Marco Fernandes: o futuro do mundo multipolar está sendo jogado no Irã
Correspondente em Moscou, jornalista relaciona sanções, crise econômica e guerra híbrida ao risco de virada estratégica para Brics, China e Rússia
247 - A escalada de tensão no Irã voltou ao centro da disputa geopolítica e, na avaliação do jornalista Marco Fernandes, pode definir os rumos da multipolaridade nos próximos anos. Correspondente do Brasil de Fato em Moscou, ele descreve um cenário em que a pressão externa combina instrumentos econômicos, instabilidade informacional e operações de desestabilização, com impactos diretos sobre a arquitetura de cooperação entre países do Sul Global.
A análise foi apresentada por Marco Fernandes em entrevista à TV 247, na qual o jornalista detalhou por que considera Teerã um ponto de inflexão para o Brics e para a construção de rotas alternativas de comércio e energia.
“O Irã já tá sendo atacado”, afirma Marco
Logo no início do diálogo, o correspondente rejeitou a ideia de que o país esteja apenas sob risco de agressão futura e cravou: “o Irã já está sendo atacado”. Para ele, a forma de ataque não precisa, necessariamente, repetir o modelo de uma invasão aberta — e tende a variar conforme o custo político e militar para os atores externos.
Marco também retomou efeitos de um conflito recente citado na conversa, apontando que a ofensiva externa teria produzido um movimento de coesão interna: “muita gente que era muito crítica ao governo (…) passaram a apoiar o governo depois dos ataques”. Na mesma linha, concluiu que a derrubada do governo iraniano por força convencional se tornou uma aposta menos viável: “não dá para derrubar o regime do Irã com o ataque externo”.
Internet cortada e dificuldade para checar números
Questionado sobre como acompanhar os acontecimentos vivendo na Rússia, Marco disse que mantém contatos no país e tenta falar com pessoas que conhece há anos, mas ressaltou obstáculos recentes. “A comunicação também está muito difícil”, afirmou, atribuindo parte do apagão à interrupção da internet, apresentada por ele como “uma medida de defesa”.
Ele relatou ainda um episódio que ilustra as limitações do momento: “a ironia da história que eu só tô conseguindo falar contigo graças ao Musk, porque eu tenho Starlink aqui em casa”, contou, ao mencionar conversa com um estrangeiro que vive no Irã e conseguiu se conectar apesar das restrições.
Sem cravar números, o jornalista ponderou que a verificação de mortes e responsabilidades em episódios violentos é sempre delicada em cenários de disputa narrativa. Ainda assim, afirmou ver registros de protestos com perfil armado e coordenado: “manifestantes muito violentos, armados (…) nitidamente são pessoas profissionais”.
Venezuela e os limites de resposta do Brics
Ao abordar a crise na Venezuela, Marco afirmou que a indignação latino-americana é compreensível, mas defendeu que o episódio precisa ser lido dentro de um padrão histórico de intervenções em outras regiões. “Na verdade o que tá acontecendo com a gente (…) é o arroz com feijão diário”, disse, ao citar precedentes em países do Oriente Médio e do Norte da África.
Sobre cobranças de que China e Rússia “não fizeram nada”, ele respondeu com uma leitura realista da política internacional: “geopolítica, a gente sabe que os países não têm amigos, os países têm interesses”. E foi direto ao tratar da postura chinesa: “A China não vai comprar guerra com ninguém”. Ainda assim, indicou que ferramentas econômicas podem ter mais efeito do que expectativas de reação militar imediata, citando o peso das terras raras no equilíbrio de poder.
O “snapback” e o impacto econômico no gatilho dos protestos
Um dos trechos mais detalhados da entrevista foi a explicação do mecanismo de sanções conhecido como “snapback”, associado ao acordo nuclear. Marco descreveu o modelo como uma armadilha diplomática que torna mais difícil impedir o retorno das punições multilaterais e, por consequência, mais complexo contornar bloqueios com rotas alternativas de comércio.
Ele afirmou que o endurecimento das sanções via ONU afetou a confiança interna e acelerou a crise cambial, citando uma desvalorização expressiva em poucos meses: “entre 50 ou até 60%”. Na síntese do correspondente, o efeito foi devastador: “a sanções da ONU, esse Snapback, foi uma espécie de um quase um golpe de misericórdia na economia iraniana”.
Ao mesmo tempo, ele sustentou que o início dos protestos tem base econômica concreta, antes de ser disputado por interesses externos: “você começa com uma demanda legítima”; depois, segundo ele, “é o momento (…) dos oportunistas estrangeiros”.
“O futuro da multipolaridade” em jogo
Na avaliação mais abrangente, Marco Fernandes elevou o peso estratégico do momento e afirmou que o que ocorrer em Teerã tende a repercutir muito além das fronteiras iranianas: “está se jogando no Irã nas próximas semanas e meses o futuro da multipolaridade nos próximos 5, 10 anos”. Em seguida, completou: “uma derrota do Irã (…) seria uma derrota para todo o sul global”.
Ele também se disse surpreso com a falta de posicionamentos mais firmes do Brics: “me estranha que os Brics ainda não tenham feito nenhum tipo de pelo menos manifestação”, observando, na mesma conversa, as ambiguidades relacionadas à presidência indiana do bloco em 2026.
Irã como eixo energético e logístico
Ao justificar por que considera o Irã ainda mais estratégico do que a Venezuela, Marco enumerou fatores de energia, comércio e infraestrutura. Entre eles, mencionou estimativas sobre a relevância do petróleo iraniano para a China e sublinhou o horizonte de longo prazo da parceria: “são 25 anos”, disse, ao comentar o acordo de fornecimento de energia e investimentos em infraestrutura.
O jornalista também destacou a centralidade do país para rotas terrestres e corredores logísticos que buscam reduzir a dependência de passagens marítimas sob influência ocidental, apontando o Irã como peça-chave nessa reorganização. Na visão dele, esses elementos ajudam a explicar por que a disputa em torno de Teerã tende a ser intensa — e decisiva.


