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Dr. Marcos Caseiro faz apelo após suspensão das vacinas do Butantã: Não deixem de se vacinar

Infectologista afirma que suspensão é preventiva e reforça importância da vacinação contra a dengue

Dr. Marcos Caseiro faz apelo após suspensão das vacinas do Butantã: Não deixem de se vacinar (Foto: Divulgação/Instituto Butantan )
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247 - A suspensão temporária da aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan gerou dúvidas e preocupações entre parte da população. No entanto, o médico infectologista Marcos Caseiro fez um apelo para que o episódio não seja utilizado para alimentar a desconfiança em relação às vacinas. Segundo ele, o momento exige cautela, investigação científica e confiança nos mecanismos de segurança que regulam os imunizantes.

Em entrevista ao Boa Noite 247, o especialista, que atua no Instituto Emílio Ribas, explicou que a interrupção da vacinação ocorreu após a identificação de eventos adversos graves em um grupo de pessoas imunizadas. Para Caseiro, a medida demonstra justamente a seriedade do sistema de vigilância sanitária brasileiro e não deve ser interpretada como prova de que a vacina seja insegura.

“A vacina passou por todas as etapas exigidas de testes clínicos, foi aprovada pela Anvisa e continua sendo monitorada. É exatamente para isso que existe a farmacovigilância”, afirmou.

O infectologista destacou que o imunizante representa um marco para a ciência brasileira. Segundo ele, a vacina do Butantan contra a dengue foi desenvolvida ao longo de mais de duas décadas em colaboração com instituições nacionais e internacionais e se tornou a primeira vacina brasileira de dose única contra a doença.

Caseiro lembrou que a dengue sempre representou um desafio para os pesquisadores por ser causada por quatro sorotipos diferentes do vírus. O objetivo da vacina foi justamente oferecer proteção simultânea contra todas essas variantes. O estudo que embasou a aprovação do imunizante envolveu mais de 10 mil participantes e teve seus resultados publicados no New England Journal of Medicine, uma das mais prestigiadas revistas médicas do mundo.

Investigação busca esclarecer causas dos óbitos

O médico explicou que, após a distribuição inicial de cerca de 500 mil doses em municípios selecionados, foram registrados 42 eventos adversos graves. Entre esses casos, duas pessoas morreram e uma precisou de internação em unidade de terapia intensiva, mas se recuperou.

Apesar disso, Caseiro ressaltou que ainda não é possível afirmar que as mortes tenham sido causadas pela vacina.

“O fato de uma pessoa ter tomado a vacina e depois ter evoluído para óbito não significa necessariamente que exista uma relação de causa e efeito. Correlação não é causalidade”, enfatizou.

Segundo ele, a investigação precisa avaliar detalhadamente o histórico clínico dos pacientes, a presença de doenças pré-existentes, fatores de risco e outras condições que possam ter contribuído para os desfechos observados.

“O Ministério da Saúde agiu corretamente ao interromper temporariamente a vacinação. Isso demonstra responsabilidade com a saúde pública. Agora é preciso investigar profundamente para entender se existe ou não uma relação causal”, declarou.

Como funciona a farmacovigilância

Durante a entrevista, Caseiro explicou que todos os medicamentos e vacinas continuam sendo monitorados mesmo após a aprovação pelos órgãos reguladores. Esse processo é conhecido como fase quatro dos estudos clínicos, ou farmacovigilância.

Segundo ele, diversos medicamentos já foram retirados do mercado ao longo da história após a identificação de efeitos adversos raros que só se tornaram visíveis quando milhões de pessoas passaram a utilizá-los.

“Todo medicamento que usamos hoje continua em fase de farmacovigilância. Isso vale para vacinas, remédios para diabetes, hipertensão e qualquer outro tratamento”, explicou.

O infectologista acredita que será necessário pelo menos um mês para que as autoridades obtenham informações suficientes para avaliar os casos com mais precisão.

Quem já tomou a vacina deve se preocupar?

Para quem recebeu a vacina e não apresentou problemas nos dias seguintes à aplicação, a orientação é de tranquilidade.

“Quem tomou a vacina, passou pelo período de observação e não apresentou complicações não precisa se preocupar. Os dados disponíveis mostram que não há motivo para alarme nesses casos”, afirmou.

Caseiro também observou que a vacina utiliza vírus vivo atenuado, tecnologia semelhante à empregada em outros imunizantes amplamente utilizados. Por esse motivo, existem contraindicações específicas para alguns grupos, como gestantes, pacientes imunossuprimidos e pessoas em tratamento quimioterápico.

Queda nos casos de dengue não pode ser atribuída apenas à vacinação

Questionado sobre a redução de aproximadamente 97% das mortes por dengue mencionada pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o infectologista ponderou que ainda é cedo para atribuir esse resultado diretamente às campanhas de vacinação.

Ele lembrou que o Brasil enfrentou uma explosão de casos em 2024, com mais de 6,5 milhões de registros e cerca de 6.300 mortes. Já em 2025, os números caíram para aproximadamente 1,6 milhão de casos e 1.700 óbitos.

Segundo o especialista, essa redução está relacionada principalmente ao comportamento epidemiológico da doença e ao aumento da imunidade coletiva após a grande circulação do vírus.

“Sempre depois de uma grande epidemia ocorre uma diminuição dos casos porque parte significativa da população desenvolve imunidade natural. Não dá para atribuir essa queda exclusivamente à vacinação”, explicou.

Defesa das vacinas e combate ao negacionismo

Ao final da entrevista, Marcos Caseiro fez uma defesa enfática da vacinação e alertou para os riscos da disseminação de informações falsas sobre imunizantes.

“O Brasil tem o maior programa público de imunização do planeta. Isso é motivo de orgulho. As vacinas, ao lado do saneamento básico, representam uma das maiores revoluções da história da saúde pública”, afirmou.

Ele também rebateu a crença de que a vacina contra a gripe possa provocar a doença.

“A vacina da influenza não causa gripe. Ela contém apenas fragmentos do vírus. O que muitas pessoas confundem com gripe geralmente são resfriados provocados por outros vírus”, explicou.

Encerrando sua participação, o infectologista reforçou o apelo para que a população mantenha a confiança nas campanhas de imunização.

“Quem ama seus filhos e quem ama o próximo deve continuar levando as pessoas para se vacinar. Não deixem de se vacinar.”

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