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Shobhan Saxena: "O Irã venceu a agressão e sairá muito forte"

Jornalista indiano analisa guerra no Golfo e afirma que Teerã fortaleceu posição estratégica e política após confronto com EUA e Israel

Bandeiras nacionais iranianas (Foto: Leonardo Attuch)

247 - O jornalista indiano Shobhan Saxena afirmou que o Irã saiu fortalecido do confronto recente com Estados Unidos e Israel, avaliando que o país não apenas resistiu à ofensiva militar como também consolidou sua posição estratégica no cenário internacional. A declaração foi feita durante entrevista ao programa Mario Vitor & Regina Zappa, da TV 247.

Na conversa, Saxena sustentou que, apesar das perdas humanas e materiais, Teerã conseguiu frustrar os principais objetivos traçados por Washington no início da ofensiva. Segundo ele, a percepção predominante em países da Ásia é de que o Irã obteve uma vitória política e estratégica no conflito. “Eu acho que essa guerra contra Irã não deu sucesso para Estados Unidos, para Israel e, na minha opinião, o Irã ganhou essa guerra”, afirmou.

O jornalista destacou que uma das metas centrais anunciadas pelos Estados Unidos — a mudança de governo iraniano — não foi alcançada. “Quando Donald Trump lançou essa guerra, ele falou sobre objetivos. Primeiro, mudança de regime, que não aconteceu”, disse. Ele também apontou o fracasso de outras metas militares. “Trump falou que iria destruir o sistema de mísseis balísticos do Irã, o que também não aconteceu. O Irã ainda tem milhares de mísseis, foguetes e drones”, completou.

Outro ponto enfatizado por Saxena foi a permanência da estrutura nuclear iraniana. De acordo com ele, o programa de enriquecimento de urânio segue ativo. “Ele disse que iria destruir o programa de urânio do Irã. Isso também não aconteceu. O sistema continua funcionando e está seguro”, declarou.

Além de resistir militarmente, o Irã, segundo o jornalista, ampliou sua influência geopolítica na região do Golfo Pérsico. Ele citou o controle do estreito de Ormuz como um dos fatores decisivos para essa mudança. “Antes da guerra, o Irã não controlava o estreito de Ormuz. Agora controla. Isso muda completamente a situação estratégica”, afirmou.

Saxena também mencionou ataques iranianos a estruturas militares dos Estados Unidos na região como elemento relevante para a reconfiguração do equilíbrio de forças. “Os Estados Unidos tinham mais de 15 bases militares na região. Mais de 13 foram destruídas pelo Irã”, disse, ressaltando que esse cenário alterou significativamente a presença militar norte-americana no Golfo.

Na avaliação do jornalista, o desempenho iraniano surpreendeu tanto Washington quanto Tel Aviv, que esperavam uma vitória rápida. “Eles pensaram que o Irã cairia em 24 ou 48 horas. Isso não aconteceu. O país resistiu e continua forte”, afirmou.

O analista também destacou que o Irã venceu a disputa de narrativa no cenário internacional, especialmente nas redes sociais. “O Irã não venceu só a guerra militar, venceu a guerra de narrativas. Hoje há mais curiosidade e até admiração em vários países”, disse.

Segundo Saxena, há ainda uma mudança perceptível na imagem internacional do país. “A imagem do Irã mudou completamente. Agora é visto como um país forte, que enfrentou dois grandes poderes e resistiu”, afirmou.

O jornalista afirmou que negociações diplomáticas estão em curso e podem resultar em um acordo entre Estados Unidos e Irã nas próximas semanas. “Há grande chance de um acordo final. Eu acredito que isso pode acontecer em poucos dias ou semanas”, disse.

Apesar do otimismo, ele alertou para a possibilidade de as tensões persistirem, especialmente em função da posição de Israel. “Israel não quer um acordo entre Estados Unidos e Irã. Vai tentar atrapalhar”, avaliou.

Ao comentar o impacto regional, Saxena afirmou que o Irã tende a emergir como uma potência ainda mais relevante no Oriente Médio — ou, como prefere denominar, na Ásia Ocidental. “Se houver acordo, o Irã vai crescer como grande poder na região. Não tenho dúvida disso”, declarou.

O jornalista também ressaltou os laços históricos e culturais entre o Irã e países do sul da Ásia, como Índia e Paquistão, destacando a influência persa na língua, na cultura e nos costumes da região. Para ele, esse fator contribui para a empatia crescente em relação ao país.

Por fim, Saxena defendeu uma leitura mais equilibrada sobre a sociedade iraniana, criticando o que considera distorções recorrentes na cobertura internacional. “Tem muita propaganda contra o Irã. É um país complexo, com uma sociedade ativa e uma cultura de milhares de anos”, afirmou.

A análise apresentada reforça a avaliação de que o conflito não apenas redesenhou o equilíbrio militar no Golfo Pérsico, mas também alterou a percepção global sobre o papel do Irã no cenário internacional, abrindo caminho para uma nova fase de negociações e rearranjos geopolíticos.

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