Wolff diz que IA expõe contradições do capitalismo
Em entrevista, Richard Wolff diz que tecnologia pode servir ao lucro ou reduzir a jornada de trabalho
247 - O economista norte-americano Richard Wolff afirmou que a inteligência artificial expõe de forma direta as contradições do capitalismo, ao colocar em disputa dois caminhos opostos: o aumento dos lucros empresariais por meio de demissões ou a redução da jornada de trabalho sem perda de emprego. As informações são do canal India and Global Left, no YouTube.
Na entrevista, Wolff analisou a crise política e econômica dos Estados Unidos, a distância crescente entre a população trabalhadora e as elites, o desgaste do governo de Donald Trump, a reorganização da esquerda e o papel da tecnologia no futuro do trabalho.
Segundo o professor, os Estados Unidos vivem um momento de forte ruptura entre o governo e a maioria da população. Ele afirmou que nunca viu uma distância tão grande entre os cidadãos comuns e a classe dominante norte-americana.
“Temos aqui nos Estados Unidos um governo que foi reduzido a cerca de um quarto, talvez 20% da população, que ainda apoia este governo”, disse Wolff.
Crise política e desgaste do governo Trump
Wolff afirmou que, desde a posse de Donald Trump em seu segundo mandato, em janeiro de 2025, o apoio ao presidente caiu de forma contínua nas pesquisas de opinião. Para o economista, parte desse desgaste ocorreu porque Trump havia se apresentado como crítico das chamadas “guerras sem fim”, mas acabou associado a uma nova escalada militar contra o Irã em parceria com Israel.
“O senhor Trump, tendo concorrido ao cargo contra as ‘guerras sem fim’ dos Estados Unidos, foi visto por seus apoiadores como alguém que traiu suas esperanças”, afirmou.
O economista disse que a oposição à guerra contra o Irã surgiu desde o início entre a maioria dos norte-americanos, diferentemente do que teria ocorrido em conflitos anteriores, como Vietnã, Iraque e Afeganistão, nos quais o apoio inicial teria diminuído apenas com o passar do tempo.
“Desta vez, a maioria dos norte-americanos, desde os primeiros dias da guerra, foi contra esta guerra”, declarou.
Wolff também relacionou o desgaste de Trump à política dos Estados Unidos em relação a Israel. Ele afirmou que o apoio norte-americano ao governo israelense vem sofrendo uma mudança importante, especialmente diante da atuação de Israel em Gaza, no Líbano e no conflito com o Irã.
“A simpatia pelos palestinos agora é maior do que o apoio a Israel”, disse o economista.
Desigualdade aprofunda crise social nos EUA
Outro ponto central da entrevista foi a situação econômica da população trabalhadora. Wolff afirmou que entre 70% e 80% dos norte-americanos enfrentam dificuldades relevantes para manter o padrão de vida.
Segundo ele, o custo de vida aumenta, os empregos se tornam mais inseguros e a renda de muitos trabalhadores perde força. Ao mesmo tempo, a parcela mais rica da sociedade continua se beneficiando da valorização do mercado financeiro.
“Para a massa das pessoas, a economia não está indo bem. E então você tem um aprofundamento da desigualdade e uma amargura correspondente, uma raiva e uma dureza na política norte-americana”, afirmou.
O economista disse que a desigualdade crescente se traduz em instabilidade política. Para Wolff, até antigos apoiadores de Trump passaram a demonstrar arrependimento público, em meio a promessas não cumpridas e crises políticas acumuladas.
IA pode aumentar lucros ou reduzir jornadas
A entrevista dedicou atenção especial à inteligência artificial e ao impacto da tecnologia sobre o trabalho. Wolff criticou o que chamou de exagero em torno de cada nova inovação tecnológica, lembrando que fenômenos semelhantes ocorreram com a máquina a vapor, a eletricidade, a química moderna, os computadores e a internet.
Ele afirmou que há um debate intenso na imprensa financeira dos Estados Unidos sobre se a IA cumprirá ou não as promessas feitas por seus defensores.
“Para cada artigo que afirma que ela substituirá milhões de trabalhadores, há um artigo dizendo que pensamos isso, mas neste setor ou naquele setor compramos IA, demitimos 10 mil trabalhadores e agora recontratamos 5 mil deles porque a IA cria novos conjuntos de problemas”, afirmou.
Wolff também advertiu que empresas podem usar a IA como justificativa pública para demissões motivadas por outras razões. Segundo ele, atribuir cortes apenas à tecnologia desvia a atenção da responsabilidade das corporações.
“Há essa tendência de explorar a oportunidade que a IA oferece para fazer parecer que o avanço da tecnologia é o que faz as pessoas perderem seus empregos, em vez de corporações tomando diferentes tipos de decisões por conta própria”, disse.
Para o economista, a questão decisiva não é a IA em si, mas a forma como ela é incorporada dentro do capitalismo. Ele apresentou um exemplo didático: se uma padaria com 100 trabalhadores passa a produzir a mesma quantidade com 50 empregados graças à IA, o empresário pode demitir metade da força de trabalho e embolsar como lucro a parte da receita antes destinada aos salários.
“Ele instala a tecnologia para ganhar. Ele vence com um lucro extra e 50 trabalhadores perdem seus empregos”, declarou.
Em seguida, Wolff contrapôs esse cenário a uma empresa controlada coletivamente pelos trabalhadores. Nesse caso, segundo ele, a mesma tecnologia poderia ser usada para manter todos os empregos e reduzir a jornada de oito para quatro horas.
“Eles não demitiriam ninguém. Todos manteriam seus empregos, mas a jornada de trabalho passaria de oito horas para quatro horas”, afirmou.
“Você teria usado a IA para melhorar a vida de todos, não apenas o lucro do capitalista”, acrescentou.
Sindicatos, cooperativas e poder operário
Wolff afirmou que o avanço da IA e a precarização do trabalho podem recolocar os sindicatos no centro da organização social. Para ele, depois de décadas de declínio da sindicalização e da militância trabalhista nos Estados Unidos, há sinais de retomada.
“Estamos experimentando um ressurgimento do nosso movimento trabalhista depois de 50 anos de declínio”, disse.
O economista avaliou que, se os sindicatos não forem capazes de responder às demandas dos trabalhadores, outras formas de organização podem ganhar força, especialmente as cooperativas de trabalhadores.
“Se o sindicato não puder ou não quiser fazer pelos trabalhadores aquilo de que eles precisam, então o sindicato não é mais a instituição que os trabalhadores deveriam apoiar”, afirmou.
Wolff citou como exemplo uma proposta defendida pelo ex-líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn, segundo a qual empresas que pretendam fechar, vender suas operações, deixar o país ou abrir capital deveriam antes oferecer aos trabalhadores o direito de assumir o negócio.
Nesse modelo, o Estado poderia fornecer empréstimos baratos para que os trabalhadores comprassem e administrassem as empresas. Para Wolff, isso criaria uma economia com um setor capitalista e um setor socialista, permitindo comparação prática entre os dois modelos.
Democracia econômica no centro do socialismo
Na parte final da entrevista, Wolff discutiu o sentido mais amplo do socialismo. Para ele, o problema central do capitalismo é permitir que uma pequena minoria determine o que é produzido, como é produzido, onde é produzido e como a riqueza gerada é distribuída.
“O capitalismo exclui estruturalmente o empregado dessas decisões. Elas são dadas ao empregador”, afirmou.
Segundo Wolff, uma sociedade que se define como democrática não pode aceitar que a democracia pare na porta das empresas. Para ele, a democratização da economia é parte essencial de qualquer projeto socialista contemporâneo.
“A democracia não para em uma fronteira chamada empresa. A democracia tem que estar dentro da empresa, assim como ao redor dela”, disse.
O economista afirmou ainda que o interesse por ideias socialistas cresce entre os mais jovens nos Estados Unidos. Ele citou o fortalecimento de organizações como os Socialistas Democráticos da América e avaliou que uma nova geração de lideranças sindicais é mais aberta à esquerda do que a anterior, marcada pela Guerra Fria.
“A abertura ao pensamento marxista é maior do que jamais foi neste país durante a minha vida”, afirmou Wolff.
Para o professor, a internet também deve ser vista de forma contraditória. Embora possa atomizar indivíduos e reduzir formas tradicionais de organização, ela permite uma circulação de ideias e debates políticos que antes eram muito mais lentos e restritos.
“Vejo a internet permitindo um nível e uma intensidade de discussão política, informação e educação que não eram possíveis antes”, disse.
Wolff concluiu a entrevista em tom de expectativa sobre possíveis mudanças históricas. Ao citar uma frase atribuída a um líder político, afirmou: “Durante décadas, nada parece acontecer e então, em poucas semanas, décadas acontecem”.


