"Contrato de Viviane Barci é absolutamente legal e válido", diz Mario Vitor Santos
Jornalista critica editorial do Estadão, fala em captura da pauta e cobra reação na comunicação do governo Lula
247 - A discussão sobre a comunicação do governo Lula, os rearranjos eleitorais em São Paulo e a ofensiva política contra ministros do Supremo Tribunal Federal dominou a análise do jornalista Mario Vitor Santos em participação marcada por críticas à imprensa corporativa e por alertas sobre o ambiente de disputa que se desenha para a próxima eleição.
A avaliação foi feita no Bom Dia 247. Ao longo da conversa, ele sustentou que o caso tem sido explorado politicamente e afirmou que não há, até o momento, elementos que indiquem irregularidade na atuação do ministro Alexandre de Moraes.
Ao abordar a comunicação do governo federal, Mário Vitor afirmou que o problema não é novo e que persiste a dificuldade de transformar realizações administrativas em informação acessível à população. Na avaliação dele, houve um momento inicial de recuperação da presença governamental nas redes, mas esse movimento perdeu força, deixando espaço para que temas impostos pela mídia conservadora ocupem o centro do debate público.
Segundo ele, uma virada dependeria de um esforço mais organizado para divulgar ações concretas do governo. Como exemplo, citou projetos de recuperação ambiental em diferentes biomas brasileiros, dizendo que há iniciativas de grande dimensão em andamento sem que isso alcance repercussão compatível no noticiário. Para o jornalista, esse tipo de agenda acaba soterrado por uma lógica informativa que privilegia conflitos, escândalos e temas caros à direita.
Mario Vitor resumiu esse diagnóstico ao afirmar que “a pauta está capturada, totalmente capturada”. Na sequência, sustentou que não basta reagir aos temas lançados pela chamada mídia “golpista” e “lavajatista”, mas criar outro movimento político e informativo, capaz de reposicionar o debate nacional. Na leitura dele, a eleição tende a ser empurrada para os eixos de corrupção e segurança pública, justamente os assuntos que mais interessam à direita.
Ele também defendeu que o governo e o campo progressista consigam recolocar prioridades concretas em circulação, com persistência e capacidade de engajamento. “Talvez o principal combate necessário seja no combate na ordem informativa do país”, afirmou, ao argumentar que a estrutura da informação no Brasil continua subordinada aos interesses de uma elite que, segundo ele, distorce as prioridades nacionais.
No campo eleitoral, Mario Vitor comentou as especulações em torno do ministro Fernando Haddad e da ministra Simone Tebet. Sobre Haddad, disse ver indefinições e lacunas na forma como sua possível candidatura ao governo de São Paulo vem sendo tratada publicamente. Para ele, faltam explicações mais claras sobre a mudança de posição do ministro, que antes sinalizava não disputar o cargo e agora aparece como nome em ascensão na corrida estadual.
Ao tratar de Simone Tebet, o jornalista avaliou que uma eventual mudança partidária e de domicílio eleitoral, caso esteja politicamente acertada, não configura problema. Na visão dele, a ministra é um quadro “respeitável” e poderia agregar à candidatura presidencial de Lula em São Paulo, especialmente por sua interlocução com setores mais conservadores e com parte do eleitorado feminino. Mario Vitor ainda mencionou Marina Silva como outro nome capaz de fortalecer uma composição competitiva no estado.
A leitura do jornalista é que uma chapa formada por Haddad, Marina e Simone Tebet teria densidade política e eleitoral num colégio decisivo como São Paulo. “Eu tenho a impressão que se notaria aí um tripé”, disse, ao destacar que se trata de nomes já testados nacionalmente e conhecidos pelo eleitorado. Mesmo assim, ponderou que ainda seria preciso observar como essa articulação poderia reacender as bases petistas no estado.
Na entrevista, Mario Vitor também sustentou que o temor de uma volta do bolsonarismo será um dos principais fatores de mobilização na disputa. “Não há combustível mais incinerante do que o medo”, afirmou. Na avaliação dele, esse sentimento poderá impulsionar a campanha contra a volta do grupo político de Jair Bolsonaro ao poder, especialmente se o embate eleitoral for apresentado como uma disputa em defesa da democracia e das condições de vida no país.
Foi, no entanto, a reação ao editorial do Estadão que concentrou os comentários mais duros. Para Mario Vitor, o texto do jornal faz parte de uma operação política mais ampla contra Alexandre de Moraes e o Supremo. Ao rejeitar a tese de irregularidade no caso, ele foi categórico: “o contrato é absolutamente absolutamente ilegal, válido”. Pelo contexto da fala, a formulação indica que ele quis dizer que o contrato seria absolutamente legal e válido, sem violação conhecida da norma.
Na sequência, o jornalista detalhou sua interpretação: “não é proibido, não é contra a lei que o escritório de advocacia da esposa e dos filhos do ministro Alexandre de Moraes tenha um contrato com um cliente que tem uma causa correndo no Supremo Tribunal Federal ou uma investigação”. Para ele, a questão central seria outra: verificar se Alexandre de Moraes atuou diretamente em processo relacionado ao cliente, algo para o qual, segundo declarou, não haveria prova nem evidência.
Mario Vitor classificou o episódio como “um editorial sobre nada”, mas alertou que isso não impediria sua exploração política e midiática. Na visão dele, o objetivo real da ofensiva seria atingir não apenas Moraes, mas o próprio Supremo, em razão de decisões que contrariaram interesses da Lava Jato e de setores ligados aos atos golpistas. Ele enquadrou a repercussão do caso dentro de uma disputa maior em torno do papel da Corte na conjuntura recente.
O jornalista também criticou o uso de vazamentos de informações sigilosas, que, segundo afirmou, estariam sendo manipulados de forma antiética para expor a vida privada de pessoas e induzir a criminalização pública. “Não podemos olhar esse caso de forma isolada do contexto histórico”, disse, ao relacionar a atual ofensiva contra o STF ao ressentimento de setores que perderam espaço político após decisões do tribunal.
Ainda nesse trecho, Mario Vitor afirmou que a cobertura da grande mídia estaria longe da neutralidade em relação ao Supremo e acusou parte da imprensa de construir seletivamente heróis e alvos dentro da Corte. Em contraponto, defendeu cautela institucional e criticou o que classificou como tentativas de aceleração imprópria de investigações sensíveis.
A entrevista também avançou para a disputa no campo da direita e da extrema direita. Mario Vitor relativizou a hipótese de um plano linear para substituir o sobrenome Bolsonaro por Tarcísio de Freitas, embora reconheça a preferência de parte da mídia e da elite econômica por um nome considerado mais palatável. Segundo ele, o clã Bolsonaro segue com peso próprio e não aceitaria facilmente abrir mão desse capital político.
Ao mencionar a influência internacional no processo brasileiro, o jornalista citou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para sustentar que haverá tentativas de interferência política e simbólica no ambiente eleitoral do país. Ainda assim, avaliou que o peso concreto desse apoio dependerá do desgaste do próprio cenário norte-americano e da capacidade das instituições brasileiras de conter sabotagens e campanhas de desinformação.
Nos momentos finais, Mario Vitor voltou a insistir que a eleição será apertada e decidida nos detalhes. Para ele, Lula chegará competitivo e com disposição para liderar a campanha, mas o restante do campo governista precisará se alinhar com mais energia e senso de urgência. Sem atribuir essa movimentação a qualquer fator milagroso, ele apostou no calendário eleitoral como motor de mobilização e na pressão do próprio processo político como elemento capaz de tirar atores hoje inertes da defensiva.


