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Paulo Nogueira Batista Jr. vê guerra contra o Irã como ponto de virada global

Economista afirma que confronto pode redefinir a geopolítica mundial, pressionar os Estados Unidos e alterar o equilíbrio no Oriente Médio

Paulo Nogueira Batista Júnior (Foto: Reprodução Youtube)

247 - O economista Paulo Nogueira Batista Jr. afirmou que a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã abriu um novo ciclo de tensão internacional com potencial para reconfigurar a ordem global. Em entrevista, ele sustentou que Washington entrou no conflito sem estratégia definida, subestimou a capacidade de reação iraniana e pode enfrentar consequências políticas, militares e econômicas caso o confronto se prolongue.

A análise foi feita durante entrevista ao programa apresentado por Mario Vitor Santos e Regina Zappa, na TV 247. Ao longo da conversa, Paulo Nogueira Batista Jr. defendeu que o Irã não deve ser tratado como um ator secundário no tabuleiro regional e avaliou que a atual escalada pode marcar um “turning point” geopolítico.

Segundo o economista, o governo dos Estados Unidos “entrou numa fria” ao aderir à ofensiva contra o Irã. Na avaliação dele, a Casa Branca atua sem objetivos claros e acabou sendo arrastada pela estratégia israelense. “Me parece evidente que o governo americano entrou numa fria, não tem estratégia, não tem um plano para enfrentar esse governo, não teria objetivos claros nessa agressão contra o Irã”, disse.

Paulo Nogueira Batista Jr. também afirmou que o ataque precisa ser lido dentro de uma disputa mais ampla por hegemonia no Oriente Médio e no sistema internacional. Para ele, Israel busca consolidar supremacia regional, enquanto os Estados Unidos tentam reagir ao próprio declínio político, econômico e militar. “O que está acontecendo agora é uma coisa que já aconteceu antes. As potências imperiais em declínio tentam reverter esse declínio com ataques, com uso da força bruta”, declarou.

Na entrevista, o economista afirmou que o Irã tem condições de impor custos elevados aos adversários e rejeitou a ideia de que a guerra termine rapidamente. “Não vai acabar rapidamente”, afirmou. Em seguida, reforçou: “O Irã tem capacidade de resistência”. Para ele, a resposta militar iraniana mostra que o país vinha se preparando para esse tipo de confronto há décadas e dispõe de instrumentos para atingir Israel, bases americanas e estruturas estratégicas em países do Golfo.

Ao comentar os ataques na região, Paulo Nogueira Batista Jr. disse que o Irã vem reagindo “à altura” e argumentou que Teerã está se defendendo de uma agressão. “O Irã está se defendendo de uma agressão não provocada”, afirmou. Na leitura dele, a presença de bases americanas em países do Golfo transforma esses territórios em alvos dentro da dinâmica da guerra, o que amplia a vulnerabilidade regional e acentua o impacto sobre o mercado de energia.

O economista também destacou os efeitos políticos internos para Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. Segundo ele, o conflito não mobiliza apoio espontâneo da sociedade americana por ser visto como uma guerra em defesa de Israel, e não como um interesse direto da população dos EUA. “O americano médio não ganha nada com isso, é o contrário”, disse. Ainda de acordo com sua análise, o prolongamento da ofensiva pode desgastar o governo e comprometer o cenário eleitoral nos Estados Unidos.

Um dos principais pontos levantados durante a entrevista foi o possível impacto estrutural da guerra sobre a posição global dos Estados Unidos. Para Paulo Nogueira Batista Jr., uma derrota formal ou mesmo uma “não vitória” já seria suficiente para enfraquecer o prestígio americano. “Uma derrota nessa guerra ou uma não vitória, como se diz, vai abalar profundamente o prestígio e a influência dos Estados Unidos”, afirmou.

Questionado sobre o que está em jogo no conflito, ele concordou que o embate pode redefinir os rumos da humanidade. “Essa guerra tem sido decisiva, vai afetar sim os rumos geopolíticos mundiais”, disse. Segundo o economista, o confronto ultrapassa a dimensão regional e é acompanhado de perto por outros polos de poder, como China e Rússia, além de ser observado com atenção pelos países do Sul Global.

Paulo Nogueira Batista Jr. também relacionou a escalada no Oriente Médio ao desgaste de estruturas tradicionais de poder no Ocidente. Ao comentar a atuação dos lobbies nos Estados Unidos, afirmou que o Estado americano está submetido a pressões múltiplas de grupos econômicos e políticos. “O estado americano está feudalizado pela ação de lobbies, pela ação de bilionários”, declarou. Na mesma linha, disse que a influência pró-Israel interfere na política externa americana e aprofunda contradições internas.

Outro ponto central da entrevista foi a avaliação de que o assassinato do líder supremo iraniano, aiatolá Ali Khamenei, teria fortalecido a coesão interna do país. Para o economista, a medida foi um erro estratégico dos adversários. “A decisão de assassinar o Khamenei foi uma decisão estúpida”, afirmou. Na visão dele, a morte do líder produziu o fechamento de fileiras em torno do governo iraniano e reduziu espaço para dissidências em meio à crise.

Ao falar sobre a cobertura ocidental do Irã, Paulo Nogueira Batista Jr. criticou o que classificou como distorções recorrentes na mídia tradicional. “Há uma lavagem cerebral organizada”, disse, ao afirmar que a população brasileira, americana e europeia recebe informações que não corresponderiam à complexidade da sociedade iraniana. Ele citou especificamente a participação feminina em universidades e na ciência para contestar leituras simplificadas sobre o país.

Na parte final da entrevista, o economista voltou os olhos para o Brasil e argumentou que o país precisa fortalecer sua capacidade de dissuasão diante do novo ambiente internacional. “Temos que ter poder de dissuasão”, afirmou, ao comentar declaração recente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para ele, a nova conjuntura exige mais atenção à soberania nacional e à capacidade de resposta do Estado brasileiro.

Paulo Nogueira Batista Jr. também alertou para os riscos de pressão crescente dos Estados Unidos sobre a América Latina e mencionou medidas que, na visão dele, podem servir de pretexto para ampliação da interferência americana na região. Ao tratar do cenário político brasileiro, afirmou que a eleição de 2026 será decisiva para o futuro do país. “É muito importante que a reeleição de Lula seja garantida”, disse, ao comparar o atual governo com o que chamou de risco de retorno da extrema direita.

Ao encerrar a entrevista, o economista resumiu sua leitura do momento internacional como uma fase de inflexão histórica, marcada por incerteza e por mudanças profundas na correlação de forças. “Nós estamos vivendo um momento que tem o seu lado positivo, que é uma derrota do projeto israelense-americano no Oriente Médio. Uma derrota ou uma não vitória”, afirmou. Para ele, os desdobramentos da guerra ainda são imprevisíveis, mas já apontam para um cenário internacional mais tenso, instável e decisivo para o futuro da geopolítica mundial.

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