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“Estratégia pode ser fazer o Lula comer na mão da Globo”, diz Breno Altman

Jornalista afirma que a pressão da Globo busca fragilizar o governo Lula e cobrar garantias políticas para 2026

“Estratégia pode ser fazer o Lula comer na mão da Globo”, diz Breno Altman (Foto: Brasil247)

247 - Ao analisar a atuação da Globo e a resposta do governo federal, o jornalista e analista geopolítico Breno Altman afirmou que a emissora estaria operando para ampliar a pressão sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e condicionar sua relação com o grupo de comunicação.

Em entrevista ao Bom Dia 247, Altman sustentou que o movimento da Globo não deve ser lido apenas como adesão antecipada a um adversário de Lula em 2026, mas como parte de uma estratégia de pressão sobre o governo. Para ele, o objetivo pode ser outro: “Pode ser uma estratégia de obrigar o Lula a comer na mão da Globo, ou seja, uma estratégia de fragilizar o máximo o governo para que sejam dadas todas as garantias de que um quarto mandato de Lula não ofenderá os interesses que a Globo representa”.

A declaração foi dada no contexto da discussão sobre a cobertura do caso Banco Master e sobre a forma como a emissora tratou o tema. Altman disse que não se surpreendeu com a conduta editorial da Globo. O que o surpreende, segundo ele, é a manutenção do volume de publicidade oficial destinado ao grupo. “Eu não me surpreendi com a Globo recebendo 462 milhões de anúncios do governo federal no ano passado, 49% das verbas de publicidade. É isso que eu me surpreendi”, declarou.

Ao longo da entrevista, Breno Altman concentrou sua crítica no que considera uma contradição do governo e do petismo diante da atuação da emissora. Em sua avaliação, o problema central não está apenas na cobertura da Globo, mas na continuidade de uma política de publicidade que, segundo ele, fortalece um ator que age contra o governo. “O que me surpreende não é a Globo fazer o PowerPoint. Isso aqui é totalmente esperado. O que me surpreende é a Globo levar metade das verbas da publicidade do governo”, afirmou.

Altman disse que o governo dispõe de margem para definir a distribuição da publicidade estatal a partir do interesse público e recordou que outras administrações já alteraram esse padrão. Para ele, não se trata necessariamente de defender um rompimento formal, mas de rever a lógica da relação. “O governo tem poder discricionário sobre publicidade. O governo não é obrigado a aplicar qualquer critério que não aquele do interesse do poder público”, disse.

Na mesma linha, ele afirmou que a relação entre os governos petistas e a Globo é marcada por um desequilíbrio político. “Mas os governos petistas amam a Globo. É um amor não correspondido. É uma relação tóxica”, declarou. Em seguida, reforçou que, a seu ver, o petismo não consegue se desvincular desse vínculo. “Não consegue se libertar dessa relação tóxica. Não consegue”, disse.

Para Altman, a origem desse comportamento está em uma leitura política mais ampla. Segundo ele, o PT e o governo demonstram capacidade para vencer eleições, mas não para disputar hegemonia na sociedade e nos centros de poder. “O PT e o governo não tem estratégia para disputa de hegemonia, tem estratégia para ganhar eleição, que não é a mesma coisa”, afirmou.

Na entrevista, ele argumentou que essa lógica leva setores do governo a tratar grupos de poder como aliados permanentes, mesmo quando esses atores mantêm interesses próprios e capacidade de pressão. Nesse raciocínio, a relação com a Globo entraria no mesmo padrão: em vez de enfrentamento político e disputa de narrativa, haveria acomodação.

Ao comentar a hipótese de a emissora já ter escolhido um nome para 2026, Altman disse que esse cenário ainda não está definido. Para ele, a Globo pode estar agindo de forma simultânea contra diferentes campos políticos para preservar sua capacidade de negociação. “Eu não acho que ela esteja com Flávio Bolsonaro a princípio. Eu acho que ela tá se colocando numa posição para negociar conforme o andar da carruagem para que lado ela vai cair”, afirmou.

Nesse ponto, voltou a sustentar que o objetivo imediato seria aumentar o poder de influência sobre Lula. “Ela começou a bater duramente no Lula para mostrar pro Lula que ela não é uma aliada gratuita. Se ele quiser uma aliança com a Globo para as eleições de 2026, vai ter que ajoelhar no milho e beijar a mão”, disse.

Altman também afirmou que o governo, em sua visão, reage de forma insuficiente diante desse movimento. Para ele, a continuidade dos repasses publicitários amplia a capacidade de pressão da emissora e enfraquece a posição do próprio Planalto. Ao usar uma metáfora durante a entrevista, comparou a situação ao ato de alimentar um risco político que depois se torna maior. “Eu tenho medo do jacaré, aí eu o alimento porque eu tenho medo do jacaré. Aí o jacaré fica mais forte porque eu alimento”, declarou.

O analista defendeu ainda uma medida direta diante do que classificou como prática anti-jornalista. “Se uma emissora de televisão utiliza essa concessão para uma atividade anti jornalística, para uma mentira cujo objetivo é uma conspiração, é desgastar o governo, é debilitar o presidente da República, o mínimo que o governo pode fazer é: diante do comportamento anti jornalístico da emissora, nós estamos suspendendo toda a publicidade estatal”, disse.

Ao final, Breno Altman resumiu sua avaliação como um problema político recorrente. Para ele, a reação à cobertura da Globo não pode se limitar à denúncia pública do conteúdo exibido, sem tocar na estrutura de sustentação dessa relação. “Vai reclamar da Globo, claro, vamos denunciar o que a Globo fez. Estou de pleno acordo. Mas quem tá botando combustível nesse tanque?”, questionou.

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