Boaventura de Sousa Santos: “Acordo UE-Mercosul é reação tardia ao pânico gerado por Trump”
Sociólogo diz que pacto pode virar “letra morta”, afirma que a União Europeia “não existe” como bloco coeso e alerta para nova fase de colonialismo
247 – Em entrevista ao programa Giro das 11, da TV 247, no YouTube, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos afirmou que a aprovação do acordo União Europeia–Mercosul ocorre como uma reação defensiva “tardia” diante do ambiente de pânico e turbulência internacional provocado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“A Europa está a reagir e tá bem. Eu penso é que talvez seja neste momento tarde demais”, disse Boaventura, ao avaliar que o pacto pode não se materializar na prática e corre o risco de se transformar em “letra morta”.
“A União Europeia não existe”
Ao ser provocado por Gustavo Conde sobre o anúncio de aprovação do acordo, o intelectual respondeu de forma direta, questionando a coesão do bloco europeu: “Ô Conde, a União Europeia não existe”.
Na sequência, explicou o sentido da frase: para ele, a resistência de países centrais — em especial a França — evidencia que o pacto nasce fragilizado. “A França já disse que não se sente comprometida com o acordo. Se a França é um dos eixos principais da União Europeia, […] não augura nada de bom”, afirmou, mencionando a pressão de agricultores franceses contra o tratado.
Boaventura associou a instabilidade europeia às mudanças impostas por Washington no sistema internacional. “Nós vamos entrar num período de turbulência muito grande na Europa, devido a todas as consequências […] com a administração Trump e que quer destruir a União Europeia”, disse.
“Um ataque a um membro da OTAN é um ataque a todos”
Boaventura citou, como exemplo do grau de ruptura, a crise envolvendo a Dinamarca e a Groenlândia, apontando o paradoxo de um país da OTAN ameaçar outro. “No momento em que os Estados Unidos atacam um país da NATO, tal e qual como os Estados Unidos, que é a Dinamarca, porque ameaçam eventualmente invadir a Groenlândia… um país da NATO ataca o outro país da NATO”, afirmou.
E completou: “Isto era uma comédia se não fosse uma tragédia”.
Acordo como peça geopolítica para afastar a China
Na leitura do sociólogo, o acordo UE–Mercosul também se encaixa num movimento geopolítico maior, que visa reposicionar Europa e América Latina diante do avanço chinês. “A União Europeia se aliar mais à América Latina […] para se distanciar mais da China. No fundo, são os dois vassalos dos Estados Unidos, a Europa e a América Latina”, declarou.
Ele avaliou que, na perspectiva do poder norte-americano, a meta é clara: “Afastar o mais possível a China, tanto da Europa como da América Latina”.
Apesar disso, Boaventura afirmou duvidar que a estratégia funcione. “Duvido que isto dê o resultado que se espera […] dá-me a impressão que vai ser uma letra morta”, disse.
“Todo o resto é paisagem” diante da Venezuela
Ao contextualizar o momento global, Boaventura relativizou a centralidade do tratado comercial diante de eventos mais explosivos, como a ofensiva dos EUA na Venezuela. “Não é esse o grande tema da atualidade. O grande tema da atualidade é realmente o que está a acontecer com o sistema internacional, depois da invasão da Venezuela e tudo o resto é paisagem”, afirmou.
A entrevista avançou para uma interpretação mais ampla: para o sociólogo, o mundo vive um retorno explícito a métodos coloniais. “Nós vivemos em pleno colonialismo. Não há capitalismo sem colonialismo”, disse.
“É um ato de pirataria”
Boaventura também relacionou o ambiente de escalada internacional com episódios de apreensão e bloqueios marítimos citados no programa, descrevendo-os como práticas coloniais reeditadas. “É um ato de pirataria”, afirmou, ao lembrar que ações desse tipo têm raízes históricas profundas.
Segundo ele, três “ilusões” ensinadas como verdades — a do progresso inevitável, a de que o passado não retorna e a da superioridade ocidental — estão desmoronando. “Estas três premissas estão a ser postas em causa”, disse.
Venezuela: neutralização do líder, não “mudança de regime”
Ao analisar a Venezuela, Boaventura defendeu que não se trata de uma operação clássica de “mudança de regime”, mas de neutralização de liderança para viabilizar negociações sob pressão. “O Trump não quer a mudança do regime. […] Ele prefere negociar com os chavistas”, afirmou.
Ele descreveu o cálculo: “Tirou o Maduro para poder negociar com a vice-presidente”, a quem chamou de “uma mulher muito estimável”.
Boaventura sustentou que uma tentativa de derrubada total geraria guerra civil, devido à existência de estruturas armadas do poder comunal. “Na Venezuela há o governo oficial e depois há o governo comunal. O governo comunal tem milícias. As milícias estão todas armadas, mas estão todas em casa”, disse.
Comparação com o Brasil e o “golpe de Estado contra Dilma”
Ao explicar o conceito de “neutralização”, Boaventura aproximou o caso venezuelano de experiências recentes no Brasil, mencionando a prisão do presidente Lula e o processo político que resultou no golpe de Estado contra Dilma. “Neutraliza-se uma pessoa que está a esturvar o negócio, presidente Lula, vai para a prisão, muda-se o governo dentro do mesmo regime”, afirmou.
Guerra tecnológica e “apagão digital”
Boaventura apresentou duas hipóteses para a facilidade da operação descrita no programa contra a Venezuela: traição interna ou superioridade tecnológica dos EUA. Disse inclinar-se à segunda.
“A segunda teoria […] é que foi a superioridade tecnológica dos Estados Unidos que neutralizaram todo o sistema de defesa da Venezuela sem eles poderem disparar um tiro”, afirmou.
Ele citou um método de guerra eletrônica: “Um sistema […] que neutraliza […] e destrói-os, faz um apagão digital. […] Nem os mísseis russos, nem as defesas […] puderam ser acionados porque perderam o controle”.
O sociólogo classificou o episódio como um teste perigoso: “Foi testada pela primeira vez na Venezuela. […] Pode ser testada noutro país”.
Brasil, crime organizado e risco de “armadilha”
Questionado sobre o Brasil, Boaventura disse tentar “entrar na cabeça do Trump” e afirmou que a relação com Washington pode se tornar uma armadilha, especialmente quando se fala em cooperação no combate ao crime organizado.
“Eu não meteria qualquer colaboração com os Estados Unidos para o crime organizado no Brasil”, disse. E explicou por quê: “Foi a luta contra a droga que fez com que os Estados Unidos tenham hoje 13 bases militares dentro da Colômbia”.
Para ele, esse tipo de cooperação tende a abrir portas para presença militar e controle estratégico: “É pôr as forças armadas especiais dos Estados Unidos dentro do Brasil que amanhã vão utilizar para o que eles quiserem”.
“Confrontação coletiva” na América Latina
Ao tratar de saídas políticas, Boaventura defendeu que o enfrentamento ao trumpismo precisa ser regional e articulado — e não isolado por país.
“Se houvesse uma confrontação conjunta de Cláudia Sheinbaum, Gustavo Petro e Lula, ao mesmo tempo e coletivamente, tem muito mais poder”, afirmou.
E sintetizou o que considera indispensável: “A confrontação que agora tem que haver é a América Latina […] não é o pátio traseiro dos Estados Unidos”.
Petro, carta e “frente anticolonial”
Boaventura elogiou a carta de Gustavo Petro a Trump, recomendando sua leitura como peça formadora. “Todos os democratas do mundo deviam ler a carta que o Petro escreveu a Trump”, disse, chamando o texto de “bonito” e “uma defesa realmente de valores”.
Mas alertou que a retórica tem limites diante do método do presidente norte-americano: “Com o Trump não se negocia. Com o Trump confronta-se”.
Ao fim, defendeu uma reorganização do campo progressista: “Nós agora precisamos de uma frente anticolonial”, afirmou, dizendo que o problema é “sistémico” e “não uma personalidade”.
Epistemologias do Sul e um caminho latino-americano
No fechamento da entrevista, Boaventura retomou sua defesa das “epistemologias do sul” e sugeriu que a região possui uma potência própria — inclusive de conhecimento — ainda subutilizada.
“A América Latina tem uma capacidade até epistémica que nunca acionou completamente”, disse, citando a importância dos povos originários e de uma agenda intercultural.
A mensagem final foi direta: diante do retorno explícito do colonialismo e da escalada tecnológica e militar, a saída, para ele, passa por organização política, unidade regional e afirmação soberana.


