Rui Costa Pimenta alerta que ação de Trump pode abrir caminho para interferência dos EUA na eleição brasileira
Dirigente do PCO afirma que classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas ameaça a soberania nacional e favorece Flávio Bolsonaro
247 – O presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, afirmou que a decisão do governo de Donald Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas é “muito negativa” e pode abrir caminho para uma intervenção dos Estados Unidos no Brasil sob o pretexto de combate ao crime organizado. Em entrevista à TV 247, nesta sexta-feira (29), Rui disse que a medida não tem valor legal no Brasil, mas representa um risco político grave. “Isso aí é uma medida dos Estados Unidos. O valor disso no Brasil é até o momento nenhum. Mas é muito negativo porque pode dar lugar à intervenção do imperialismo norte-americano no Brasil”, afirmou.
Segundo Rui, os Estados Unidos “não têm o direito” de classificar organizações brasileiras e tentar transformar essa decisão em parâmetro internacional. Para ele, o Brasil não deve reconhecer a medida “absolutamente”.
“Não são organizações terroristas em nenhum sentido da palavra, são organizações criminosas”, disse. Rui argumentou que a mudança de classificação pode servir para ampliar a repressão contra a população pobre, sem enfrentar as causas reais do crime organizado. “Vai aumentar o encarceramento das pessoas pobres e não vai servir para nada para combater o crime organizado”, afirmou.
Risco à soberania brasileira
Rui Costa Pimenta avaliou que a decisão de Trump pode ser usada politicamente pela extrema direita brasileira, especialmente pela família Bolsonaro. Para ele, a medida “marca um ponto para o Flávio Bolsonaro na eleição”.
“Se essa medida foi tomada por influência dos Bolsonaros, eu acho que isso mostra que o Trump está ativo na eleição contra o Lula e a favor do Flávio Bolsonaro”, declarou.
O dirigente do PCO também criticou a possibilidade de o Brasil firmar acordos com os Estados Unidos para tratar do crime organizado. “O Lula falou que ele queria um acordo com o Trump para combater o crime organizado. Acho isso um erro gravíssimo. Não faz sentido nenhum”, afirmou.
Para Rui, a cooperação com Washington nessa área pode fragilizar a soberania nacional. “Com essas e com outras nós vamos tendo a nossa soberania demolida”, disse.
Flávio Bolsonaro e o apoio de Trump
Ao comentar a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, Rui avaliou que o senador tenta se apresentar como candidato apoiado por Trump. “A viagem do Flávio Bolsonaro é uma jogada de publicidade. Logicamente ele quer aparecer como sendo apoiado pelo Trump”, afirmou.
Segundo ele, o gesto pode ter impacto sobre parte do eleitorado bolsonarista. “Ele é bem relacionado com o presidente dos Estados Unidos e tal, mas é mais um elemento da campanha eleitoral”, disse.
Rui afirmou ainda que a direita brasileira vê positivamente a interferência dos Estados Unidos. “Eles têm uma ideia intervencionista. A direita brasileira apoiou e faz propaganda pela intervenção na Venezuela, em Cuba”, declarou.
Para ele, a visão bolsonarista sobre os EUA é distorcida. “Eles veem o imperialismo como se fosse uma força, tipo uma história em quadrinhos, projetada na política. Os Estados Unidos estão aí para salvar os povos dos maus governos, sendo que o mau governo está nos Estados Unidos em primeiro lugar”, afirmou.
Forças Armadas e influência dos EUA
Rui também criticou a relação histórica entre o comando das Forças Armadas brasileiras e os Estados Unidos. “Se dependesse do comando das Forças Armadas, o Brasil estaria totalmente integrado aos Estados Unidos, ao imperialismo”, disse.
Segundo ele, há uma ligação estreita entre setores militares brasileiros e Washington. “Esse pessoal tem uma relação muito estreita já desde hoje com o imperialismo, particularmente os Estados Unidos”, afirmou.
Rui lembrou exercícios militares realizados na Amazônia com participação de tropas norte-americanas e defendeu que nenhum governo deveria permitir esse tipo de aproximação. “Eu acho que nenhum governo deveria deixar os norte-americanos chegarem perto da Amazônia”, afirmou.
Bolívia e onda neoliberal na América Latina
Na entrevista, Rui também comentou a situação da Bolívia e criticou a decisão do governo brasileiro de enviar ajuda ao governo de Rodrigo Paz. Para ele, o país vive uma mobilização popular importante contra uma nova onda neoliberal na América Latina.
“A mobilização na Bolívia é muito importante. Nós temos aí um ponto de referência fundamental para todos os povos latino-americanos de como enfrentar a onda neoliberal”, disse.
Rui classificou o governo boliviano como “neoliberal e antipovo” e afirmou ter ficado surpreso com a postura do governo Lula. “Eu sinceramente fiquei muito surpreso com essa atitude do governo. Não consigo nem explicar o que motivou o governo Lula a ter uma atitude como essa”, declarou.
Segundo ele, o imperialismo impulsiona governos de direita “ao estilo Milei” em vários países da região. “Quando Milei foi eleito, a gente já destacou naquele momento que esse tipo de governo não era uma exceção, mas era o tipo de governo que o imperialismo queria”, afirmou.
Críticas à Nova República e à transição democrática
Rui também afirmou que a estrutura do Estado brasileiro manteve elementos centrais da ditadura militar mesmo após a redemocratização. “A estrutura do Estado brasileiro se manteve da ditadura para cá”, disse.
Para ele, a chamada democratização foi conduzida por setores ligados ao antigo regime. “A chamada democratização foi obra de uma parcela do pessoal político da ditadura”, afirmou.
Rui citou o Judiciário, o Congresso e os partidos de centro e direita como herdeiros da estrutura política da ditadura. “Esses partidos todos que tem aí do centrão e da direita são herdeiros da ditadura”, declarou.
Ao comentar o golpe de Estado contra Dilma Rousseff, Rui afirmou que as Forças Armadas continuaram atuando como fator de pressão política. “Em 2016 a gente viu as Forças Armadas pressionando o STF todo para a derrubada do governo eleito democraticamente da Dilma Rousseff”, disse.
Crise internacional e Oriente Médio
Na análise internacional, Rui criticou a política externa dos Estados Unidos e a atuação de Israel na Faixa de Gaza e no Líbano. Para ele, há uma evidente contradição na forma como o Ocidente trata Rússia e Israel.
“A Rússia sofre uma série de sanções, mas Israel não sofre nenhuma sanção. Está realizando um genocídio na Faixa de Gaza. É uma coisa monstruosa”, afirmou.
Rui disse que a política internacional do imperialismo expõe “falsidade” e “hipocrisia”. “Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”, declarou.
Ele também afirmou que Israel atua como instrumento econômico e militar dos Estados Unidos no Oriente Médio. “O Estado de Israel, em grande medida, é uma operação econômica”, disse. “Israel foi construído ali para garantir essa operação econômica, garantir do ponto de vista militar.”
Rui denuncia perseguição judicial
No fim da entrevista, Rui Costa Pimenta comentou investigações contra ele e contra o PCO por acusações de racismo e antissemitismo. Ele classificou os casos como perseguição política.
“Nós fomos indiciados por racismo. Vê se tem cabimento esse indiciamento de racismo”, afirmou. “Segundo o Ministério Público, nós seríamos antissemitas. Quer dizer, eu seria uma pessoa que odeia em geral os judeus. É uma coisa absurda.”
Rui afirmou que sua atuação se limita à análise política. “Eu não fiz nada. Eu fiz o que eu estou fazendo aqui agora, análise política”, disse.
Segundo ele, o PCO enfrenta uma ofensiva judicial. “Nós sofremos 12 processos por racismo. É uma perseguição implacável”, declarou.
Para Rui, as acusações têm relação com críticas políticas ao sionismo. “O Ministério Público Brasileiro está a serviço do lobby sionista. Essa que é a realidade”, afirmou.



