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Altman: Irã tem muito mais resiliência do que Israel

Analista afirma que coesão interna iraniana e aposta em guerra longa elevam custo do conflito para Israel e para o presidente dos Estados Unidos

Altman: Irã tem muito mais resiliência do que Israel (Foto: Brasil247)

247 - O agravamento do confronto envolvendo Irã, Israel e os Estados Unidos inaugura uma fase de alta tensão no Oriente Médio, com desdobramentos militares e políticos ainda imprevisíveis. Em meio à disputa de versões e à dificuldade de confirmação de informações, o analista Breno Altman sustenta que o fator decisivo pode não estar apenas na superioridade bélica, mas na capacidade de resistência de cada sociedade.

A análise foi feita por Altman em participação no programa Bom Dia 247, da TV 247, onde ele examinou o cenário da guerra, seus reflexos regionais e os impactos eleitorais nos Estados Unidos e em Israel. 

Conflito marcado por guerra de narrativas

Altman ressalta que ainda é cedo para conclusões definitivas no campo militar. Segundo ele, conflitos desse porte produzem inevitavelmente uma “guerra de narrativas”, na qual cada lado tende a “superestimar suas vitórias e subestimar suas perdas”. Esse ambiente, afirma, dificulta a leitura objetiva dos fatos nas primeiras horas ou dias de combate.

Apesar disso, o analista identifica alguns elementos já visíveis. Na sua avaliação, Estados Unidos e Israel não estariam enfrentando um Estado fragilizado ou desorganizado, mas “um estado milenar, um país gigantesco territorialmente”, com população numerosa e, segundo ele, “uma coesão interna impressionante”, mesmo diante de divergências políticas internas.

Coesão social e sucessão em camadas no Irã

Altman menciona manifestações de luto e mobilização popular após a morte de Ali Khamenei, destacando que, apesar de episódios isolados de celebração, o que predominou foram “grandes massas populares em luto” em diferentes cidades iranianas. Para ele, esse comportamento indica manutenção da coesão social, elemento considerado essencial em contextos de guerra.

O analista também afirma que o Irã teria estruturado um sistema de sucessão para seus principais cargos, com “quatro níveis de sucessão”, inclusive para o posto máximo. A ideia, segundo ele, seria garantir continuidade institucional mesmo sob ataques diretos à liderança política ou militar.

Capacidade ofensiva e estratégia de desgaste

No campo militar, Altman distingue defesa e ataque. Ele avalia que o Irã possui “baixa capacidade defensiva”, ainda que tenha avançado em relação a anos anteriores, mas destaca uma “espetacular capacidade ofensiva”. Segundo sua leitura, o país estaria atingindo alvos em diversas regiões onde há presença de bases norte-americanas, além de Israel.

A estratégia, de acordo com o analista, seria levar o conflito a um ponto de exaustão. “O foco de uma guerra é a sua resiliência”, afirma, citando a ideia de que vence quem suporta mais perdas e mantém coesão interna. Para ele, “a resiliência da sociedade iraniana é muito superior à da sociedade israelense”, sobretudo em um cenário de guerra prolongada.

Altman, no entanto, pondera que isso não significa vitória automática. Ele reconhece que “os Estados Unidos são muito poderosos” e possuem capacidade militar superior, além de forte presença na região. Ainda assim, observa que Washington atua longe de seu território, o que pode gerar desafios logísticos caso o conflito se prolongue.

Impactos políticos para Trump e Netanyahu

Ao analisar os efeitos internos nos Estados Unidos, Altman considera plausível a hipótese de desgaste eleitoral para o presidente dos Estados Unidos Donald Trump, embora recomende cautela antes de conclusões definitivas. Ele lembra que Trump foi eleito com discurso contrário a novos conflitos externos e que setores de sua base podem reagir negativamente a um envolvimento militar prolongado.

Por outro lado, o analista observa que guerras costumam produzir, em um primeiro momento, reações de apoio ao governo, especialmente se a narrativa oficial sustentar a ideia de vitória ou de defesa de interesses nacionais.

Em relação a Benjamin Netanyahu, Altman afirma que, historicamente, momentos de guerra tendem a fortalecer correntes mais duras do sionismo. “O maior cabo eleitoral de Netanyahu é sempre a guerra”, diz. Contudo, ele ressalta que esse efeito pode se inverter caso os israelenses passem a associar diretamente o conflito a perdas humanas e insegurança cotidiana.

O cálculo de Lula diante da Casa Branca

Questionado sobre a possibilidade de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva manter agenda nos Estados Unidos em meio ao conflito, Altman pondera os riscos e benefícios. Para ele, uma visita poderia ser interpretada como sinal de alinhamento ou “aparência de cumplicidade”, sobretudo considerando o papel do Brasil no BRICS.

Por outro lado, a ausência poderia gerar tensão diplomática e alimentar discursos de confronto. Segundo Altman, a decisão tende a ser guiada por cálculo político e eleitoral, dada a proximidade do próximo pleito.

Brasil já vive clima de campanha eleitoral

No cenário interno, o analista avalia que o país já está em dinâmica eleitoral, independentemente das regras formais. Ele considera que a mobilização recente da direita não foi “nem tão fraca quanto o nosso lado celebra, nem tão forte quanto o lado de lá gostaria”, mas suficiente para demonstrar que o bolsonarismo mantém capacidade de organização.

Para Altman, a disputa de 2026 tende a ser ainda mais intensa que a de 2022, em um ambiente marcado por polarização, tensões internacionais e uso político de qualquer fato que possa influenciar a opinião pública. O desfecho, tanto no Oriente Médio quanto no Brasil, dependerá da capacidade de cada ator político de sustentar apoio e administrar os custos de suas decisões.

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