HOME > Entrevistas

Elias Jabbour: “o poder político é tudo na China”

Em entrevista ao Forças do Brasil, da TV 247, pesquisador defende centralidade do Estado e do Partido Comunista no modelo chinês

Elias Jabbour (Foto: Reprodução/YouTube/Podcast 3 irmãos)

247 - O geógrafo e pesquisador Elias Jabbour afirmou que a análise sobre a China precisa partir do controle do poder político e não apenas de indicadores ligados ao mercado, à propriedade privada ou à presença de bilionários. Ao comentar as posições do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, o especialista sustentou que o país asiático não pode ser enquadrado nos moldes clássicos do capitalismo.

A declaração foi dada em entrevista ao programa Forças do Brasil, da TV 247, em edição especial dedicada a discutir as observações feitas por Haddad sobre a China em conversa anterior com o jornalista Breno Altman, no Opera Mundi. Ao longo da entrevista, Jabbour contestou a leitura do ministro e apresentou sua interpretação sobre o sistema econômico e político chinês.

Segundo Jabbour, o ponto decisivo do debate está na estrutura de comando do Estado. “O poder político é tudo, meu amigo”, afirmou. Para ele, essa é a chave para distinguir a experiência chinesa de uma economia capitalista convencional, já que, em sua avaliação, a burguesia não exerce o poder político na China.

O pesquisador argumentou que, no país, o setor privado não atua com a mesma autonomia observada nas economias ocidentais. De acordo com ele, o Estado ampliou sua influência sobre esse segmento e o Partido Comunista Chinês mantém presença direta nas empresas. “Todas as decisões de investimento privado na China hoje, elas devem ser respaldadas ou não pelo secretário do Partido Comunista que trabalha naquela empresa”, disse.

Na entrevista, Jabbour também rebateu a ideia de que a presença expressiva da propriedade privada seria suficiente para caracterizar a China como capitalista. Em sua avaliação, a propriedade pública dos meios de produção continua sendo o elemento estruturante da economia chinesa e é dela que partem os principais ciclos de acumulação.

Ele afirmou ainda que a propriedade privada no país não tem o mesmo estatuto histórico e jurídico observado no Ocidente. Segundo o pesquisador, na China ela funciona como uma concessão estatal, e não como uma forma sacralizada de organização econômica e social.

Outro ponto abordado foi a desigualdade. Jabbour rejeitou a interpretação de que esse fator, isoladamente, comprovaria o caráter capitalista da China. “A China tem desigualdades sociais caindo de forma brusca desde 2005”, declarou. Na avaliação dele, o quadro precisa ser analisado em conjunto com as diferenças de produtividade entre regiões e com a relação entre campo e cidade.

Ao defender sua leitura, o pesquisador disse que o socialismo não pode ser definido por um modelo abstrato e fixo. “O socialismo se manifesta no movimento real, não é um movimento apriorístico. Não existe um checklist para o que é socialismo ou não”, afirmou.

Jabbour também citou resultados concretos da experiência chinesa para sustentar sua posição. Ele lembrou que a China saiu de uma condição de profunda pobreza para se tornar a maior potência industrial do mundo, elevou a expectativa de vida da população, construiu uma ampla malha de trens de alta velocidade e eliminou a pobreza extrema.

“Qual o capitalismo do mundo aplicado àquela realidade seria capaz de entregar esses resultados?”, questionou. Para ele, a trajetória recente do país indica a existência de uma formação econômica específica, que não se confunde com o capitalismo liberal nem pode ser analisada apenas por categorias formuladas fora da realidade chinesa.

Ao longo da entrevista, Jabbour também criticou o que chamou de visão eurocêntrica presente em parte das análises ocidentais sobre a China. Segundo ele, muitos intérpretes deixam de considerar a história do país, a centralidade da luta anti-imperialista e a produção intelectual chinesa sobre sua própria experiência.

Mesmo com as divergências, o tom adotado pelo pesquisador foi de respeito em relação ao ministro da Fazenda. Jabbour ressaltou sua admiração pessoal e intelectual por Haddad, mas afirmou que ambos estão em campos diferentes nesse debate específico sobre a China.

A entrevista expôs uma divergência de fundo sobre como interpretar o desenvolvimento chinês. De um lado, a leitura de que o país opera dentro de uma lógica capitalista; de outro, a defesa de que a experiência chinesa constitui uma forma própria de construção do socialismo, ancorada no comando político do Partido Comunista e na centralidade do Estado sobre os rumos da economia.

Artigos Relacionados