"Lula pode se reeleger, mas sem entusiasmo”, diz Rui Costa Pimenta
Presidente do PCO avalia que desgaste político, pragmatismo externo e alianças com a burguesia podem garantir vitória eleitoral
247 – O presidente do Partido da Causa Operária (PCO), Rui Costa Pimenta, afirmou que o presidente Lula pode vencer a eleição presidencial de 2026, mas alertou que uma eventual reeleição ocorreria “sem entusiasmo”, com apoio restrito ao eleitorado cativo e baixa mobilização política. A avaliação foi feita durante entrevista concedida à TV 247, na sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026, em um longo debate sobre política nacional, conjuntura internacional e os rumos da esquerda brasileira.
Ao analisar o cenário eleitoral, Rui destacou que a principal fragilidade do governo não está apenas nos indicadores econômicos, mas na frustração de setores que tradicionalmente sustentam o PT. “O pessoal vai votar, mas não vai se entusiasmar, não vai fazer campanha. Vota por dever de ofício. E sem entusiasmo é muito difícil conquistar novos votos”, afirmou.
Segundo ele, o PT dispõe hoje de algo entre 35% e 40% de eleitorado fiel, mas precisa ampliar esse apoio para vencer. “Sem entusiasmo, você não conquista o resto. A esquerda institucional perde no mundo inteiro por dois motivos: ou o povo não vai votar, ou vota sem entusiasmo e não faz campanha”, explicou.
Política externa e críticas ao pragmatismo
Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica de Rui Costa Pimenta à política externa do governo Lula, especialmente após declarações do presidente em entrevista à jornalista Daniela Lima, do UOL, nas quais Lula afirmou que a prioridade em relação à Venezuela não seria a libertação do presidente Nicolás Maduro, mas a melhoria das condições de vida da população venezuelana.
Para Rui, essa posição representa um grave erro político e moral. “Eu acho isso totalmente absurdo. A libertação do Maduro é uma questão essencial. Qual é o princípio do direito internacional que autoriza um país a sequestrar o presidente de outro?”, questionou.
O dirigente do PCO classificou o sequestro de Maduro como um ato criminoso. “Isso é banditismo. É um ato criminoso. Um país que se diz democrático tem a obrigação de condenar esse tipo de ação”, disse, acrescentando que bastaria o fim do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos para melhorar significativamente a situação venezuelana.
Na avaliação de Rui, o governo brasileiro tem evitado confrontar os Estados Unidos por pragmatismo eleitoral, o que, segundo ele, gera perdas políticas à esquerda. “O Lula não ganha nada com a direita e perde muito com a esquerda. Isso diminui o impacto político do governo justamente quando ele se aproxima de uma disputa eleitoral decisiva”, afirmou.
Trump, chantagem e crise do imperialismo
Durante a entrevista, Rui também comentou o caso Jeffrey Epstein, que voltou ao debate internacional com novas revelações, e afirmou que o escândalo expõe a existência de uma indústria de chantagem política em escala global. “Isso mostra que a chantagem organizada contra políticos não era teoria da conspiração. É uma engrenagem do sistema imperialista”, disse.
Questionado sobre Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, Rui afirmou que há fortes indícios de pressões internas e externas sobre o governo norte-americano, inclusive em relação a um possível ataque ao Irã. “Trump não quer fazer essa guerra, mas a pressão é muito grande. Governar não significa necessariamente ter poder”, afirmou.
Economia, crescimento limitado e desilusão social
Rui Costa Pimenta também contestou a leitura otimista do governo sobre a economia brasileira. Embora reconheça melhora em alguns indicadores, ele considera os avanços insuficientes. “Crescer 2,3% é crescimento pífio para um país como o Brasil. Não muda a vida das pessoas”, afirmou.
Segundo ele, o custo de vida continua alto, o desemprego oculto é significativo e o aumento de recuperações judiciais revela dificuldades estruturais. “Você anda pelas cidades e vê empresas fechadas, gente dormindo na rua. O Brasil não tem clima de país que está indo para frente”, disse.
Rui também criticou a política de juros elevados, que hoje coloca o Brasil entre os países com as maiores taxas do mundo. “Não vejo o que há para elogiar com juros de 15%. Isso é um desastre para a produção e para as empresas”, afirmou, em referência aos elogios feitos por Lula ao presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.
Frente ampla, alianças e limites do PT
Ao analisar a composição do governo, Rui definiu o atual mandato como um governo de frente ampla e de colaboração de classes. “Não é rigorosamente um governo só do PT. É meio governo do PT, meio governo da burguesia”, afirmou.
Ele criticou alianças com o centrão e figuras como Geraldo Alckmin, mas reconheceu que essa estratégia pode funcionar do ponto de vista eleitoral. “Essa política pode até dar certo para ganhar a eleição. O mérito seria do Lula. Mas não permite fazer nada de realmente significativo”, avaliou.
Segundo Rui, o PT enfrenta limites estruturais para resistir à orientação neoliberal da burguesia. “Se o Lula for reeleito, ou ele vai assumir uma política neoliberal explícita, o que seria um desastre para o PT, ou vai tentar manter a atual e pode acabar sendo derrubado”, alertou.
Sucessão e futuro do PT
Questionado sobre a sucessão de Lula e possíveis herdeiros políticos, Rui afirmou que não vê hoje nenhuma liderança com autoridade eleitoral comparável. “Haddad não tem esse peso, Boulos não tem currículo político, outros nomes não têm carisma nem base social”, disse.
Segundo ele, a força de Lula reside em seu capital eleitoral, algo difícil de transferir. “A autoridade do Lula hoje repousa sobre o caudal eleitoral que ele tem. Transferir isso para outra pessoa é extremamente complicado”, afirmou.
Rui concluiu destacando que, apesar das críticas, não considera o PT um inimigo da classe trabalhadora. “O inimigo principal é o imperialismo e o grande capital. Quando o PT se aproxima desse bloco, nós criticamos, mas isso não é antipetismo”, disse.
Ao final, reforçou sua avaliação central: “O Lula pode ganhar a eleição. Mas sem entusiasmo, sem mobilização e com uma política que tende a aprofundar contradições, a vitória se torna frágil”.


