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Alysson Mascaro vê aliança entre Centrão, bolsonarismo e setores do STF para enfraquecer Lula

Jurista afirma à TV 247 que o grande capital aposta no desgaste simultâneo do governo, da extrema direita e das instituições para preservar seu poder

Alysson Mascaro lança Crítica do Cancelamento na Casa de Portugal (Foto: Victor Barau)

247 – O jurista e filósofo Alysson Mascaro afirmou, em entrevista à TV 247, que a crise aberta pela derrota do governo Lula no Senado revela uma movimentação mais profunda entre Centrão, bolsonarismo e setores do Supremo Tribunal Federal. Para ele, a rejeição ao nome de Jorge Messias não pode ser analisada apenas como um episódio isolado, mas como parte de uma crise institucional que se arrasta há mais de uma década.

Segundo Mascaro, o Brasil vive um momento em que diferentes forças políticas e econômicas se reorganizam para enfraquecer o presidente Lula, o STF e até mesmo o bolsonarismo, criando um cenário no qual o grande capital tradicional preserva sua posição de comando.

A crise em torno de Jorge Messias

Mascaro iniciou a análise manifestando solidariedade a Jorge Messias, tratado por ele como “uma espécie de grande vítima de todo esse processo”. O jurista afirmou que Messias foi submetido a uma disputa política “nociva” e lembrou que a situação envolve também uma dimensão humana.

"Uma grande pessoa, uma figura de quem se esperava um trabalho importante no Supremo Tribunal Federal, não pôde ser indicado", afirmou.

Para Mascaro, o episódio deve ser visto como sintoma de uma crise institucional mais ampla. Ele citou o Mensalão, a Lava Jato, o golpe de Estado contra Dilma Rousseff, o governo Michel Temer, o bolsonarismo e a tentativa contínua de ruptura democrática como partes de um mesmo processo.

"Houve efetivamente uma gota d’água do momento, só que esta gota d’água só gera o que gera porque o copo já está cheio", disse.

Três blocos disputam o poder no Brasil

Na avaliação do jurista, a política brasileira hoje é organizada por três grandes forças: o lulismo, o bolsonarismo e o Centrão. O primeiro campo reúne o presidente Lula e as forças progressistas. O segundo é formado pela extrema direita, com forte capacidade de mobilização ideológica. O terceiro é o Centrão, descrito por Mascaro como a direita tradicional, enraizada no controle cotidiano da máquina política.

"Quem tem esta máquina na mão do poder político é o Centrão", afirmou.

Mascaro explicou que o bolsonarismo opera por meio de igrejas, redes sociais e algoritmos, enquanto o Centrão se move por estruturas locais de poder, como prefeituras, vereadores, deputados e senadores.

STF, Centrão e caso Master

Um dos pontos centrais da análise foi a possibilidade de setores do STF terem se aproximado do Centrão em razão de interesses ligados ao caso Master. Mascaro afirmou que a rejeição ao nome de Jorge Messias pode ter sido motivada por preferências internas por outro nome, mas também por interesses políticos mais amplos.

"Talvez o caso Master seja o elemento que aquece o Centrão e que também encontra eco nestas caixas de redundância do STF", afirmou.

Para ele, o bolsonarismo aparece como força aglutinadora desse movimento, oferecendo uma espécie de saída política para setores pressionados por investigações e disputas de poder.

O papel do grande capital

Mascaro também analisou a posição do grande capital. Segundo ele, há uma divisão entre o capital financeiro tradicional, representado por grandes bancos, e setores econômicos mais descentralizados, ligados ao agro, igrejas, crime organizado, pequenas e médias estruturas de corrupção e agentes políticos regionais.

Ele afirmou que o grande capital tradicional pode não aderir plenamente ao bloco de Davi Alcolumbre, Flávio Bolsonaro e setores do Centrão, mas também não rompe com ele de forma definitiva.

"O grande capital está jogando com as duas cordas", disse.

Para Mascaro, quanto mais os blocos políticos se desgastam entre si, mais o grande capital se fortalece.

"Se todo mundo ficar mais fraco, quem será a voz do poder final? Sempre será o grande capital", afirmou.

Lula deve apostar na recomposição, diz Mascaro

Questionado sobre o que Lula deveria fazer diante da nova conjuntura, Mascaro afirmou que o presidente tende a agir conforme sua trajetória histórica: evitar o tensionamento máximo, buscar recomposição e apostar na negociação.

"O modo de fazer do presidente Lula é nunca tensionar, é nunca chegar ao extremo, é sempre contemporizar", disse.

Segundo ele, Lula provavelmente tentará reconstruir pontes com setores do Centrão e reduzir a temperatura da crise. Mascaro avaliou que essa estratégia pode garantir governabilidade, mas também limita a capacidade de mobilização popular da esquerda.

"A esquerda do Brasil é liberal, é antimobilização, então quer água calma para governar", afirmou.

Extrema direita mobiliza, Centrão controla a máquina

Mascaro sustentou que a extrema direita tem força porque mobiliza ideologicamente as massas, enquanto o Centrão mantém poder por controlar estruturas locais e institucionais.

"A extrema direita tem força popular porque mobiliza ideologicamente. O Centrão não tem força popular, é xingado a todo momento, mas ele não se importa em ser xingado", disse.

Para ele, o governo Lula tem presença na cúpula do Estado, mas não controla plenamente sua base administrativa e territorial, onde o Centrão mantém forte influência.

Impacto eleitoral e risco institucional

Ao avaliar o impacto da derrota envolvendo Messias, Mascaro afirmou que o episódio pode ter efeitos negativos e positivos para Lula. De um lado, mostra fragilidade do governo diante do Congresso. De outro, poderia permitir ao presidente marcar posição contra o Centrão.

"Amanhã poderia fazer um discurso magnífico contra os 300 picaretas", afirmou, em referência a uma expressão antiga usada por Lula.

Mas o ponto mais sensível, segundo Mascaro, não está no Legislativo, e sim no STF. Para ele, o grande risco é uma mudança de postura do Supremo diante do bolsonarismo.

"Se o STF de agora até outubro, novembro resolve se bandear para o lado do bolsonarismo, porque caso Master e outros mais fazem com que alguns apelos sejam maiores do que a dita defesa da democracia, aí o governo Lula de fato tem um grande prejuízo", afirmou.

Mascaro concluiu que, caso setores do STF embarquem numa recomposição com o bolsonarismo para se proteger, o Brasil poderá enfrentar uma crise de longo prazo.

"Aí sim é uma espécie de tragédia sem fim que muda a história do Brasil para pior por 10, 20, 30 anos", disse.

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