Pedro Serrano vê risco de blindagem ao bolsonarismo em delação de Vorcaro
Jurista diz que possível acordo de Daniel Vorcaro pode repetir métodos da Lava-Jato e cobra reação imediata do governo contra vazamentos
247 - O jurista Pedro Serrano afirmou que a eventual delação de Daniel Vorcaro pode ser conduzida de forma seletiva e acabar beneficiando o bolsonarismo, ao mesmo tempo em que atinge adversários políticos e setores ligados ao governo federal. Na avaliação dele, o método que vem sendo adotado no caso já apresenta sinais preocupantes e remete ao padrão de atuação visto na Operação Lava-Jato.
A análise foi feita em entrevista ao programa Boa Noite, da TV 247. Ao longo da conversa, Serrano sustentou que o problema não está no instrumento da delação em si, mas no modo como ele pode ser manipulado politicamente, com vazamentos, exposição midiática e construção de narrativas sem lastro probatório suficiente.
Segundo o advogado, a lógica correta da colaboração premiada é a troca de provas ou de caminhos concretos para obtê-las por eventual redução de pena. Para ele, esse desenho é desvirtuado quando a delação se transforma em um relato amplo, difuso e difícil de verificar. “A lógica da delação é uma negociação, onde o delator entrega provas ou caminho para obtenção de provas e no final o juiz julga se ele realmente colaborou com a obtenção de provas”, afirmou.
Serrano disse que esse modelo foi deformado na Lava-Jato, quando delações, em sua visão, passaram a reunir acusações amplas, trechos sem comprovação e até afirmações falsas. “O sujeito entregava 20% de verdade, 80% ou de condutas não provadas ou de mentiras mesmo”, declarou. Na mesma linha, ele citou o caso do ex-ministro Antonio Palocci para sustentar que acusações sem prova podem produzir forte impacto político sem gerar punição posterior a quem delatou.
Ao comentar o caso envolvendo Vorcaro, o jurista demonstrou pessimismo e disse enxergar uma tendência de repetição desse padrão. “Eu acho que há uma tendência de proteger o bolsonarismo, envolver algumas pessoas do centrão para dar um tom de verdade (...) e envolver gente do PT, governo por razão política”, disse. Para Serrano, o alerta principal está menos no nome de quem já aparece nas narrativas e mais nos personagens que, segundo ele, estariam sendo deixados de fora.
Na entrevista, ele criticou a divulgação de um quadro exibido pela TV Globo sobre o caso e questionou a ausência de nomes que, em sua avaliação, deveriam estar sob maior escrutínio. “A questão não é quem está na imagem, é quem deixou de estar na imagem”, resumiu. Em seguida, citou agentes do Banco Central, figuras do mercado financeiro e nomes ligados ao ciclo político do bolsonarismo como exemplos de personagens que, segundo ele, precisam ser investigados com o mesmo rigor.
Serrano também afirmou que o crescimento do banco ocorreu “na época do bolsonarismo” e disse ter a impressão de que a futura delação pode ser dirigida para poupar esse campo político. “Eu tenho uma certa impressão que eles vão proteger o bolsonarismo”, declarou. Em seu entendimento, isso ocorreria por meio de uma apuração seletiva, capaz de produzir desgaste público contra o governo do presidente Lula, ao mesmo tempo em que preservaria atores mais identificados com a direita.
Um dos eixos centrais da crítica do advogado foi o vazamento de informações sigilosas. Para ele, esse tipo de prática não apenas compromete o devido processo legal, como também fere o próprio interesse da investigação. “Vaza criminosamente informações da investigação, mesmo isso sendo contra o interesse da própria investigação”, afirmou. Ainda segundo Serrano, esse mecanismo cria uma articulação entre agentes públicos que repassam dados e setores da imprensa que reproduzem o material sem a devida apuração.
Na entrevista, o jurista foi enfático ao defender providências administrativas imediatas dentro da Polícia Federal. “A direção da PF tem que investigar isso imediatamente e a menor suspeita tem que afastar os delegados e agentes que estão envolvidos nisso”, disse. Para ele, o governo precisa reagir dentro dos marcos da legalidade, sem abuso, mas com firmeza institucional. “É hora do governo ser governo”, afirmou.
Serrano argumentou que a resposta política e institucional precisa ocorrer antes que o desgaste se consolide. “O governo, o PT, os governos progressistas têm que parar com essa história de só se defender do ataque quando o castelo tá sendo atacado. Tem que defender a fronteira”, declarou. Na leitura dele, a passividade diante dos primeiros sinais de uma ofensiva abre espaço para abusos, falsas acusações e repetição de práticas que marcaram a Lava-Jato.
Ao tratar especificamente da delação de Vorcaro, o advogado sustentou que a estratégia correta de investigação seria ouvir primeiro personagens subordinados ou periféricos na estrutura, e deixar o principal investigado por último. “Você começa com a delação de quem tá embaixo, deixa o cara de cima para o fim”, afirmou. Segundo ele, buscar inicialmente a colaboração do personagem central indicaria, em vez de rigor investigativo, uma tentativa de produzir efeitos políticos.
Na mesma linha, Serrano afirmou que, se o objetivo real fosse apurar crimes e responsabilizar todos os envolvidos, seria mais adequado colher primeiro depoimentos de sócios, operadores e outros agentes do sistema financeiro e do aparato estatal eventualmente ligados ao caso. “Essa estratégia de pegar a primeira delação do Vorcaro já é para manipular politicamente, já não é sério em termos de investigação”, declarou.
Apesar das críticas, ele ressaltou que não é contrário, em tese, ao instituto da delação premiada. “Eu não é que eu sou contra o instituto, eu sou uma das poucas pessoas do nosso meio que não é contra o instituto da delação em si”, disse. O problema, segundo Serrano, está no uso distorcido do mecanismo, quando ele deixa de servir à produção de prova e passa a operar como instrumento de pressão, vazamento e disputa de poder.
O jurista também avaliou o papel do ministro André Mendonça na supervisão do caso. Embora tenha feito ressalvas a uma decisão específica envolvendo a estrutura da Polícia Federal, afirmou que, até o momento, vê acertos na atuação do ministro. “Até agora as decisões dele foram muito mais pro acerto que para o erro”, disse. Ainda assim, ponderou que, se os vazamentos continuarem, o dano político poderá ser produzido antes mesmo de qualquer homologação formal da delação.
Na parte final da entrevista, Serrano voltou a insistir que a maior ameaça está na construção de uma narrativa seletiva, capaz de misturar culpados e inocentes e converter a investigação criminal em arma política. “Você politiza o processo crime, você politiza a investigação”, afirmou. Para ele, esse movimento já começou e exige resposta imediata de governo, instituições e sociedade para evitar que se repita um roteiro que, em sua visão, já trouxe graves consequências ao país.


