Larry Johnson diz que Trump cogitou uso de arma nuclear
Ex-analista da CIA afirma que militares rejeitaram cenário nuclear e vê efeitos econômicos graves da crise no Golfo
247 - O ex-analista da CIA Larry Johnson diz que Trump cogitou uso de arma nuclear em meio à crise no Golfo, que, segundo ele, passou a produzir efeitos econômicos graves e pode alterar o equilíbrio geopolítico no Oriente Médio. As informações são da TV 247.
Em entrevista ao jornalista Mario Vitor Santos, no programa Forças do Brasil, Johnson afirmou que houve confusão em torno da informação de que militares teriam negado a Trump acesso aos códigos nucleares. Segundo ele, o presidente mantém formalmente a cadeia de comando, mas teria enfrentado forte resistência ao levantar a hipótese de empregar uma arma nuclear.
“O presidente tem os códigos nucleares. O presidente tem a cadeia de comando”, disse Johnson. Ele explicou que, em caso de ordem para um ataque nuclear, a decisão passaria pelo secretário de Defesa e pelo comando estratégico responsável por executar uma operação desse tipo.
De acordo com o ex-analista, o episódio envolveu o general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, descrito por Johnson como o principal conselheiro militar do presidente por determinação legal. Johnson afirmou que Caine teria rejeitado de forma contundente a possibilidade discutida por Trump.
“Trump, nessa reunião, estava falando sobre a possibilidade, considerando a possibilidade de usar uma arma nuclear, e o general Caine disse basicamente: absolutamente não”, declarou Johnson. Para ele, a reação militar foi decisiva para conter o debate e expor o risco de uma escalada extrema.
Johnson disse ainda que a divulgação do caso teve impacto político, pois levou Trump a negar publicamente que cogitasse o uso de armamento nuclear. “Isso fez Trump dizer em público: ‘Oh, não, nós nunca usaríamos uma bomba nuclear’. Isso é um grande passo na direção certa”, afirmou.
Questionado sobre por que Trump teria considerado essa alternativa, Johnson atribuiu o episódio a “ignorância e frustração”. Segundo ele, Trump não compreenderia plenamente as implicações militares e estratégicas de uma ameaça nuclear.
“Ignorância, ignorância e frustração”, disse. “Acho que ele assistiu a filmes demais, nos quais pensa: ‘a bomba nuclear resolve todos os problemas’. Não resolve.”.
O ex-analista afirmou que a simples ameaça de uso de uma arma nuclear criaria vulnerabilidades graves para os Estados Unidos diante de potências como China, Rússia e Coreia do Norte. Na avaliação dele, por isso a hipótese precisou ser descartada rapidamente pelos militares.
Johnson também vinculou o episódio ao que classificou como frustração de Washington diante dos resultados da guerra. Segundo ele, Trump teria sido convencido de que a ofensiva seria rápida, com a desarticulação da liderança iraniana e uma possível revolta interna contra o governo do Irã.
“Ocorreu exatamente o oposto”, afirmou. “Os ataques dos EUA inspiraram uma onda massiva de patriotismo entre o povo iraniano.”.
Segundo Johnson, a continuidade dos lançamentos de mísseis iranianos contra bases dos Estados Unidos e contra Israel teria alimentado a irritação de Trump. “Eu poderia ver Trump, em sua frustração, dizendo: temos que atingi-los com algo mais forte”, disse.
O ex-analista comparou a percepção norte-americana sobre armas nucleares ao que chamou de leitura equivocada sobre o fim da Segunda Guerra Mundial no Pacífico. Para ele, parte da cultura política dos EUA teria consolidado a ideia de que o uso de bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki foi o único fator determinante para a rendição japonesa.
Johnson afirmou que essa leitura ignora o peso da entrada da União Soviética na guerra contra o Japão. Segundo ele, a visão simplificada do passado alimentaria a crença de que um ataque nuclear poderia forçar automaticamente um adversário a capitular.
“É essa história falsa que leva os americanos a acreditar: tudo que precisamos fazer é lançar uma bomba nuclear e os outros vão se render”, declarou. “Não é tão fácil.”.
Para Johnson, embora Trump tenha dito que a opção nuclear estaria fora da mesa, não é possível garantir que ele não volte a cogitá-la. O ex-analista afirmou, porém, que setores militares responsáveis por executar uma ordem desse tipo poderiam resistir, caso a considerassem ilegal.
“Estou bastante confiante de que os elementos militares subordinados responsáveis por cumprir essa ordem teriam grande relutância”, disse. Segundo ele, oficiais poderiam se recusar a executar uma determinação classificada por eles como ilegal.
Impasse militar e mudança econômica
Johnson avaliou que a guerra passou de uma fase dominada por bombardeios e ataques diretos para um estágio de pressão econômica. Ele descreveu o momento como um “limbo”, marcado por cessar-fogo, incertezas e consequências globais ainda em expansão.
Segundo ele, a sequência de ataques teria incluído a destruição de alvos no Irã por Estados Unidos e Israel, além de respostas iranianas contra bases norte-americanas e posições israelenses. Johnson afirmou que a expectativa imediata seria a manutenção do cessar-fogo, mas sem uma solução definitiva.
Para o ex-analista, Trump vem sustentando uma leitura equivocada da situação interna iraniana. Ele disse que o presidente norte-americano acredita haver divisão profunda em Teerã, quando, em sua avaliação, a liderança iraniana estaria unida pela experiência comum da guerra entre Irã e Iraque nos anos 1980.
Johnson citou o aiatolá Ali Khamenei, o chanceler Abbas Araghchi, o presidente Masoud Pezeshkian, o presidente do Parlamento Mohammad Bagher Ghalib Af e a liderança da Guarda Revolucionária como figuras que compartilham uma trajetória marcada pelo conflito. Segundo ele, esse passado teria reforçado a coesão do atual comando iraniano.
“Esses homens serviram em várias posições. Talvez não se conhecessem naquela época, mas compartilham o vínculo de ter estado nessa batalha”, afirmou.
Johnson disse que o Irã aceitaria negociar, mas com objetivos próprios claramente definidos. “Então cabe aos Estados Unidos decidir se aceitam ou rejeitam”, afirmou.
Crise no petróleo, fertilizantes e alimentos
O ex-analista afirmou que o fechamento do Estreito de Hormuz e a destruição de instalações ligadas a gás natural, petróleo e infraestrutura energética no Golfo teriam iniciado uma crise ainda não plenamente percebida. Ele comparou a situação a uma panela que esquenta lentamente até ferver.
“É como colocar um sapo em uma panela de água fria e ligar o fogo”, disse. “O sapo não sabe imediatamente que está em perigo.”.
Johnson afirmou que o mundo ainda estaria absorvendo os efeitos de navios que haviam deixado a região antes da interrupção total. Segundo ele, quando esses carregamentos terminarem de ser consumidos, a redução no fornecimento de petróleo será sentida com mais intensidade.
“Agora estamos funcionando com vapores”, declarou. Para ele, o choque no abastecimento terá impactos sobre alimentos, produção agrícola e custos de fertilizantes.
Ao comentar o caso brasileiro, Johnson disse que o país poderia enfrentar alta expressiva no custo de fertilizantes na próxima temporada de plantio. “Quando chegar a época de plantar, o preço do fertilizante será três ou quatro vezes maior do que é agora”, afirmou.
Segundo ele, isso poderia levar produtores a reduzir áreas plantadas ou a elevar preços para compensar custos. Johnson disse que a crise poderia atingir com força o Sul Global, inclusive com risco de fome em países mais vulneráveis.
O ex-analista afirmou que a situação econômica global seria pior do que a crise de 2008, devido ao alto endividamento de países e mercados. “Quando essa implosão acontecer, vai atingir o globo. Não ficará confinada a um ou dois países”, disse.
Irã em posição mais forte
Johnson avaliou que, se Trump declarar vitória e retirar forças norte-americanas da região, o Irã sairá em posição mais forte do que antes do conflito. Segundo ele, Teerã deixaria de ser tratado como ator marginal e passaria a ser considerado indispensável em qualquer rearranjo regional.
“Agora outros países terão que lidar com o Irã. No passado, tratavam o Irã como um pária, alguém que podia ser ignorado. Agora não se pode ignorar o Irã”, afirmou.
Ele disse que países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar também precisariam rever suas relações de segurança. Na visão de Johnson, a guerra demonstrou que os Estados Unidos não conseguiram proteger seus aliados do Golfo.
“Eles nos deram dinheiro e o que fizemos? Falhamos em protegê-los, de forma enorme”, declarou.
Johnson afirmou ainda que bases norte-americanas na região teriam sido amplamente destruídas e não voltariam ao mesmo padrão operacional. Segundo ele, uma nova rodada de combates poderia levar o Irã a eliminar o que restasse dessas estruturas.
Para o ex-analista, isso representaria uma mudança geopolítica profunda. “Os Estados Unidos, por suas próprias ações ineptas, se forçaram para fora do Golfo Pérsico”, afirmou.
Ele disse que Rússia e China poderiam ganhar espaço em futuras negociações regionais, inclusive por meio de arranjos envolvendo o Brics. Johnson comparou o momento a mudanças estruturais ocorridas após a Segunda Guerra Mundial, com a criação de instituições internacionais como ONU, Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional.
Israel, Hezbollah e o conflito regional
Johnson afirmou que Israel enfrenta “grandes problemas” em meio ao novo cenário regional. Segundo ele, a política israelense em relação aos palestinos e a ofensiva contra o Hezbollah não produziram os resultados esperados.
“Eles embarcaram em uma política para exterminar os palestinos, e os palestinos se recusaram a ser exterminados”, disse.
O ex-analista afirmou que Israel tentou enfraquecer o Hezbollah, inclusive após ataques contra lideranças e estruturas de comunicação, mas não conseguiu neutralizar o movimento. Segundo Johnson, o Hezbollah continuaria causando danos às forças israelenses no sul do Líbano.
“Hezbollah não desapareceu. Hezbollah está tão forte quanto antes”, afirmou.
Johnson disse que Israel esperava avançar até o rio Litani, mas não teria alcançado esse objetivo. Ele comparou a situação ao fracasso israelense no conflito de 2006 contra o Hezbollah.
Segundo ele, qualquer acordo regional envolvendo o Irã dificilmente exigiria que Teerã abandonasse Hamas ou Hezbollah. “O Irã não vai fechar um acordo que exija abandonar Hamas ou Hezbollah”, declarou.
O ex-analista também afirmou que cresce nos Estados Unidos a oposição à influência israelense sobre Washington. Para ele, esse é um fator político que pode ganhar relevância em meio ao desgaste do conflito.
Limites militares dos Estados Unidos
Johnson avaliou que os Estados Unidos não teriam uma opção militar clara para derrotar o Irã. Segundo ele, embora haja movimentação de porta-aviões e tropas na região, ainda não existe um comando terrestre designado para uma grande operação em solo.
“O que você ainda não tem é um comandante para forças terrestres”, disse. “Se nomearem um comandante terrestre, então, sim, isso significa que vamos atacar por terra e o Irã precisa estar pronto.”.
Ele afirmou que comandantes responsáveis por operações aéreas e marítimas estariam alertando sobre a escassez de mísseis guiados de precisão. Segundo Johnson, muitos alvos considerados relevantes já teriam sido atingidos, e novos ataques dificilmente mudariam o resultado estratégico.
“Estamos ficando sem mísseis guiados de precisão”, afirmou.
Johnson também destacou que a reposição desses sistemas dependeria de insumos controlados pela China, especialmente minerais de terras raras. “A China não vai nos ajudar a reconstruir esses mísseis”, disse.
Crise política interna nos EUA
Na parte final da entrevista, Johnson afirmou que a guerra e seus efeitos econômicos podem afetar diretamente a política interna dos Estados Unidos. Ele previu alta expressiva nos preços de petróleo e gasolina, com impacto sobre a popularidade de Trump e dos republicanos que o apoiam.
“Acho que o que vai acontecer nas próximas duas semanas é um aumento dramático no preço do petróleo e da gasolina”, disse. “Isso terá um efeito econômico devastador em todo o país.”.
Johnson comparou a evolução da crise a um tsunami. Segundo ele, os primeiros sinais podem parecer enganosamente calmos, até que a onda atinja a população de forma abrupta.
“O primeiro período dessa guerra e do cessar-fogo com o Irã foi a calma antes da tempestade”, afirmou.
Para o ex-analista, a crise já teria ultrapassado a capacidade de controle de Trump. “Está fora do controle dele”, disse. Ele também afirmou que instituições internacionais como ONU, FMI e Banco Mundial já não teriam capacidade de regular uma crise dessa magnitude.
Johnson concluiu que o momento acelera o declínio da hegemonia norte-americana. “Exatamente”, respondeu ao ser questionado sobre se a crise estaria acelerando a perda de domínio global dos Estados Unidos.


