HOME > Entrevistas

“O Brasil não é um país pobre, é um país bloqueado”, diz Aldo Rebelo

Pré-candidato pelo Democracia Cristã critica governo Lula, defende retomada do desenvolvimentismo e propõe medidas de soberania para proteger a Amazônia

Aldo Rebelo (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

247 - O ex-ministro Aldo Rebelo, pré-candidato à Presidência da República pelo partido Democracia Cristã, apresentou nesta terça-feira (4) as linhas centrais de seu projeto político para o Brasil, com duras críticas ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e à atual conjuntura nacional, que ele classificou como marcada por paralisia econômica, esgotamento institucional e polarização social.

A declaração foi feita durante entrevista gravada ao jornalista Leonardo Attuch, exibida pela TV 247, na qual Rebelo afirmou que o país vive uma “encruzilhada histórica” e que decidiu disputar o Planalto para apresentar uma alternativa baseada na retomada do desenvolvimento, no fortalecimento do Estado nacional e na revalorização de temas como segurança pública e defesa.  

Ao explicar como amadureceu sua pré-candidatura, Rebelo relatou ter sido convidado pela direção da Democracia Cristã, legenda que descreveu como “antiga no Brasil” e sem tutela de grupos econômicos. Segundo ele, o partido não dispõe de fundo partidário nem bancada, mas oferece liberdade política para a formulação de uma plataforma.

“Você terá toda a liberdade. Não há nenhuma condicionante. As suas ideias, a sua plataforma, a sua pregação será completamente livre no Democracia Cristã”, disse Rebelo, ao reproduzir a proposta feita pelo presidente do partido, João Caldas.

“Tenho o dever de apresentar minhas visões de Brasil”, afirma ex-ministro

Durante a entrevista, Rebelo destacou sua trajetória política como base para defender sua entrada na corrida presidencial. Ele lembrou que já foi presidente da Câmara dos Deputados e ocupou quatro ministérios, além de ter sido secretário da Casa Civil em São Paulo.

“Eu vi o Brasil de muitos ângulos. Conheço o Brasil como poucos brasileiros conhecem e conheço fisicamente, não conheço da literatura”, afirmou.

Segundo ele, a candidatura nasce em um cenário de instabilidade global e incertezas geopolíticas, com o país internamente “dividido” e “desorientado”. Para Rebelo, o atual ambiente de polarização entre o presidente Lula e as forças do bolsonarismo tende ao desgaste.

“Não há dúvida de que é uma tarefa difícil, porque o país está polarizado, mas em compensação a polarização também vai alcançando um grau de exaustão”, declarou.

Críticas aos governos Lula e Bolsonaro e defesa de um “outro caminho”

Rebelo afirmou que a polarização se alimenta de frustrações acumuladas e que os últimos governos não entregaram resultados estruturais para o país. Ele citou diretamente os períodos presidenciais de Jair Bolsonaro e do presidente Lula.

“Nós tivemos um governo do presidente Bolsonaro. O país não mudou significativamente nesse período. Nós estamos no terceiro mandato do presidente Lula e mesmo neste mandato atual, ele também não conseguiu reverter tendências degradantes da economia, tendências degradantes da vida social do Brasil”, disse.

Ao apresentar sua proposta, o pré-candidato afirmou que pretende defender uma agenda de pacificação e recuperação do desenvolvimento nacional.

“O país precisa de pacificação, o país precisa de revalorizar agendas que nós negligenciamos, como a da segurança pública, a da defesa nacional”, afirmou.

Rebelo questiona dados de desemprego e fala em dependência de programas sociais

Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica de Aldo Rebelo ao uso de indicadores de desemprego como argumento de sucesso econômico. Ele questionou a metodologia do IBGE e afirmou que parte expressiva da população depende de transferências de renda.

“Só é desempregado aquele cidadão que procura emprego. Se ele está desempregado e não procura emprego, ele não entra na estatística”, afirmou.

Rebelo sustentou que o país vive um crescimento instável, que chamou de “voo de galinha”, e citou o Amapá como exemplo de estado travado por restrições institucionais e ambientais.

“Portanto, o desemprego é uma estatística aparente. O que conta, na verdade, no Brasil é a dificuldade de retomar o crescimento”, declarou.

“O Estado brasileiro perdeu o poder de decisão”, diz ao atacar órgãos e ONGs

Ao comentar entraves ao desenvolvimento, Rebelo criticou diretamente o que chamou de “privatização” do poder decisório do Estado, mencionando ONGs e instituições como o Ministério Público e o IBAMA. Para ele, essas estruturas teriam bloqueado projetos estratégicos na Amazônia.

“Isso é uma tragédia no governo do presidente Lula. (...) O Estado brasileiro perdeu o poder de decisão”, afirmou.

Ele também criticou o contingenciamento de verbas em áreas como Educação, Saúde e Ciência, dizendo que o problema seria falta de arrecadação por ausência de atividade econômica. Rebelo mencionou ainda a atuação do Supremo Tribunal Federal ao impedir cortes no orçamento do Ministério Público Federal.

“Por que é que as universidades estão parando? Por que é que as Forças Armadas não têm dinheiro para operar os seus navios e os seus aviões? (...) Porque não há dinheiro. E não há dinheiro porque não há atividade econômica”, declarou.

Críticas à agenda identitária e à política ambiental do governo Lula

Aldo Rebelo também atacou o que chamou de “agenda identitária” dentro do governo do presidente Lula, classificando-a como “anômala” e incompatível com a formação social brasileira.

“O Brasil é um país mestiço. A mestiçagem é a marca da nossa identidade nacional. Não é a divisão do país em duas raças importadas”, afirmou.

Rebelo ainda disse que essa agenda teria impacto direto sobre a Amazônia, dificultando o avanço de projetos energéticos, minerais e agropecuários. Ele citou nominalmente as ministras Marina Silva e Sônia Guajajara, criticando o fato de ambas viverem e atuarem politicamente em São Paulo.

“A Marina diz que a Amazônia é um paraíso, mas ela não escolheu o paraíso para viver. Ela veio para São Paulo”, declarou.

Amazônia e indicadores sociais: “No paraíso das águas, ninguém tem água tratada”

Ao ser questionado sobre a baixa popularidade do governo Lula na região Norte, Rebelo apontou indicadores sociais e citou dados que atribuiu ao IBGE, mencionando o município de Uiramutã como o de maior analfabetismo no país, apesar de ter maioria indígena.

“O IBGE acabou de publicar a lista dos municípios com os maiores índices de analfabetismo no Brasil. Sabe qual é o município que lidera? O município de Uiramutan”, afirmou.

Ele reforçou críticas às ONGs internacionais, alegando que há captação bilionária de recursos sem impacto real nas condições de vida das populações locais.

“Protegem o quê? protege o próprio bolso, as suas passagens de primeira classe, os seus hotéis de cinco estrelas”, afirmou.

COP 30 é chamada de “fiasco da diplomacia brasileira”

Em outro trecho da entrevista, Aldo Rebelo avaliou a COP 30, realizada no Brasil, como um fracasso diplomático e disse que o evento teria sido ignorado por grandes lideranças internacionais.

“A COP 30 foi um dos grandes fiascos da diplomacia ornamental que foi adotada no Brasil”, declarou.

Segundo ele, potências como Estados Unidos, China, Rússia e Índia não deram relevância ao encontro, pois o foco global estaria voltado para segurança alimentar, energética e disputa por minerais estratégicos.

“A agenda do mundo é segurança alimentar, segurança energética e segurança de minérios raros”, disse.

“O Brasil tem a tabela periódica toda na Amazônia”, afirma Rebelo

Rebelo defendeu a exploração de terras raras e criticou o que considera uma paralisia institucional que impede o país de transformar riqueza natural em desenvolvimento econômico. Ele relatou conversa em comissão da Câmara na qual ouviu que o Brasil poderia ter a maior reserva mundial desses minérios.

“O Brasil pode fazer um fundo soberano de terras raras. O Brasil pode emitir títulos lastreados em terras raras”, afirmou.

Em uma das declarações mais fortes da entrevista, Rebelo sintetizou sua visão:

“O problema do Brasil não é a pobreza. O Brasil não é um país pobre. O Brasil é um país bloqueado, vetado institucionalmente.”

Defesa nacional e Amazônia: “O Brasil corre risco de perder a Amazônia”

No campo geopolítico, Aldo Rebelo defende reforço militar na região amazônica e disse que o Brasil precisa se preparar para ameaças externas, citando a presença de forças ligadas à França na Guiana Francesa e as tensões envolvendo a Venezuela.

“O Brasil corre o risco de perder a Amazônia? Mas é claro que corre”, afirmou.

Ele mencionou declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre o petróleo venezuelano e defendeu medidas como a instalação de base naval no Norte, criação de esquadra regional, ampliação de pelotões de fronteira e reconversão de Fernando de Noronha em base militar.

“Nós temos que multiplicar os pelotões de fronteira, nós temos que multiplicar os tiros de guerra entre as populações indígenas”, disse.

Relação com militares e impeachment de Dilma: “Foi uma articulação civil”

Ao comentar sua relação com as Forças Armadas, Rebelo afirmou que sua proximidade com o setor militar trouxe benefícios aos governos Lula e Dilma Rousseff e disse que a crise envolvendo os militares hoje é resultado de acusações contraditórias.

“As Forças Armadas não se prestam ao serviço de apoiar ou desapoiar golpe de estado. Cumpre uma função mais elevada”, declarou.

Sobre o impeachment de Dilma, Rebelo negou responsabilidade militar e afirmou que o processo foi conduzido por forças civis e econômicas. Ele também disse que setores do PT teriam apoiado o afastamento.

“O golpe foi uma articulação civil e do poder econômico. (...) Setores do PT também apoiaram o impedimento da presidente Dilma”, afirmou.

Política externa: “O lado do Brasil é o lado do Brasil”

Rebelo defendeu uma política externa independente, citando exemplos históricos como José Bonifácio, Dom Pedro I, Dom Pedro II, Getúlio Vargas, Jânio Quadros e Ernesto Geisel. Ele afirmou que o Brasil não deve se alinhar automaticamente nem aos Estados Unidos nem à China.

“Qual é o lado do Brasil? O lado do Brasil é o lado do Brasil”, afirmou.

Vice e alianças: nome de Fábio Wajngarten foi citado

Ao ser questionado sobre especulações envolvendo o nome de Fábio Wajngarten como possível vice, Rebelo afirmou que o assunto foi sugerido por aliados, mas que ainda não há definição. Ele disse ter conversado com Wajngarten, que teria recebido a proposta com entusiasmo.

“Foi um nome que foi apresentado, como outros nomes também são apresentados. Você sabe que vice é uma discussão que se deixa geralmente para o desfecho do processo de composição”, afirmou.

“Anistiaria todo mundo”, diz sobre Jair Bolsonaro

Em um dos trechos mais polêmicos, Rebelo afirmou que, se eleito, concederia anistia ampla aos envolvidos em conflitos políticos recentes, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro. Ele justificou a proposta como instrumento de pacificação nacional.

“Anistiaria todo mundo, não tenha dúvida nenhuma”, afirmou.

E completou:

“A anistia (...) é para pacificar o país,  para o país cuidar do que é mais relevante e deixar o menos relevante para trás.”

Críticas finais ao governo Lula: “Considero uma tragédia para o Brasil”

Ao final da entrevista, Rebelo reafirmou que mantém respeito pessoal por Lula e Dilma, mas sustentou críticas duras ao atual governo. Segundo ele, a dependência de programas sociais e a falta de infraestrutura e investimentos estratégicos seriam sinais de estagnação.

“A minha crítica ao presidente Lula não é pessoal, é uma crítica ao governo dele que eu considero uma tragédia para o Brasil”, declarou.

A entrevista terminou com comentários sobre Copa do Mundo, infraestrutura e política esportiva, além de críticas ao que Rebelo chamou de politização da FIFA. O ex-ministro encerrou defendendo que o Brasil precisa voltar a planejar o futuro com soberania, integração territorial e retomada do crescimento econômico.

Artigos Relacionados