Cardozo diz que candidatura de Flávio Bolsonaro “foi atingida no coração” após escândalo financeiro
Ex-ministro afirma que crise envolvendo Flávio Bolsonaro pode levar à cassação e provocar ruptura no campo da extrema direita
247 - O ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo afirmou que a eventual candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro sofreu um duro golpe após as denúncias envolvendo supostos repasses financeiros ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro e à produção de um filme associado à família Bolsonaro. Em entrevista ao programa Boa Noite 247, Cardozo classificou o caso como “escandaloso”, apontou possíveis implicações criminais e disse que a crise pode provocar uma implosão política na extrema direita brasileira.
Segundo Cardozo, o episódio já começou a produzir efeitos eleitorais negativos e tende a se agravar com o avanço das investigações. “A candidatura de Flávio Bolsonaro já foi atingida no coração antes mesmo da largada”, declarou.
Para o ex-ministro, as contradições públicas apresentadas por Flávio Bolsonaro sobre sua relação com Vorcaro agravaram a situação política e jurídica do senador. Cardozo lembrou que o parlamentar negou inicialmente qualquer proximidade com o banqueiro, mas posteriormente admitiu encontros e tratativas financeiras relacionadas à produção cinematográfica.
“Ele mente sucessivamente tentando encobrir uma realidade”, afirmou Cardozo. “Isso caracteriza, a meu ver, falta de decoro parlamentar. Tem que ser cassado sob pena de o Parlamento se colocar numa situação ridícula perante a opinião pública.”
Durante a entrevista, Cardozo comparou o caso ao processo que levou à cassação do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, acusado de mentir em depoimento parlamentar sobre contas no exterior. Embora tenha reconhecido diferenças formais entre os episódios, o ex-ministro afirmou que o impacto político e ético seria semelhante.
Outro ponto destacado foi a suspeita sobre a origem e a destinação dos recursos utilizados na produção do filme associado ao clã Bolsonaro. Segundo Cardozo, há indícios de que verbas públicas e recursos oriundos de operações financeiras suspeitas tenham sido utilizados de forma irregular.
“O que é esse filme que exigia tanto dinheiro? Isso parece muito mais uma estrutura de arrecadação de recursos do que uma produção cinematográfica”, afirmou.
Ele também questionou a utilização de emendas parlamentares para financiar uma produção supostamente vinculada aos Estados Unidos. Segundo o ex-ministro, o caso pode envolver crimes financeiros, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.
“É uma situação gravíssima que envolve parlamentares, envolve recursos públicos e pode exigir bloqueio de contas, de bens e até da bilheteria do filme para ressarcimento dos danos”, declarou.
Cardozo ainda afirmou que a Polícia Federal deve aprofundar as investigações internacionais para rastrear o caminho do dinheiro movimentado entre Brasil e Estados Unidos. Na avaliação dele, as apurações estão apenas começando.
“Muita água ainda vai rolar. E tenho a sensação de que muita gente pode morrer afogada nesse processo”, disse.
O ex-ministro também comentou os impactos políticos do caso dentro da própria direita brasileira. Segundo ele, setores conservadores já começam a discutir alternativas eleitorais diante do desgaste de Flávio Bolsonaro.
“Ele está tomando ataques de todos os cantos da direita. Ronaldo Caiado, Romeu Zema e outros nomes já aparecem como alternativas”, afirmou.
Cardozo ironizou ainda a presença do senador Sergio Moro ao lado de Flávio Bolsonaro durante coletiva de imprensa sobre o caso. Segundo ele, a expressão do ex-juiz demonstrava desconforto diante da dimensão das denúncias.
“A expressão do Moro era histórica. Parecia alguém percebendo que o barco estava afundando”, comentou.
Ao longo da entrevista, o ex-ministro também criticou vazamentos seletivos de investigações, embora tenha defendido o avanço rigoroso das apurações pela Polícia Federal e pelo Ministério Público. Para ele, o país precisa garantir o devido processo legal, mas sem abrir espaço para a impunidade.
“Não devemos pacificar nada às custas da Constituição. O que aconteceu precisa ser investigado e punido dentro do Estado de Direito”, afirmou.
Cardozo também comentou a discussão no Supremo Tribunal Federal sobre projetos relacionados aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro. Segundo ele, eventuais mudanças legislativas que reduzam penas ou beneficiem envolvidos podem ser consideradas inconstitucionais.
“O Supremo precisa decidir de acordo com a Constituição, não com pressões políticas”, declarou.
Apesar do tom irônico em alguns momentos da entrevista, Cardozo insistiu que o caso representa uma crise séria para o bolsonarismo.
“É um escândalo de proporções enormes. E a impressão é que estamos apenas no começo”, concluiu.



