Brasil. Para ele, informações não chegam aos territórios no mesmo ritmo em que circulam entre formadores de opinião nas grandes cidades. “A comunicação se dá em ondas para chegar aos territórios mais remotos”, afirmou. Em seguida, citou uma frase de um amigo de Roraima: “Quem fala em Brasil profundo vive na superfície”.




