Celso Amorim alerta para mundo sem regras e defende diálogo na UFRJ
Em conferência na universidade, assessor de Lula critica erosão do direito internacional, comenta guerra no Irã e destaca BRICS, ONU e multilateralismo
247 - A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) recebeu o diplomata Celso Amorim, assessor especial da Presidência da República, para uma conferência marcada pela preocupação com a escalada de conflitos e pela crítica ao enfraquecimento das normas internacionais. Diante de um auditório com docentes, estudantes e convidados, Amorim descreveu um cenário global que, segundo ele, combina aceleração histórica, imprevisibilidade e erosão de mecanismos de contenção política.
“A aceleração da história” e a imprevisibilidade como marca do tempo
Logo no início, o diplomata definiu o que considera a característica central do presente: “a aceleração da história e a total imprevisibilidade das mudanças”. Para ele, crises que recentemente dominavam o noticiário rapidamente parecem superadas por novas explosões de tensão, sem que isso signifique perda de relevância dos temas anteriores.
Amorim comparou o período atual com episódios que viveu ao longo de mais de seis décadas ligadas à diplomacia e afirmou não ter conhecido nada semelhante, nem mesmo em momentos como a crise dos mísseis em Cuba. Na leitura dele, antes havia um foco mais delimitado e interlocução possível; agora, os conflitos se encadeiam e se contaminam, formando uma rede difícil de “desligar totalmente”.
Guerra no Irã e risco de alastramento regional
Ao comentar a guerra no Irã, Amorim disse que o choque recente exemplifica a rapidez com que a conjuntura muda. Citou informações noticiadas pela mídia sobre negociações indiretas e, em seguida, a deflagração de uma grande operação militar. Ao destacar a gravidade do episódio, afirmou: “É a primeira vez na história que os Estados Unidos matam líder de outro país no início de um conflito”.
Na avaliação dele, a dinâmica tende a irradiar para além das fronteiras, envolvendo soberanias de outros países e produzindo um nível de violência “que não se poderia imaginar”. Amorim também ponderou sobre a dimensão histórica e demográfica do Irã, descrevendo-o como “uma civilização de 3.000 anos” e “um país de 90 milhões de habitantes”, o que, em sua leitura, torna improvável um desfecho simples e rápido: “essa guerra não vai ser um passeio”.
Ao lembrar consequências de conflitos passados, citou o caso do Iraque e o surgimento do Estado Islâmico em meio ao colapso institucional, reforçando sua preocupação com efeitos de longo prazo, mesmo que uma guerra pareça terminar cedo.
“Do cosmos para o caos”: a crise das regras globais
Um dos trechos centrais da fala recorreu a referências da cultura grega para ilustrar o que ele vê como o sentido do período atual. Amorim lembrou que os gregos distinguiam “caos” e “cosmos” e sintetizou seu diagnóstico: “o que nós estamos assistindo hoje não é uma evolução do caos pro cosmos, mas é uma evolução do cosmos para o caos”.
Na prática, ele descreveu a passagem de um mundo com regras — ainda que “defeituosas”, “injustas” e “assimétricas” — para um ambiente “absolutamente sem regras”. O diplomata apontou que, após 1945, apesar das contradições da Guerra Fria, houve a tentativa de organizar a política e a economia internacionais com instituições e normas, como a ONU e arranjos comerciais que desembocaram na OMC.
OMC, tarifaço e a desmontagem de uma ordem com defeitos
No campo econômico, Amorim mencionou o impacto da desordem comercial e afirmou que, mais grave do que feridas pontuais provocadas por disputas tarifárias, é o desmonte da própria arquitetura que estabelecia previsibilidade. “Talvez mais importante do que a ferida que fica no seu pé é a desordem geral, a destruição da Organização Mundial de Comércio”, disse, ao recordar também o papel do GATT, antecessor do sistema multilateral de comércio.
Ele ressaltou que, mesmo quando criticava aspectos dessa ordem, reconhecia que se tratava de um conjunto de regras ao qual era possível recorrer. E evocou a ideia de que, em outras fases, as potências buscavam ao menos aparentar conformidade com normas, ainda que a prática divergisse — o que, para ele, indicava a existência de um mínimo constrangimento institucional.
Multipolaridade sem “quintais” e o papel do BRICS
Outro eixo importante foi a diferença entre multipolaridade e a lógica de “áreas de influência”. Amorim disse ver uma confusão “proposital” entre os conceitos e criticou a ideia de aceitar centros de poder desde que cada um tenha “o seu quintal” — expressão que ele associou ao vocabulário geopolítico (“the backyard”).
Ao tratar do papel do Brasil, Amorim defendeu autonomia e rejeição a interferências externas, observando que a hipótese de uso de força militar na América do Sul seria, para ele, um marco inédito. Nesse contexto, destacou a importância do BRICS como instrumento de um mundo multipolar sem a lógica de cercas regionais: “o BRICS não tem uma noção de área de influência”.
Ele ainda contou um episódio em que brincou com a autoria do termo BRICS — “fui eu que inventei… mas fui eu que fiz” — para frisar que a articulação política e diplomática é o que dá vida a conceitos econômicos. Também citou o discurso de posse do presidente Lula em 2003 ao mencionar a prioridade de aproximar “grandes países em desenvolvimento”.
Multilateralismo como condição para a multipolaridade
Amorim insistiu que multipolaridade, por si só, não basta. Para ele, o arranjo só ganha efetividade com regras: “a multipolaridade só tem efetividade se houver também o multilateralismo”. Na mesma linha, afirmou que uma multipolaridade baseada em normas torna mais provável o respeito às próprias regras, numa relação de reforço mútuo.
Cuba, Gaza e o custo humano de um “mundo em guerra”
Em diferentes momentos, Amorim afirmou que os temas se conectam e que é “impossível pensar no problema do Irã sem pensar também no problema de Gaza”. Ele demonstrou preocupação com Cuba e descreveu a situação como “estrangulamento do povo”, apontando que a guerra — além das tragédias diretas — bloqueia o debate sobre outros problemas estruturais, como meio ambiente e desigualdade: “um dos males da guerra… é obstruir… a discussão de outras questões”.
Ao final da conferência, sintetizou a defesa da diplomacia como caminho: “o que nunca pode ser abandonada é a ideia do diálogo e a ideia da paz”. E concluiu com um apelo à universidade como espaço de pluralidade: “é o diálogo que pode salvar a humanidade, é o diálogo que é o nome da paz”.


