"O sistema quer fragilizar tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro", diz Rui Costa Pimenta
Presidente do PCO afirma que a classe dominante ainda busca uma alternativa eleitoral
247 – O presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, afirmou, em entrevista concedida ao jornalista Leonardo Attuch na TV 247 nesta sexta-feira (26), que a classe dominante brasileira continua empenhada em enfraquecer simultaneamente as candidaturas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de Flávio Bolsonaro. Na avaliação do dirigente, a estratégia teria como objetivo abrir espaço para uma candidatura de terceira via nas eleições presidenciais.
Ao longo da entrevista, Rui analisou a conjuntura política nacional e internacional, comentou os conflitos no Oriente Médio, a situação política da América Latina, a disputa interna no bolsonarismo, o cenário eleitoral brasileiro, o caso Banco Master, a regulamentação dos trabalhadores por aplicativos, o sistema eleitoral e até a participação da seleção brasileira na Copa do Mundo.
Tentativa de construir uma terceira via
Segundo Rui Costa Pimenta, a cobertura da grande imprensa sobre os recentes acontecimentos políticos revela uma estratégia para desgastar os dois principais polos da disputa eleitoral.
"O objetivo é fragilizar os dois", afirmou.
Na avaliação do presidente do PCO, a crise provocada pelo vídeo divulgado por Michelle Bolsonaro criticando Flávio Bolsonaro foi amplificada pelos grandes veículos justamente para enfraquecer a candidatura do senador.
Ao mesmo tempo, segundo ele, os ataques dirigidos ao governo Lula seguem a mesma lógica.
"Eles estão ainda tentando abrir o espaço para a terceira via."
Para Rui, a burguesia brasileira ainda não abandonou o projeto de construir uma candidatura alternativa.
"A pior coisa que tem no Brasil é a chamada terceira via. A terceira via é o sistema, é o imperialismo, são os grandes monopólios, tipo Rede Globo."
Segundo ele, embora diversos nomes tenham sido cogitados ao longo dos últimos meses, nenhum conseguiu se consolidar.
"Até agora não conseguiram achar os três candidatos que seriam da terceira via na eleição."
Michelle Bolsonaro e a disputa no bolsonarismo
Rui afirmou ter se surpreendido com a postura adotada por Michelle Bolsonaro.
"Eu fiquei um pouco surpreso. Acho que a atitude da Michelle Bolsonaro é uma atitude meio suicida."
Segundo ele, ao atacar Flávio Bolsonaro durante uma campanha já em andamento, Michelle acabou confrontando o núcleo histórico do bolsonarismo.
"Ela fez um ataque duro contra a candidatura do Flávio Bolsonaro no meio da campanha."
Na avaliação do dirigente, ainda que Michelle eventualmente tenha pretensões eleitorais, a estratégia adotada tende a produzir efeito contrário.
"Ela pode querer ser candidata, mas desse jeito ela não vai ser candidata."
Rui também relativizou a possibilidade de o episódio provocar uma debandada do eleitorado bolsonarista.
"Eu não acredito que o público bolsonarista vai mudar de ideia por causa do que a Michelle Bolsonaro falou."
Segundo ele, o eleitor conservador é menos suscetível a esse tipo de conflito interno.
Lula continua competitivo
Apesar das dificuldades enfrentadas pelo governo em alguns episódios recentes, Rui considera improvável que Lula deixe de disputar a Presidência.
"Está difícil você tirar um dos candidatos do páreo."
Ele acredita, porém, que novos desgastes poderão surgir durante a campanha.
"A bomba não foi desmontada ainda. Vai ter mais coisa aí."
Mesmo assim, avalia que nenhum dos principais candidatos foi efetivamente inviabilizado.
Oriente Médio e Donald Trump
Ao comentar a situação envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel, Rui afirmou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, procura apenas encontrar uma saída política para um conflito que considera malsucedido.
"O Trump está procurando uma maneira de encerrar a fatura. A operação foi um desastre."
Segundo ele, o presidente norte-americano sofre forte pressão de setores ligados ao lobby sionista e de integrantes de seu próprio governo.
"Eu acho que a pressão do sionismo, do lobby sionista, é muito forte."
Na avaliação do dirigente, as movimentações diplomáticas recentes representam muito mais uma tentativa de administrar pressões internas do que uma mudança efetiva da política externa norte-americana.
América Latina e avanço da direita
Ao analisar os resultados eleitorais recentes na Colômbia e no Peru, Rui afirmou enxergar uma tendência preocupante.
"Essa vitória de Keiko Fujimori marca uma tendência muito negativa."
Para ele, entretanto, existe um limite para a implementação de políticas neoliberais devido à reação popular observada em diversos países da região.
"Nós vimos que na Bolívia a política neoliberal resultou numa reação muito forte da população. No Chile há reação popular. Na Argentina há reação popular."
Sobre o Peru, Rui demonstrou maior preocupação.
"O Peru é pior."
Segundo ele, o fujimorismo representa uma estrutura política consolidada e historicamente associada a um regime autoritário.
"O Fujimori implantou praticamente um governo militar."
Ele também afirmou acreditar que os novos governos latino-americanos poderão sofrer pressão para reduzir suas relações com a China.
"Vai haver pressão do imperialismo para diminuir essas relações com a China."
Banco Master e sistema financeiro
Durante a entrevista, Rui também comentou as investigações envolvendo o Banco Master.
Na avaliação dele, o sistema financeiro decidiu reagir porque percebeu riscos ao próprio equilíbrio interno.
"Os bancos querem desmontar essa engrenagem que se formou aí."
Segundo Rui, Daniel Vorcaro passou a representar uma ameaça para o status quo do sistema bancário.
"Ele ameaçou o status quo."
O dirigente também afirmou que casos de corrupção devem ser analisados dentro da estrutura do regime político brasileiro.
"O regime político brasileiro é tão corrupto que a gente não pode nunca achar que uma pessoa que foi pega por corrupção seja a verdadeira causa do problema."
Trabalhadores por aplicativo
Ao comentar as políticas voltadas aos trabalhadores por aplicativo, Rui afirmou que o governo Lula acertou ao priorizar crédito para aquisição de veículos em vez de insistir apenas na regulamentação da atividade.
Ele argumentou que muitos trabalhadores deixaram de enxergar vantagens concretas no sistema tradicional de proteção social.
"Quando você propõe regulamentar uma carreira, o cidadão olha assim: 'Vou ter que pagar imposto e não vou receber nada em troca'."
Segundo ele, isso decorre do enfraquecimento das políticas públicas.
"Todo mundo sabe que a aposentadoria é uma miséria."
Na mesma linha, Rui defendeu investimentos robustos para recuperar o Sistema Único de Saúde.
"Precisaria de muito investimento para reerguer o SUS."
Apostas, mercado financeiro e moralismo
Outro tema abordado foi o debate sobre as apostas esportivas.
Rui criticou o que considera uma campanha moralista contra as bets.
"O brasileiro gosta de apostar."
Ele também comparou o mercado financeiro aos jogos de azar.
"A Bolsa de Valores é um cassino legalizado."
Na avaliação do dirigente, sempre que campanhas midiáticas muito intensas surgem sobre determinados temas, é necessário investigar os interesses econômicos envolvidos.
"Tem que ser muito desconfiado. Sempre tem alguma coisa por trás."
Sistema eleitoral
Ao final da entrevista, Rui voltou a criticar o funcionamento do sistema político brasileiro.
Segundo ele, as eleições são fortemente condicionadas pelo poder econômico.
"O PL tem 800 milhões só do fundo eleitoral."
Ele também afirmou que a estrutura eleitoral favorece grupos tradicionais e reduz o grau de representatividade.
"A eleição é um jogo multimilionário."
Para Rui Costa Pimenta, uma reforma profunda seria necessária para democratizar efetivamente o sistema político brasileiro.
"Teria que haver uma completa mudança no sistema eleitoral brasileiro."



