Robô de tênis de mesa da Sony derrota humanos e marca novo salto da inteligência artificial
Sistema desenvolvido no Japão atinge nível profissional em esporte físico e levanta debate sobre impacto da automação em atividades humanas complexas
247 – Um robô autônomo de pingue-pongue chamado Ace alcançou um marco inédito ao competir e derrotar jogadores humanos de alto nível em Tóquio, segundo reportagem da Reuters. O feito representa um avanço significativo da inteligência artificial aplicada ao mundo físico, aproximando máquinas de capacidades antes consideradas exclusivamente humanas.
Desenvolvido pela divisão de pesquisa em inteligência artificial da Sony, o Ace é o primeiro robô a atingir desempenho de nível especialista em um esporte competitivo que exige decisões rápidas, precisão e adaptação constante.
Avanço tecnológico em ambiente físico
Diferentemente de sistemas de IA que já superaram humanos em jogos digitais, como xadrez e Go, o desafio no tênis de mesa envolve variáveis físicas complexas. Segundo Peter Dürr, diretor da Sony AI Zurich e líder do projeto, essa diferença é crucial.
"Ao contrário dos jogos de computador, onde sistemas de IA anteriores superam especialistas humanos, esportes físicos e em tempo real, como o tênis de mesa, continuam sendo um grande desafio em aberto devido à necessidade de interações rápidas, precisas e adversariais próximas a obstáculos e no limite do tempo de reação humano", afirmou.
O Ace utiliza percepção de alta velocidade, controle baseado em IA e um sistema robótico de última geração. Sua arquitetura inclui nove câmeras sincronizadas e três sistemas de visão, capazes de rastrear a bola com extrema precisão.
"Isso é rápido o suficiente para capturar movimentos que seriam um borrão para o olho humano", explicou Dürr.
Desempenho contra jogadores de elite
Em partidas realizadas em abril de 2025, o robô venceu três de cinco jogos contra atletas de nível elite e perdeu duas partidas contra profissionais. Desde então, evoluiu: venceu jogadores profissionais em dezembro de 2025 e novamente no mês anterior à publicação do estudo.
As partidas seguem as regras da Federação Internacional de Tênis de Mesa e são arbitradas oficialmente, o que reforça a legitimidade dos resultados.
Reações dos atletas humanos
A jogadora profissional Mayuka Taira, derrotada pelo robô, destacou a dificuldade de enfrentá-lo:
"Seus pontos fortes são que é muito difícil de prever e não demonstra emoção", disse.
"Como você não consegue ler suas reações, é impossível perceber que tipo de jogada ele não gosta ou tem dificuldade, e isso torna ainda mais difícil jogar contra ele", acrescentou.
Já o atleta Rui Takenaka apontou nuances que ainda permitem vantagem humana em certas situações:
"Quando se tratava do meu saque, se eu usasse um saque com rotação complexa, o Ace também devolvia a bola com rotação complexa, o que dificultava para mim. Mas quando usei um saque simples — o que chamamos de knuckle serve — o Ace devolveu uma bola mais simples. Isso facilitou meu ataque no terceiro golpe, e acho que foi a principal razão pela qual consegui vencer".
Implicações e futuro da robótica
O objetivo do projeto vai além do esporte. Segundo Dürr, trata-se de compreender como robôs podem perceber, planejar e agir com velocidade e precisão semelhantes às humanas em ambientes dinâmicos.
"O sucesso do Ace, com seu sistema de percepção e algoritmo de controle baseado em aprendizado, sugere que técnicas semelhantes podem ser aplicadas a outras áreas que exigem controle rápido em tempo real e interação humana — como manufatura e robótica de serviços, além de aplicações em esportes, entretenimento e domínios físicos críticos para a segurança", afirmou.
Apesar dos avanços, o próprio pesquisador reconhece limitações:
"O Ace tem uma capacidade sobre-humana de ler o giro das bolas e um tempo de reação sobre-humano. Como ele aprende a jogar não observando humanos, mas sendo treinado em simulação, também reage de forma diferente dos jogadores humanos e cria situações surpreendentes", disse.
"Ao mesmo tempo, atletas humanos profissionais são muito bons em se adaptar ao adversário e encontrar fraquezas, que é uma área em que estamos trabalhando", completou.
O avanço ocorre em um contexto mais amplo de aceleração da robótica global. Em outro exemplo recente, robôs superaram corredores humanos em uma meia maratona realizada em Pequim, indicando que a competição entre humanos e máquinas já não se limita ao ambiente digital.


