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André Perfeito: dólar deve cair mais e quarto mandato de Lula pode ser melhor do que o terceiro

Economista afirmou que a apreciação do real deve ser lida no mesmo movimento de outras moedas emergentes

Lula (Foto: Reuters)

247 – O economista e investidor André Perfeito avaliou que o dólar tende a cair mais nos próximos meses e que um eventual quarto mandato do presidente Lula pode apresentar desempenho econômico superior ao do terceiro, sobretudo pela maturação de investimentos em andamento e por um cenário de juros mais baixos. As declarações foram dadas em entrevista à TV 247, gravada na sexta-feira, quando o dólar era negociado a R$ 5,22 e o Ibovespa rondava 183 mil pontos, em um dia de forte valorização do mercado doméstico.

A entrevista, exibida no canal da TV 247 no YouTube, abordou o comportamento recente do câmbio e da bolsa, a trajetória da taxa de juros no Brasil, as mudanças no cenário internacional e os possíveis impactos do calendário eleitoral. Ao longo da conversa, Perfeito insistiu que a principal explicação para a queda do dólar não está em uma suposta força excepcional do real, mas no enfraquecimento global da moeda norte-americana. “Não é o real que tá forte, é o dólar que tá fraco.”

Bolsa em alta, mas ainda “reprimida” em dólares

Ao explicar a euforia com o Ibovespa, Perfeito fez uma ressalva importante: o recorde é em reais, não em dólares. Para ele, quando o índice é convertido para a moeda norte-americana, ainda haveria “muito para avançar”, o que ajuda a entender o movimento recente de entrada de fluxos e valorização de ativos brasileiros. “A gente tá vendo bater recorde do índice, mas é um recorde em reais (…) em dólar, ainda tem muito para avançar.”

Ele relacionou esse desempenho ao fato de a bolsa brasileira ser fortemente associada a materiais básicos, como petróleo e minério de ferro, justamente num momento em que investidores buscam proteção em “ativos reais” e commodities. “O mundo tá procurando ativos reais, commodities (…) e a nossa bolsa, o Ibovespa, ele é muito identificado com materiais básicos.”

Câmbio: “é o dólar que está fraco” e pode ir a R$ 4,70

Perfeito afirmou que a apreciação do real deve ser lida no mesmo movimento de outras moedas emergentes, como peso chileno, peso mexicano e até moedas do Leste Europeu, sugerindo um fenômeno mais global. Segundo ele, a chave é entender por que o dólar estaria perdendo força. Nessa linha, projetou continuidade da tendência de baixa do câmbio.

Ao ser questionado sobre níveis possíveis, indicou que o dólar poderia cair abaixo de R$ 5 e até se aproximar de R$ 4,70, com aceleração em caso de aumento de expectativas eleitorais favoráveis a candidaturas vistas como “de direita” pelo mercado. “Pode ir até 470 assim, fácil, rápido. Se o mercado achar que vai ganhar o Flávio, Ratinho, vai fácil na hora.” Ainda assim, enfatizou que, no seu cenário-base, o motor principal segue sendo a fraqueza do dólar no exterior, e não uma mudança doméstica isolada.

Juros: corte “inevitável”, mas famílias e empresas “machucadas”

Sobre a taxa Selic, Perfeito disse que o ciclo de corte é praticamente dado e que o Banco Central teria sinalizado isso no seu comunicado. Ele chamou atenção, porém, para o comportamento da curva de juros no Brasil, afirmando que é “curioso” o fato de os juros de curto prazo estarem acima dos juros longos, algo que “não faz sentido” em condições normais. “A taxa de juro de curto prazo é maior do que a de longo prazo, o que não faz sentido.”

O economista argumentou que o juro elevado tem deteriorado o balanço de famílias e empresas. Ele lembrou que, na pandemia, a Selic chegou a 2%, o que levou muita gente a se alavancar, e depois houve um choque com a taxa indo para níveis muito mais altos. “A Selic saiu de 2% e não foi para 8, foi para 15. Quando você tem esse choque, isso tá fazendo o balanço das empresas e das famílias se machucar muito.” Na visão dele, isso ajuda a explicar por que a melhoria de indicadores como emprego e massa salarial não se converte automaticamente em popularidade governamental: o endividamento continuaria pressionando a vida cotidiana.

Para as empresas, o diagnóstico é semelhante. Perfeito disse que parte relevante do lucro corporativo “está indo para juro” e defendeu alívio monetário para evitar que o aperto prolongado gere problemas maiores. “Boa parte do lucro das empresas tá indo para juro (…) eles têm que começar a iniciar o corte agora (…) para tentar dar um alívio nisso.”

Trump, déficits dos EUA e a pressão para desvalorizar o dólar

Ao tratar do cenário externo, Perfeito afirmou ter críticas políticas a Donald Trump, mas reconheceu que existe um problema estrutural que os EUA tentam resolver: déficits comerciais persistentes sustentados por décadas pelo papel do dólar como moeda de reserva global. Para ele, esse arranjo estaria perdendo sustentação e forçaria uma estratégia de desvalorização para que os EUA exportem mais e importem menos.

Perfeito citou o uso de tarifas como tentativa que “não funcionou” e sugeriu que episódios de instabilidade institucional e governamental nos EUA acabam corroendo confiança e previsibilidade. Ele afirmou que a postura de Trump de “dividir o mundo de novo em mercados” e marcar zonas de influência também contribui para o enfraquecimento do dólar. “Isso tudo tá desvalorizando o dólar e deve continuar durante mais um tempo.”

China, multipolaridade e o espaço diplomático do Brasil no BRICS

Na disputa entre Estados Unidos e China, Perfeito descreveu uma relação “simbiótica” e indicou que o mundo caminha para um arranjo multipolar com zonas de influência. Ele mencionou que a China teria evitado “brigar de frente” com o dólar ao administrar sua política cambial e reservas, o que, segundo ele, dificultou estratégias anteriores dos EUA de desvalorização.

Nesse tabuleiro, ele avaliou que o Brasil tem uma vantagem: capacidade de diálogo com diferentes polos. “Eu fico feliz que o Brasil é um país que tem uma possibilidade diplomática grande. (…) A gente é um país dos BRICS, e simultaneamente ocidental.” Ele também observou que a economia brasileira é relativamente fechada, o que reduziria a exposição direta à “briga de cachorro grande”.

Eleições e “graus de liberdade”: alerta contra alinhamento automático

Questionado sobre a importância da eleição para o cenário econômico e geopolítico, Perfeito afirmou que a habilidade de negociação é um ativo e mencionou que o presidente Lula tem mostrado capacidade de transitar entre interesses, inclusive na tentativa de convencer Emmanuel Macron sobre acordos internacionais. Ao mesmo tempo, alertou para riscos de um alinhamento “muito automático” com os EUA, que reduziria “graus de liberdade” na negociação externa. “O alinhamento automático tira graus de liberdade para um tipo de negociação.”

No plano de preços de ativos, ele admitiu que o mercado pode comemorar uma perspectiva de fortalecimento da direita, mas disse ver simplificações na tese de que esse campo necessariamente faria um ajuste fiscal mais efetivo. Ele citou as emendas parlamentares como elemento de pressão sobre o quadro fiscal e demonstrou ceticismo com leituras automáticas sobre “fiscalismo” do centrão.

Projeções: dólar para baixo, juros menores e PIB perto de 2%

Ao final, Perfeito resumiu seu cenário para o ano: câmbio em queda, juros possivelmente abaixo do que o mercado precifica e crescimento limitado. “Câmbio, eu acho que é para baixo ainda (…) abre espaço para talvez uma queda de juros mais significativa no Brasil.” Sobre o PIB, disse esperar algo em torno de 2% porque continua “muito preocupado com balanço de empresa e de família”.

Quarto mandato: pode ser melhor, mas depende da correlação de forças

Ao ser perguntado diretamente se um quarto mandato do presidente Lula poderia ser melhor que o terceiro, Perfeito respondeu de forma afirmativa, mas condicionou o cenário. “Seria melhor do que o terceiro.” Ele relacionou o potencial de melhora ao efeito de maturação de investimentos, citando o PAC e, em outro ponto, obras em São Paulo como exemplo de ambiente que pode sustentar investimento. “Muitos desses projetos estão maturando e vão continuar crescendo ao longo dos próximos anos.”

Ainda assim, ponderou que o resultado dependerá do desenho político, incluindo a composição do Congresso. “Depende muito de como vai ser a correlação de forças. Vamos supor que o Senado fique totalmente na mão do bolsonarismo, pode ser um transtorno maior ainda.” Ao se despedir, deixou uma frase que resume a cautela com previsões: “A realidade não precisa fazer sentido.”

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