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Alysson Mascaro diz que capital financeiro controla Trump e mira o Pix

Jurista afirma à TV 247 que ofensiva dos Estados Unidos contra o Brasil reflete interesses de bancos, fundos financeiros e empresas de cartão de crédito

Alysson Mascaro diz que capital financeiro controla Trump e mira o Pix (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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247 – O jurista e filósofo Alysson Mascaro afirmou, em entrevista à TV 247, que a ofensiva do governo de Donald Trump contra o Brasil deve ser compreendida como parte de uma estratégia imperialista conduzida pelo capital financeiro dos Estados Unidos. Segundo ele, temas como Pix, terras raras, narcoterrorismo, PCC e Comando Vermelho aparecem como justificativas variáveis para uma mesma lógica de pressão geopolítica.

Na conversa com Leonardo Attuch, editor da TV 247, Mascaro sustentou que os Estados Unidos seguem organizados como uma potência imperialista há mais de um século, mas agora enfrentam um cenário internacional mais adverso, com a ascensão do mundo multipolar e a perda relativa de influência global. “Os fatos são novos. Então, a cada dia se tira um coelho da cartola. Agora é PCC e Comando Vermelho. Ontem foi outra coisa, amanhã será outra. Hoje é Pix, ontem foi terras raras”, afirmou.

Estados Unidos miram a América Latina

Para Mascaro, a pressão sobre o Brasil e sobre a América Latina ocorre porque Washington perdeu espaços em outras regiões do mundo e passou a concentrar suas garras sobre o continente. “Quando perde o espaço geopolítico mundial, então toma para si como refém a América Latina, que foi sempre sua refém, só que agora é refém única”, disse.

O jurista argumentou que essa dinâmica torna o cenário mais grave para países latino-americanos. Segundo ele, a região volta a ser tratada como área estratégica prioritária pelos Estados Unidos em meio ao conflito com a China, a Rússia e o mundo multipolar.

“É pior para nós no Brasil, é pior para nós latino-americanos, porque agora o alvo somos nós”, afirmou.

Capital financeiro e imperialismo

Mascaro dedicou parte central da entrevista a explicar a relação entre Estado, burguesia e capitalismo. Para ele, a estrutura de poder nos Estados Unidos não é comandada pelo Estado contra o mercado, mas pelo capital financeiro contra a sociedade.

“As sociedades capitalistas são sempre sociedades controladas pelo capital, não pelo Estado. São as burguesias que controlam o Estado e não o Estado que controla as burguesias”, declarou.

Ele comparou a situação dos Estados Unidos com a da China. Segundo Mascaro, a China preserva uma relação na qual o Estado tem ascendência sobre setores econômicos estratégicos, enquanto nos Estados Unidos ocorre o inverso: frações do capital determinam a ação estatal.

“Nos Estados Unidos, não há mais cálculo político e geopolítico de longo prazo. Aquele interesse da fração burguesa que imediatamente se põe lá no governo faz com que o governo estadunidense tome partido daquele interesse”, disse.

Na avaliação do jurista, essa lógica explica por que o governo Trump, atual presidente dos Estados Unidos, atua em defesa de interesses imediatos de bancos, fundos financeiros e grandes empresas do sistema de pagamentos.

“Provavelmente, aquele que é o interesse predominante dos Estados Unidos, que não é mais produtivo, não é mais industrial, nem agrícola, é financeiro, puro e simples, que se representa por bancos especuladores e cartões de crédito. Eles mandam nos Estados Unidos”, afirmou.

Pix entra na mira de Visa e Mastercard

Ao tratar especificamente do Pix, Mascaro disse que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos incomoda interesses financeiros internacionais, especialmente empresas ligadas a cartões de crédito e transações globais em dólar.

“Eles mandam nos Estados Unidos e dizem ao Trump: ‘Agora eu não quero que o Brasil saia do sistema de cartão de créditos de Visa e Mastercard’. E o Trump faz exatamente o que a fração burguesa financeira determina nos Estados Unidos”, declarou.

Durante a entrevista, Leonardo Attuch mencionou que Visa e Mastercard são empresas negociadas em bolsa e têm entre seus maiores acionistas grandes fundos financeiros internacionais, como BlackRock e Vanguard. Mascaro incorporou essa informação à análise para sustentar que o poder real está cada vez mais concentrado em estruturas financeiras transnacionais.

Segundo ele, o Pix não atingiu de maneira decisiva os grandes bancos brasileiros, mas afetou interesses do sistema financeiro dos Estados Unidos, que controla parte essencial da infraestrutura global de pagamentos.

“Essa terceira força dos Estados Unidos, na hora que ela entra e percebe que o Brasil tem Pix, isto para nós parece algo banal, porque não interferiu em nenhuma economia financeira do Brasil. [...] Nos Estados Unidos interferiram”, afirmou.

Brasil, bancos e dependência

Mascaro também analisou a formação do capitalismo brasileiro a partir dos anos 1980 e 1990, quando, segundo ele, o país foi levado ao neoliberalismo e à desindustrialização. Para o jurista, o governo Fernando Henrique Cardoso foi decisivo para consolidar esse modelo, com enfraquecimento da indústria e fortalecimento do capital financeiro.

“O Brasil desde os anos 1980 foi levado de fora para dentro, em algum momento passou a ser de dentro para dentro, foi levado ao neoliberalismo, ao pós-fordismo”, disse.

Ele afirmou que, desde então, os bancos passaram a ocupar posição central no comando da política econômica nacional. Mascaro também relacionou esse processo ao golpe de Estado contra Dilma Rousseff e à ascensão de frações financeiras mais agressivas, associadas à Faria Lima e a operações de risco.

Na entrevista, o jurista mencionou Daniel Vorcaro e o Banco Master como expressão de uma segunda linha do sistema financeiro. “Esse tal de Vorcaro é o exemplo de uma espécie de segunda linha financeira especulativa, a Faria Lima, no sentido não apenas dos grandes bancos, mas no sentido desses investidores”, afirmou.

Classe dominante e eleição brasileira

Questionado sobre a posição da classe dominante brasileira diante da eleição presidencial, Mascaro afirmou que os grandes bancos e o capital financeiro tendem a se alinhar contra Lula, ainda que não tenham uma alternativa ideal consolidada.

“Até o bancão prefere qualquer pessoa contra o Lula. E tendo que aceitar o Lula, é sempre um Lula amarrado”, disse.

Segundo ele, a lógica do mercado financeiro exige juros elevados, autonomia do Banco Central em relação ao governo eleito e limitação da capacidade estatal de promover desenvolvimento industrial.

“Essa política tem que ser de juros extorsivos, que o Banco Central seja refém [...] do sistema financeiro inteiro, bancões e banquinhos”, afirmou.

Intercept, Flávio Bolsonaro e disputa no imperialismo

Mascaro também comentou a reportagem do The Intercept envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Ele afirmou que o caso deve ser lido dentro de uma disputa entre frações do imperialismo estadunidense, especialmente setores mais próximos do Partido Democrata e do Partido Republicano.

“É briga de imperialismo contra imperialismo”, disse.

Para o jurista, a divulgação seletiva de informações pode funcionar como instrumento de reorganização do campo político brasileiro, sem revelar toda a estrutura de articulações internacionais. Ele comparou o episódio à Vaza Jato e questionou o fato de parte do material relacionado à Lava Jato não ter sido plenamente revelado.

“Cadê a galinha inteira? Então será no ritmo para a reorganização do campo político do imperialismo do Brasil”, afirmou.

Risco de nova Lava Jato contra bancos

Na parte final da entrevista, Mascaro fez um alerta sobre a possibilidade de o sistema bancário brasileiro ser alvo de uma ofensiva semelhante à Lava Jato, agora voltada ao setor financeiro. Para ele, se bancos nacionais forem fragilizados por campanhas, investigações ou pressões internacionais, poderão ser vendidos a grupos estrangeiros.

“Se vier uma Lava Jato, qualquer desgraça dessa para a destruição dos bancos do Brasil, os bancos do Brasil vão se vender para quem pagar mais. Não tenho dúvida”, declarou.

Como alternativa, Mascaro defendeu o fortalecimento da Caixa Econômica Federal como instrumento nacional de defesa da economia doméstica e do Pix.

“Antes que isso aconteça, a experiência é a Caixa Federal, porque ela está efetivamente mais apartada do sistema financeiro global do que o Banco do Brasil”, disse.

Ele concluiu defendendo que o Brasil preserve instituições financeiras públicas como forma de resistência à captura estrangeira. “Se você vive só no Brasil e etc. e tal, você circula com Caixa Federal”, afirmou.

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