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"Banco Master escalou sob Campos Neto, e Lula estancou a sangria"

Haddad atribui ao Banco Central a supervisão do caso Master e afirma que a expansão da instituição ocorreu entre 2019 e 2024

Fernando Haddad (Foto: Reprodução Youtube)

247 - Fernando Haddad afirmou que o caso Banco Master representa uma falha de supervisão do sistema financeiro e concentrou sua crítica na atuação do Banco Central durante o período em que a instituição ampliou suas operações. Segundo ele, a expansão do banco ocorreu a partir de uma sequência de autorizações concedidas entre o fim de 2019 e o fim de 2024, quadro que, em sua avaliação, permitiu o crescimento de um passivo bilionário sem a devida contenção regulatória.

Em entrevista ao Boa Noite 247, o ex-ministro da Economia e atual candidato ao governo de São Paulo disse que a prioridade é “passar a verdade para a opinião pública” sobre o episódio. Na avaliação de Haddad, trata-se da “maior fraude bancária da história do Brasil e seguramente uma das maiores fraudes bancárias do mundo da história do sistema financeiro”.

Ao tratar do tema, Haddad sustentou que a responsabilidade institucional pela fiscalização do sistema financeiro cabe “única e exclusivamente ao Banco Central”. Segundo ele, não compete ao Ministério da Fazenda nem ao Ministério do Planejamento acompanhar o comportamento prudencial das instituições financeiras, mas sim à autoridade monetária, que, de acordo com sua fala, dispõe de autonomia legal e mandatos fixos para seus dirigentes.

Na entrevista, Haddad organizou sua argumentação em torno do calendário das decisões regulatórias. Ele disse que, no começo de 2019, ainda sob a presidência de William Goldfajn no Banco Central, o Banco Master recebeu uma negativa. O cenário mudou no fim daquele mesmo ano, já com Roberto Campos Neto na presidência da instituição. “No final de 2019, já com o Roberto Campos Neto na presidência, começa uma escalada do Banco Master a partir de uma série de autorizações que ele vai recebendo para atuar no mercado financeiro de forma mais ampla e para adquirir instituições financeiras”, declarou.

Haddad afirmou que essa trajetória de expansão se estendeu até o fim de 2024. Em sua descrição, o banco “vai dobrando de tamanho a cada ano até atingir um passivo de R$ 80 bilhões”, parte do qual estaria garantida pelo Fundo Garantidor de Crédito. Para ele, o ponto central do caso está justamente na sequência dessas liberações. “Toda a liberação de atuação do Banco Master aconteceu entre 2019 e 2024, ou seja, na gestão do Roberto Campos Neto, nem antes na gestão do William Goldfajn, nem depois na gestão do Galípolo”, disse.

A fala de Haddad busca estabelecer uma distinção entre os períodos de comando do Banco Central. Segundo ele, a inflexão ocorreu com a posse de Gabriel Galípolo, indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Depois de 2024, quando toma posse o presidente do Banco Central indicado pelo presidente Lula, que é o Galípolo, estanca a sangria do Banco Master”, afirmou. Com isso, Haddad atribuiu ao governo Lula o momento de interrupção do processo de ampliação das atividades da instituição financeira.

Ao detalhar sua leitura do caso, o ex-ministro afirmou que o “pecado original” foi de supervisão. Em sua avaliação, o Banco Central foi alertado durante anos por diferentes agentes do sistema financeiro sobre problemas na operação do Master. “O Banco Central foi alertado por muita gente, por CEOs, por banqueiros, pelo FGC, pela Febraban, pela Confederação das Instituições Financeiras”, declarou. Segundo ele, os avisos apontavam que “alguma coisa de muito errada estava acontecendo no Banco Master”.

Haddad também relatou o momento em que, segundo sua narrativa, passou a acompanhar o tema mais diretamente no Ministério da Fazenda. Ele disse ter ingressado “no circuito pessoalmente” a partir de uma reunião pedida pela Febraban, da qual participaram os principais executivos de bancos do país. Na entrevista, afirmou que, naquele estágio, já circulavam suspeitas graves dentro do sistema financeiro. “Até suspeita de corrupção, eu tô falando de janeiro de 2025”, disse. Em seguida, acrescentou: “As pessoas dizem: ‘Não é possível que tudo que está acontecendo com o Banco Master não tenha alguma corrupção por trás no Banco Central’”.

Ao longo da entrevista, Haddad associou os desdobramentos posteriores do caso a essa etapa inicial de regulação e fiscalização. “Tudo que aconteceu de errado com o dinheiro, inclusive tentar comprar apoio, seja lá onde for, na classe política, na magistratura, nos escritórios de advocacia, não importa, tudo isso é derivado desse pecado original”, afirmou. Para ele, o problema começou quando se permitiu colocar “R$ 80 bilhões de reais na mão de uma instituição completamente desprovida de condições de gerir esses recursos”.

Na mesma linha, Haddad questionou a lógica econômica da operação atribuída ao banco. “Pagando 140% de um CDI. Não tem negócio no mundo de 80 bi que renda 140% do CDI”, declarou. A frase foi usada por ele para sustentar a tese de que o crescimento da instituição destoava de parâmetros considerados compatíveis com a gestão de um passivo dessa dimensão.

Apesar da contundência das acusações em relação ao caso, Haddad defendeu cautela ao tratar de eventuais conexões políticas. Ao ser questionado sobre doações eleitorais recebidas por figuras públicas, afirmou que não pretende agir de forma precipitada. “Eu não vou ser leviano com ninguém”, disse. Na sequência, ponderou: “O fato de uma pessoa receber uma doação legal não faz dela um corrupto”. Para ele, a apuração precisa distinguir quem agiu de boa-fé de quem eventualmente “tava, na verdade, vendendo facilidade pro Banco Master, de maneira espúria”.

Nesse ponto, Haddad voltou a defender que a apuração avance com base em provas e sem uso político do caso. “Nós temos que zelar para que a dignidade das pessoas sejam preservadas até que com base em documentos, informações, delações e tudo mais se chegue à verdade”, afirmou. Ainda segundo ele, a linha divisória não deve ser partidária: “O risco não tem que ser tratado traçado entre o partido A e o partido B. É entre pessoas honestas e pessoas desonestas”.

Ao final de sua argumentação sobre o tema, Haddad elogiou a condução atual das investigações e insistiu que o foco deve permanecer na responsabilização de quem tiver participação comprovada. “Nós queremos justiça, nós queremos a verdade e nós queremos a responsabilização das pessoas envolvidas, ponto. Não precisa ir além”, declarou. Com isso, o ex-ministro procurou concentrar sua análise no eixo que, segundo ele, explica o caso Master: a expansão do banco sob autorizações concedidas durante a gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central e a interrupção desse movimento com a chegada de Galípolo.

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