Frei Betto alerta: “a esquerda abandonou suas bases”
Teólogo afirma que forças progressistas perderam conexão com as periferias e deixaram de investir em formação política popular
247 - Em entrevista ao Bom Dia 247, o escritor e teólogo Frei Betto fez um duro diagnóstico sobre a situação da esquerda brasileira e afirmou que os movimentos progressistas se distanciaram das bases populares ao longo dos últimos anos. Segundo ele, a perda de presença nas periferias, nas comunidades e nos movimentos sociais abriu espaço para o avanço do conservadorismo religioso, das milícias e do crime organizado.
Para Frei Betto, a esquerda abandonou o trabalho de educação popular e conscientização política que foi decisivo durante o período de resistência à ditadura militar e na construção das condições que levaram à eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Nós fomos abandonando as bases. Não há reprodução, não há formação política, não há equipes de educação popular. Paulo Freire hoje, no máximo, fica nas estantes e não na prática”, declarou.
O religioso afirmou que sindicatos e partidos perderam capacidade de mobilização social após o enfraquecimento das estruturas populares e criticou o afastamento de lideranças progressistas da realidade das periferias brasileiras.
Segundo ele, setores da esquerda passaram por um processo de elitização ao ocupar cargos institucionais e estruturas de governo.
“A esquerda de salto alto é aquela que chega ao governo e começa a se afastar do povo. Não quer mais ir para a periferia, subir favela ou estar ao lado dos movimentos populares”, afirmou.
Frei Betto destacou que o trabalho político de base exige presença constante nas comunidades e dedicação de longo prazo, algo que, em sua avaliação, foi praticamente abandonado.
Ele defendeu a retomada da educação popular inspirada no método de Paulo Freire e revelou ter sugerido ao governo federal a contratação de milhares de educadores populares para atuar em todo o país.
“O Lula não virou presidente por causa de marketing ou apoio empresarial. Ele foi resultado do acúmulo político do movimento popular construído desde a luta contra a ditadura”, disse.
O teólogo também alertou para o crescimento da influência de setores religiosos fundamentalistas nas periferias, ocupando espaços antes dominados por organizações populares e movimentos sociais.
Segundo ele, a esquerda ainda não conseguiu compreender a dimensão dessa disputa política e cultural.
“Hoje essas áreas estão dominadas por fundamentalistas, milícias e narcotráfico. Ninguém mais faz trabalho político nessas regiões”, afirmou.
Ao longo da entrevista, Frei Betto insistiu que a reconstrução das forças progressistas dependerá da retomada do trabalho de base, da formação política e da reconexão com trabalhadores, jovens e moradores das periferias.
Para ele, sem essa reorganização popular, o campo progressista corre riscos nas próximas disputas eleitorais e perde capacidade de enfrentar o avanço conservador no país.


