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Breno Altman: Lula precisa reagir porque ninguém gosta de governo fraco

Analista afirma que Lula deve enfrentar Alcolumbre e o Centrão para evitar imagem de fragilidade e fortalecer sua posição eleitoral

Davi Alcolumbre - Presidente Lula (Foto: Ricado Stuckert / PR /Jonas Pereira/Agência Senado)

247 - O jornalista Breno Altman afirmou que Lula deve reagir politicamente à derrota da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, porque a percepção de fraqueza pode comprometer o governo e sua posição eleitoral. 

Em participação no Bom Dia 247, Altman avaliou que a rejeição de Messias no Senado representou um “insulto” ao governo Lula e exige uma resposta clara do Planalto. Para ele, o episódio não deve ser tratado apenas como uma divergência parlamentar, mas como uma disputa política que envolve a imagem pública do governo.

“Ninguém gosta de governo fraco. É uma questão fundamental na disputa eleitoral”, afirmou Breno Altman. Segundo ele, o governo precisa demonstrar força diante de Davi Alcolumbre e de seus aliados, ainda que isso produza tensões adicionais com o Congresso.

Na avaliação do jornalista, a ausência de reação transmite à sociedade a ideia de que o governo aceita qualquer tipo de pressão sem impor custos políticos. “Fraqueza não traz voto”, disse Altman, ao defender que Lula deve transformar a crise em uma oportunidade para evidenciar o papel do Congresso conservador como obstáculo à agenda popular.

Altman afirmou que o governo precisa “fazer desse limão uma limonada”, apresentando à opinião pública a mensagem de que o chamado “Congresso inimigo do povo” é um dos principais fatores que limitam a ação do Executivo. Para ele, essa disputa deve ser assumida de forma direta, sobretudo em um momento de preparação para a eleição.

Um dos pontos criticados por Altman foi a permanência, no governo Lula, de nomes ligados às forças políticas que atuaram contra a indicação de Messias. O jornalista avaliou que, até agora, Alcolumbre e seus aliados não pagaram preço político pela derrota imposta ao Planalto.

“Já se passaram vários dias e os indicados por Alcolumbre continuam no governo Lula”, afirmou. Para Altman, essa situação reforça uma imagem negativa, porque dá a entender que o governo sofreu uma derrota relevante e não reagiu.

Ele também contestou a tese de que preservar a relação com Alcolumbre seja essencial para a governabilidade. Segundo Altman, a batalha decisiva, neste momento, é eleitoral, e não apenas parlamentar. Por isso, o governo deveria priorizar a construção de uma imagem de força e enfrentamento.

“O governo, para poder construir uma imagem antissistema, não pode ficar de mãos dadas com os inimigos do povo”, declarou. Na visão do analista, Lula precisa separar com nitidez os campos políticos e mostrar à população quem bloqueia as medidas de interesse popular.

Altman reconheceu que há razões para a cautela do governo. Entre elas, citou o receio de derrotas em votações no Congresso e a preocupação com alianças eleitorais nacionais e regionais. Ainda assim, afirmou que evitar o confronto pode produzir um custo maior, especialmente junto à base social e à militância de esquerda.

Segundo ele, a falta de fronteiras claras entre a esquerda e o Centrão prejudica Lula e o PT. “Essa falta de fronteiras mais nítidas entre a esquerda e o Centrão traz um prejuízo eleitoral ao presidente Lula e ao PT”, afirmou.

O jornalista também relacionou a crise com a necessidade de o governo adotar uma agenda mais urgente. Ele citou o debate sobre o fim da escala 6 por 1 como exemplo de uma pauta popular que demorou a ser incorporada plenamente pelo Planalto.

Altman lembrou que Lula falou contra a escala 6 por 1 no 1º de Maio de 2025, mas o governo levou quase um ano para apresentar um projeto ao Parlamento. Para ele, essa demora revela um problema mais amplo de método político.

“É um governo sem sentido de urgência por uma série de dificuldades”, disse. Segundo Altman, a lentidão pode pesar negativamente no processo eleitoral, porque a população espera respostas rápidas para problemas concretos.

Ao analisar o método de Lula, Altman afirmou que o governo aposta na construção prévia de consensos antes de apresentar propostas. Essa estratégia, segundo ele, pode oferecer mais segurança, mas também torna o governo lento e obriga o Planalto a fazer concessões maiores.

O jornalista comparou esse modelo com o adotado por Gustavo Petro, na Colômbia. Segundo Altman, Petro apresenta propostas, estimula mobilização social, pressiona o Parlamento e só depois negocia. Para ele, esse método torna mais clara a responsabilidade de quem bloqueia reformas populares.

“O método que o presidente Lula adota é o método do gradualismo, é o método da construção prévia do consenso”, afirmou. Altman disse que essa escolha explica parte da demora em temas como a escala 6 por 1 e a política para terras raras.

Na entrevista, Altman também comentou o cenário eleitoral. Ele considerou plausível a avaliação de que Flávio Bolsonaro teria atingido um teto nas pesquisas, mas afirmou que sua principal preocupação não são os levantamentos eleitorais neste momento.

“Eu me preocupo com as pesquisas de popularidade do governo. O governo precisa melhorar sua popularidade”, declarou. Segundo ele, a aprovação de Lula precisa subir antes da fase decisiva da campanha.

Para Altman, se a popularidade do governo crescer e a reprovação cair, a campanha de Lula partirá de uma base mais favorável. Caso contrário, o presidente poderá enfrentar dificuldades mesmo em um cenário de polarização já conhecido.

O jornalista também avaliou medidas econômicas do governo, como o programa para aliviar dívidas da população. Ele afirmou que a iniciativa é positiva, porque o endividamento é um dos principais problemas dos trabalhadores brasileiros, mas ponderou que a medida enfrenta apenas o sintoma.

“É muito importante enfrentar o sintoma, que é o endividamento, mas é fundamental ter um programa para resolver a raiz do problema”, disse. Para Altman, essa raiz está ligada à baixa renda, aos juros elevados, ao custo de vida e à fragilidade da indústria nacional.

Ao tratar da política para terras raras, Altman criticou a posição do governo de não criar uma estatal específica para o setor. Ele defendeu que o Estado tenha papel central na exploração e no processamento desses minerais estratégicos, seja por meio de uma nova empresa pública, seja por uma área específica dentro da Petrobras.

“O Estado precisa de uma empresa, precisa que uma empresa do Estado opere esse setor. Eu não tenho nenhuma dúvida”, afirmou. Para ele, a história brasileira mostra que setores estratégicos avançaram quando houve atuação decisiva de estatais, como Petrobras, Eletrobras, Vale e Embraer.

Na pauta internacional, Altman comentou a detenção do ativista brasileiro Thiago Ávila e do espanhol Saif Abu Keshek. Ele afirmou que o caso é grave e deve ser tratado como uma questão política, não apenas judicial.

“Isso não é um problema judicial, isso é um problema político”, disse. Segundo Altman, o fato de os detidos serem brasileiros e espanhóis tem relação com a postura crítica dos governos de Lula e Pedro Sánchez em relação a Israel.

O jornalista defendeu que Brasil e Espanha elevem a pressão diplomática pela libertação dos ativistas. Para ele, o governo brasileiro já se manifestou, mas a reação precisa subir de tom diante da gravidade do episódio.

Altman também avaliou o cenário político nos Estados Unidos e afirmou que a queda de popularidade de Donald Trump pode torná-lo mais perigoso. Segundo ele, Trump pode buscar ações externas de impacto para tentar recuperar força política interna.

Na parte final da entrevista, o jornalista comentou o debate sobre a dosimetria das penas dos condenados pelos atos golpistas. Altman afirmou que não acredita em interferência do STF na decisão do Congresso que derrubou veto presidencial sobre o tema.

Ele defendeu uma solução política que preserve a responsabilização de lideranças e beneficie participantes de menor escalão. “Mantém preso Bolsonaro, os generais, e anistia para toda a raia miúda”, afirmou.

Para Altman, insistir no debate sobre penas elevadas para participantes sem poder de comando pode fortalecer o bolsonarismo. Segundo ele, o foco deve permanecer nos responsáveis políticos e militares pela tentativa de ruptura institucional.

Ao longo da entrevista, Breno Altman sustentou que Lula enfrenta uma escolha estratégica: manter a lógica de composição com o Centrão ou assumir uma linha de confronto mais clara com os setores que bloqueiam sua agenda. Para o jornalista, a segunda opção é arriscada, mas necessária para evitar que o governo seja visto como fraco justamente às vésperas da disputa eleitoral.

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