‘Decisão de Nunes Marques é negacionista e representa um dos legados mais nefastos do bolsonarismo’, alerta Mayra Goulart
Cientista política critica o negacionismo e alerta que o “sinal amarelo” foi aceso com a investida de Flávio Bolsonaro no TSE
247 - Doutora em Ciência Política pelo Instituto de Estudos Políticos e Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ), Mayra Goulart afirmou nesta semana, em entrevista ao programa Giro das Onze, que lideranças defensoras da democracia brasileira precisam “acender o sinal amarelo” por causa das investidas do pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em análise na TV 247, a cientista política fez referência à decisão anunciada pelo ministro do TSE Kassio Nunes Marques, que determinou a suspensão de uma pesquisa da AtlasIntel após a repercussão da informação sobre a queda de Flávio Bolsonaro no levantamento. O magistrado teria atendido a um pedido feito pelo senador.
A especialista afirmou que a decisão de Nunes Marques “alimenta um dos legados mais nefastos do bolsonarismo, que é o negacionismo da pesquisa, da ciência, das instituições. Esse descrédito me preocupa”, alertou.
A estudiosa denunciou tentativas de interferência do bolsonarismo no Judiciário brasileiro. “Foi a primeira investida de Flávio Bolsonaro e o presidente do TSE se mostra frágil. Tem que acender o sinal amarelo”, frisou.
Em 14 de abril deste ano, o Plenário do TSE elegeu Nunes Marques para o cargo de presidente da Corte. André Mendonça foi eleito vice-presidente do Tribunal. Os dois também são ministros do Supremo Tribunal Federal e foram indicados por Jair Bolsonaro para o STF.
Críticas a Nunes Marques
A cientista política afirmou que a metodologia de pesquisas eleitorais pode ser questionada, mas não de forma banal. Para ela, a decisão de Nunes Marques reforça uma marca política associada ao bolsonarismo.
“Kassio Nunes sempre foi mais político do que jurista e não tem vínculos com outros segmentos que deem a ele forças para resistir a pressões do bolsonarismo, que está desesperado, acuado”, complementou.
A analista também chamou atenção para o risco de substituição de critérios científicos por disputas narrativas. Segundo ela, sem parâmetros rigorosos para avaliar pesquisas e trabalhos publicados, prevalece a “subjetivação da realidade”.
Mayra acrescentou que a extrema direita atua no ambiente digital por meio de “estruturas particulares radicalizadas”, com conteúdos que exploram a “dimensão de absurdo, tende a rentabilizar mais aqueles que o fazem”.
Trump e as eleições brasileiras
Na entrevista à TV 247, Mayra Goulart também criticou a tentativa de interferência do governo de Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, no Brasil.
“Há uma potência hegemônica disposta a fazer intervenções (nas eleições brasileiras)”, ressaltou.
No começo do mês, os Estados Unidos anunciaram a intenção de aplicar uma tarifa de 25% sobre parte dos produtos brasileiros e acusaram o Brasil, sem apresentar provas, de práticas desleais no comércio global. O governo Trump também criticou o Pix, sistema de pagamentos lançado pelo Banco Central em 2020.
As pressões defendidas pela gestão trumpista resultaram de articulações entre o bolsonarismo e Trump. O deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mora nos Estados Unidos, tenta obter apoio da extrema direita estadunidense para pressionar o Brasil a libertar Jair Bolsonaro (PL), além de aliados condenados pelo Supremo Tribunal Federal em investigações sobre tentativas de golpe.
O STF condenou 29 pessoas na investigação sobre a trama golpista, com a pena mais alta aplicada a Jair Bolsonaro, de 27 anos de prisão. No caso dos atos golpistas de 8 de Janeiro de 2023, a Corte anunciou mais de 1,4 mil condenações.
Caso Master e filme Dark Horse
Também na TV 247, Mayra comentou a relação entre Flávio Bolsonaro e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Ela classificou o vínculo como uma “relação escusa”.
De acordo com o Intercept Brasil, Flávio Bolsonaro negociou diretamente com o ex-banqueiro um financiamento de R$ 134 milhões para investir no filme Dark Horse, produção biográfica sobre Jair Bolsonaro. Desse valor, ao menos R$ 61 milhões foram repassados.
Segundo Mayra, o senador e seus aliados têm “medo de estar neste dominó” de escândalos envolvendo o filme e o Banco Master. A instituição financeira é alvo da Operação Compliance Zero, da PF (Polícia Federal), que apura um esquema de fraudes financeiras que, segundo investigadores, movimentou ao menos R$ 12 bilhões.
A cientista política afirmou que os escândalos do Master afetam “a formação de palanques”. “É o problema que a campanha de Flávio está lidando de forma mais intensa”.
A estudiosa citou São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais como estados onde o pré-candidato enfrenta dificuldades para formar alianças. A avaliação da analista reforça o impacto político do caso Master sobre a pré-campanha de Flávio Bolsonaro e sobre a disputa eleitoral em curso.



