Japão é cobrado pela China após novas ameaças terroristas contra embaixada em Tóquio
Chancelaria chinesa aponta avanço da extrema direita, falhas no controle das Forças de Autodefesa e risco à paz regional
247 – A China voltou a cobrar do Japão uma resposta firme diante da escalada de ameaças e ataques contra sua embaixada em Tóquio. Em declaração divulgada nesta sexta-feira, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Guo Jiakun, exigiu que o governo japonês “reflita, corrija seus erros, conduza uma investigação completa, adote medidas concretas de retificação e apresente explicações plenas sobre o incidente”. As informações foram publicadas pelo Global Times.
A manifestação ocorreu após uma nova ameaça terrorista contra a Embaixada da China no Japão, apenas uma semana depois de um episódio de invasão. Segundo o relato citado pela chancelaria chinesa, um homem que se apresentou como reservista das Forças de Autodefesa do Japão divulgou um vídeo online afirmando ter instalado uma bomba remota de longo alcance contra a missão diplomática. Ao mesmo tempo, Pequim afirma que também houve aumento expressivo de incidentes discriminatórios contra cidadãos chineses em território japonês.
Escalada de intimidação preocupa Pequim
Ao comentar o caso, Guo Jiakun afirmou que os episódios recentes não são isolados, mas parte de um cenário mais amplo de hostilidade. Segundo ele, “nos últimos anos, o assédio e as provocações contra a instituição diplomática da China no Japão continuaram sem cessar”, acrescentando que uma série de “incidentes graves e maliciosos” ocorreu recentemente.
Entre eles, o porta-voz destacou o caso de um militar da ativa das Forças de Autodefesa que invadiu a embaixada portando uma faca. Para Pequim, a repetição desses episódios revela um quadro alarmante dentro da sociedade japonesa e das próprias estruturas estatais.
Guo declarou que, “ocorrendo um após o outro, esses incidentes são graves por sua natureza e altamente danosos por seu impacto, expondo uma série de problemas profundamente enraizados atualmente existentes no Japão, incluindo o avanço desenfreado do pensamento e das forças de direita, e a supressão de vozes objetivas e racionais”.
China relaciona crise a temas históricos e a Taiwan
A diplomacia chinesa também vinculou a deterioração do ambiente político no Japão às posições adotadas por Tóquio em temas considerados centrais por Pequim, como a memória histórica da agressão japonesa na Ásia e a questão de Taiwan.
Segundo Guo Jiakun, “os efeitos nocivos das políticas erradas do governo japonês sobre grandes questões centrais relacionadas às relações China-Japão, incluindo a história e a questão de Taiwan, permanecem severos”. Na mesma declaração, ele afirmou que a educação histórica adequada é “seriamente insuficiente”, que visões históricas distorcidas estão amplamente disseminadas e que a política de segurança do Japão está se deslocando em direção “mais ofensiva, expansionista e perigosa”.
A fala reforça uma linha já conhecida da política externa chinesa, que acusa setores do establishment japonês de reabilitar referências militaristas e de abandonar compromissos pacifistas adotados após a Segunda Guerra Mundial.
Falhas nas Forças de Autodefesa entram no centro da crítica
Outro ponto central da reação chinesa foi a cobrança sobre o controle exercido pelo Estado japonês sobre suas Forças de Autodefesa. Para Guo, os fatos recentes levantam dúvidas sérias sobre a capacidade do Japão de impedir novas ameaças e de enfrentar as causas profundas do problema.
Ele afirmou que “a incapacidade do Japão de administrar e controlar adequadamente as Forças de Autodefesa, bem como a fraca supervisão interna e educação dentro da corporação, levantam a questão de como o Japão pode resolver fundamentalmente o problema e erradicar as condições sociais que estão por trás dele — algo sobre o qual as pessoas sensatas no Japão deveriam refletir seriamente”.
A declaração tem peso diplomático relevante porque desloca a discussão do campo criminal para o político e institucional. Em vez de tratar as ameaças apenas como ações individuais, Pequim sugere que há uma falha estrutural no ambiente político japonês, marcada pela radicalização de setores nacionalistas e por deficiências no controle sobre agentes armados.
Alerta sobre neomilitarismo e instabilidade regional
A parte mais dura da manifestação de Guo Jiakun foi o alerta sobre o que ele chamou de ressurgimento do neonmilitarismo. Na visão chinesa, o problema ultrapassa a segurança da embaixada e passa a representar ameaça direta à estabilidade do Leste Asiático.
O porta-voz advertiu que, “se tais casos forem deixados de lado, ou se a atenção for desviada e o certo e o errado forem embaralhados, a situação apenas se deteriorará ainda mais, com consequências ainda mais graves que acabarão prejudicando mais japoneses”.
Em seguida, fez a acusação mais contundente da nota: “O neonmilitarismo emergente tornou-se um perigo real, e também ameaçará a paz e a estabilidade regionais”. Por isso, reiterou: “Instamos mais uma vez o lado japonês a refletir, corrigir seus erros, conduzir uma investigação completa, adotar medidas concretas de retificação e apresentar explicações plenas sobre o incidente”.
Tensão diplomática em momento delicado
A nova cobrança de Pequim aprofunda um ambiente já marcado por tensões entre China e Japão. As divergências sobre Taiwan, a ampliação da cooperação militar japonesa com os Estados Unidos e os debates sobre segurança regional vêm agravando a desconfiança entre os dois países.
Nesse contexto, os ataques e ameaças contra a embaixada chinesa ganham dimensão ainda maior. Para o governo chinês, não se trata apenas de um problema de segurança diplomática, mas de um sintoma de mudanças ideológicas e estratégicas em curso no Japão.
A declaração de Guo Jiakun, ao apontar a expansão de forças de direita e a erosão de visões racionais dentro da sociedade japonesa, indica que Pequim pretende manter pressão pública sobre Tóquio. A exigência chinesa combina pedido de investigação imediata com uma acusação política mais ampla: a de que o Japão precisa enfrentar, sem ambiguidades, os fantasmas de seu passado militarista e os riscos de sua rearticulação no presente.


