“Estamos diante de uma reconfiguração da ordem global”, diz Laura Carvalho
Em entrevista na TV Brasil, Laura Carvalho avalia impactos de Donald Trump, avanço da China, soberania digital e a chance de o Brasil negociar melhor
247 - O mundo atravessa uma transformação profunda na economia e na geopolítica, com reflexos diretos sobre comércio, tecnologia e alianças internacionais. Para a economista Laura Carvalho, esse processo já vinha em curso, mas ganhou nitidez sob o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
As declarações foram dadas no programa Brasil no Mundo, exibido pela TV Brasil e disponível no YouTube, em debate apresentado por Cristina Serra. Ao longo da entrevista, Laura analisou o reposicionamento da Europa, o papel crescente da China, a instabilidade do dólar e as possibilidades que se abrem para o Brasil nesse novo cenário internacional.
“O governo Trump deixou mais claro que o mundo mudou”
Logo no início da conversa, Laura sintetizou o momento histórico: “A gente está diante de uma reconfiguração da ordem global — econômica e geopolítica — de grandes proporções.” Segundo ela, o fenômeno não começou agora, mas o contexto recente tornou a mudança mais evidente.
“A forma como os blocos de países se comportavam no passado não será a mesma no futuro”, afirmou. Para a economista, o governo Trump explicitou uma inflexão estrutural: “Esse governo deixou muito mais claro que o padrão anterior de alianças e comportamento internacional não vai se repetir.”
Na avaliação dela, a Europa demorou a perceber a profundidade dessa mudança. “A Europa ainda levou tempo para entender que precisava se reposicionar de forma mais clara e diversificar seus parceiros”, disse.
Europa, Índia e o significado geopolítico dos acordos
Ao comentar o acordo comercial entre União Europeia e Índia, Laura destacou que, do ponto de vista econômico imediato, o impacto tende a ser maior para os indianos. “Em termos econômicos, o efeito deve ser mais relevante para a Índia neste primeiro momento”, explicou, lembrando que a economia indiana cresce de forma expressiva.
Mas, para além dos números, ela enfatizou a dimensão estratégica: “O impacto não é apenas econômico. Ele está sendo lido pela lente geopolítica.” Segundo a economista, há um movimento mais amplo de distanciamento em relação aos Estados Unidos: “Existe uma tendência de afastamento da economia norte-americana por parte de países europeus, latino-americanos e do sudeste asiático.”
China e a busca por previsibilidade
Na análise apresentada no programa, a China surge como destino natural de novos acordos comerciais e investimentos. Laura afirmou que parceiros tradicionais dos Estados Unidos passaram a buscar alternativas, e Pequim ocupa esse espaço.
“Muitos países tinham receio de negociar com a China por considerarem seu governo autoritário”, observou. No entanto, ela ponderou que o cenário internacional mudou: “Hoje também há um governo considerado autoritário nos Estados Unidos — e um deles é imprevisível.”
Para Laura, a previsibilidade tornou-se critério central. “Para negócios, é mais fácil lidar com quem você sabe como age do que com quem você não consegue prever”, afirmou, ao explicar por que a China vem sendo vista como alternativa estável por diversos países.
Soberania digital e o retorno das políticas industriais
A economista relacionou a nova fase geopolítica aos choques recentes, como a pandemia e a guerra na Ucrânia, que expuseram fragilidades nas cadeias globais de produção. “Ficou claro que, em momentos de emergência, países não tinham acesso a itens essenciais porque dependiam de cadeias internacionais fragmentadas”, explicou.
Na avaliação dela, os países ricos passaram a reativar políticas industriais com foco em segurança e soberania. “Eles entenderam que precisavam retomar políticas industriais mais ativas, voltadas à soberania e à segurança nacional.”
Nesse contexto, Laura incluiu a soberania digital. “Não dá mais para contar apenas com o comércio global livre quando se trata de bens essenciais para a população”, afirmou, indicando que infraestrutura tecnológica e domínio de tecnologias estratégicas passaram a ser tratados como temas de Estado.
Dólar sob pressão e necessidade de diversificação
Outro ponto central da entrevista foi o papel do dólar. Laura lembrou que, historicamente, em momentos de crise, investidores buscavam proteção na moeda norte-americana e nos títulos do Tesouro dos EUA.
“Em situações de turbulência, o ativo considerado mais seguro era o dólar”, explicou. Contudo, segundo ela, esse padrão começou a mostrar sinais de mudança a partir do ano passado, especialmente após anúncios de tarifas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Em episódios recentes de instabilidade, o dólar deixou de se valorizar automaticamente como acontecia no passado”, afirmou. Isso aumenta a incerteza para países que acumulam reservas internacionais concentradas na moeda norte-americana.
Diante desse cenário, Laura defendeu diversificação: “É preciso ter outras cestas de moedas — um pouco de dólar, um pouco de euro, um pouco de renminbi.”
Questionada sobre a possibilidade de o dólar deixar de ser a principal moeda global, ela foi cautelosa: “Não vejo uma substituição rápida do dólar.” Segundo a economista, não há um candidato evidente para assumir esse papel, e nem mesmo a China demonstra intenção clara de transformar sua moeda na principal reserva internacional.
Uma janela estratégica para o Brasil
Para Laura Carvalho, a nova configuração global pode representar uma oportunidade para países que não foram grandes beneficiários da globalização anterior.
“O Brasil não foi um dos principais vencedores da ordem global anterior, exceto pelo agronegócio e pelas commodities”, afirmou. Nesse sentido, ela vê espaço para uma estratégia mais ativa diante da disputa entre grandes potências.
“A concorrência entre China e Estados Unidos abre margem para que países em desenvolvimento negociem melhor, exijam produção local e gerem mais empregos.”
Na avaliação da economista, o desafio brasileiro será evitar a repetição do papel de mero exportador de matérias-primas e aproveitar a nova disputa global para ampliar capacidade produtiva e tecnológica. Em um mundo mais fragmentado e multipolar, concluiu, a capacidade de negociação pode definir quem ganha mais espaço — e quem permanece à margem da nova ordem que está em formação.


