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Varoufakis vê “imperialismo sem disfarce” e liga ofensiva a Trump

Ex-ministro grego diz que Donald Trump usa ações externas para reforçar poder interno e revela a fragilidade da União Europeia

Yanis Varoufakis (Foto: REUTERS/Gary Cameron)

247 - O economista Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia e fundador do movimento DiEM 25, analisou em entrevista os desdobramentos recentes envolvendo a Venezuela e as implicações geopolíticas do que descreve como uma mudança de estilo — e não de substância — na forma como Washington exerce poder no mundo.

A conversa, veiculada em um vídeo no YouTube, reúne avaliações de Varoufakis sobre o que ele interpreta como uma escalada conduzida por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, com impactos diretos sobre o direito internacional, o papel da Europa e o rearranjo de esferas de influência globais. 

Ao ser questionado sobre as motivações por trás da ação norte-americana, Varoufakis disse enxergar “muitas camadas”. Ele citou a dimensão energética e lembrou que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, já afirmou em diferentes ocasiões que o petróleo venezuelano “é dele” — comentário que, segundo Varoufakis, remete ao período em que a exploração foi nacionalizada. Ainda assim, para o ex-ministro, o fator decisivo estaria menos na política externa e mais no cálculo interno: preservar a unidade do próprio campo político.

“Se você colocar uma arma na minha cabeça e me pedir um motivo, é porque isso é o que Donald Trump entende ser sua estratégia doméstica”, afirmou Varoufakis, ao sustentar que o principal risco para Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, seria um “cisma” dentro do movimento MAGA. Na leitura do economista, o presidente buscaria manter coeso um bloco que inclui correntes populistas, remanescentes neoconservadores e “senhores da tecnologia”, citando nominalmente Elon Musk como figura de peso no ecossistema político-econômico que orbita a direita republicana.

Varoufakis também descreveu um padrão de “ruído” permanente, associando-o ao conceito de “flooding the zone”, expressão que ele atribui a Steve Bannon. “Ele está criando muito barulho. Estamos todos falando da Venezuela. Não estamos falando de Gaza”, disse, ao alegar que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, deslocaria sucessivamente o foco do debate público para diferentes frentes — como Groenlândia e Canadá, mencionadas na entrevista como possíveis próximos capítulos do que ele chama de estratégia.

“Putinização do Ocidente” e a erosão do direito internacional

Um dos trechos centrais da entrevista é a comparação feita por Varoufakis entre a atuação de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e a postura do presidente russo Vladimir Putin. Ao comentar o que entende como violação aberta de normas internacionais, Varoufakis afirmou que a novidade não seria o desrespeito em si — que, segundo ele, tem precedentes históricos —, mas o abandono do esforço de “racionalizar” ou “embelezar” essas ações com uma linguagem liberal.

“Putin simplesmente disse: ‘Eu quero a Ucrânia’. E foi lá tomar. E é exatamente isso que Trump está fazendo”, declarou. Em seguida, acrescentou: “Vou ser honesto: vou pegar porque eu quero. Só isso”, ao explicar o que considera a lógica “transacional” do atual ocupante da Casa Branca.

O economista ainda avaliou que essa postura, ao naturalizar a ideia de força sobre regras, acabaria servindo como “presente” para outras potências. “É uma legitimação incrível de qualquer movimento potencial da China para tomar Taiwan”, disse, ao mesmo tempo em que afirmou esperar que isso não ocorra.

Europa entre “hipocrisia, impotência e incompetência”

Varoufakis reservou críticas duras à União Europeia, que, segundo ele, projeta uma combinação de “hipocrisia, impotência e incompetência”. Ele citou episódios em que governos europeus condenam ações de adversários geopolíticos, mas adotam — na visão dele — padrões distintos em outras crises, o que enfraqueceria a autoridade moral do bloco.

“Nunca esperei ver a Europa ser tão humilhada de forma tão auto imposta”, afirmou, descrevendo líderes europeus como figuras que se comportam “como crianças” diante da Casa Branca. Em uma passagem particularmente contundente, ele mencionou o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, dizendo que ele teria chamado Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, de “daddy”, e completou: “‘Daddy’s right’”, ao citar o que considera um símbolo de subordinação política.

Varoufakis também relatou repercussões domésticas na Grécia após declarações do primeiro-ministro do país, que, segundo ele, teria relativizado o papel do direito internacional ao comentar a Venezuela. Para o ex-ministro, esse tipo de fala enfraquece argumentos históricos de defesa baseados em normas e tratados, sobretudo em contextos de tensão regional.

China, energia e a “divisão do mundo” em zonas de influência

Ao tratar da relação entre a Venezuela e a China, Varoufakis rejeitou a ideia de que a ofensiva teria como alvo principal Pequim. “De forma alguma”, disse. Para ele, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, estaria menos interessado em intensificar tensões com a China e mais em negociar uma acomodação que preserve áreas de domínio.

“Estou bem em você ter sua esfera de influência… eu vou ter controle completo sobre as Américas”, afirmou, resumindo a lógica que atribui à Casa Branca, antes de completar: “Vamos dividir o mundo em dois”. Varoufakis criticou essa perspectiva, mas ponderou que, sob esse arranjo, poderia diminuir o risco de confronto militar direto entre Washington e Pequim em áreas como o Mar do Sul da China.

No debate energético, ele sustentou que a China estaria acelerando a transição para renováveis e reduziria a dependência de combustíveis fósseis em alguns anos, enquanto Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, seguiria na direção oposta — citando o lema “drill baby drill” e chamando a orientação de “desastre para o planeta”.

Petróleo, indústria e a política interna norte-americana

Varoufakis também levantou um ponto político-econômico sobre os impactos de uma eventual expansão de petróleo venezuelano no mercado internacional. Ele observou que, em sua leitura, a base eleitoral de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, estaria mais conectada a produtores menores do setor de fracking do que às grandes multinacionais.

“Imagine que amanhã Chevron e ExxonMobil coloquem as mãos no petróleo venezuelano… o preço do petróleo vai cair precipitadamente”, disse, argumentando que isso poderia pressionar empresas menores e, por consequência, atingir um segmento importante do apoio interno ao governo.

Nesse contexto, Varoufakis afirmou ter uma hipótese — reconhecendo que pode estar errado — para explicar por que Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, não adotaria um caminho de mudança de regime com uma liderança oposicionista como vitrine. “Eu acho que ele não quer dar à Chevron e à ExxonMobil todas as reservas da Venezuela”, disse, sugerindo que o presidente priorizaria manter seu “próprio povo” econômico-político alinhado.

Ao final, Varoufakis insistiu na tese de continuidade histórica: “O que Trump está fazendo é uma mudança de estilo, não de substância”, afirmando que intervenções, derrubadas e imposições externas já marcaram diferentes períodos, mas que agora a retórica abandona, de forma mais explícita, o verniz liberal que antes buscava justificar essas ações.

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