Bancos de desenvolvimento podem impulsionar uma nova etapa de crescimento na América Latina
Christian Asinelli defende que instituições como a CAF são fundamentais para financiar infraestrutura e ampliar a autonomia latino-americana
247 – Em um cenário internacional marcado pela fragmentação geopolítica, pelas mudanças climáticas e pela transição para uma ordem multipolar, os bancos de desenvolvimento podem desempenhar um papel decisivo na construção de um novo ciclo de crescimento da América Latina e do Caribe.
Essa é a principal tese do artigo "Os bancos de desenvolvimento na América Latina e no Caribe como catalisadores do crescimento regional", de Christian Asinelli, vice-presidente corporativo de Programação Estratégica do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), publicado na edição nº 40 da revista Tempo do Mundo, lançada nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Brasília.
Segundo o autor, a função dos bancos multilaterais de desenvolvimento vai muito além da concessão de crédito. Instituições como a CAF, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o Banco Mundial e outros organismos regionais atuam como plataformas de coordenação política, produção de conhecimento e fortalecimento da capacidade dos Estados para enfrentar desafios que nenhum país consegue resolver isoladamente.
O estudo sustenta que, diante da reorganização da economia mundial, América Latina e Caribe dispõem de ativos estratégicos — como biodiversidade, água doce, energias renováveis, minerais críticos e produção de alimentos — que podem transformar a região em protagonista do desenvolvimento global, desde que exista capacidade institucional para coordenar investimentos de longo prazo.
A crise do multilateralismo exige novas respostas
O artigo parte da constatação de que a arquitetura financeira internacional construída após a Segunda Guerra Mundial já não responde adequadamente aos desafios do século XXI.
Segundo Asinelli, problemas como mudanças climáticas, desigualdade, pandemias, revolução digital e transição demográfica exigem mecanismos multilaterais mais flexíveis e capazes de coordenar respostas globais.
Ao mesmo tempo, observa o estudo, cresce a multipolaridade internacional, reduzindo a capacidade das instituições criadas em Bretton Woods de atender às necessidades das economias emergentes.
Nesse contexto, os bancos regionais de desenvolvimento ganham importância crescente.
Sua proximidade com os países permite compreender melhor as necessidades locais e formular soluções mais adaptadas às realidades econômicas e sociais da região.
CAF vai além do financiamento
Segundo o autor, a principal transformação da CAF nas últimas décadas foi deixar de ser apenas um banco de crédito para tornar-se um verdadeiro bem público regional.
Além do financiamento de infraestrutura, a instituição atua hoje na produção de conhecimento, capacitação de gestores públicos, fortalecimento institucional, promoção da integração regional e apoio à formulação de políticas públicas.
Essa atuação, afirma Asinelli, permite que os projetos financiados tenham impacto mais duradouro, ao fortalecer também a capacidade dos governos de planejar, executar e avaliar políticas de desenvolvimento.
Para o autor, financiamento sem instituições sólidas dificilmente produz resultados sustentáveis.
Infraestrutura continua sendo prioridade
O estudo destaca que o núcleo histórico da atuação da CAF permanece concentrado na infraestrutura.
Até abril de 2026, a carteira de operações da instituição havia ultrapassado US$ 40 bilhões, financiando projetos em transporte, mobilidade urbana, energia, saneamento, saúde, educação, conectividade digital e infraestrutura logística.
Entre os exemplos citados estão a modernização do Ferrocarril Belgrano Sur e do Gasoduto Néstor Kirchner, na Argentina; a eletrificação do transporte público e a recuperação ferroviária na Colômbia; investimentos em mobilidade urbana e saneamento em Cabo de Santo Agostinho, no Brasil; e a modernização da infraestrutura aeroportuária de El Salvador.
Segundo o artigo, essas obras não representam apenas investimentos físicos, mas instrumentos para integrar territórios, ampliar serviços públicos e estimular o desenvolvimento regional.
Banco verde da América Latina
Outra prioridade destacada pelo estudo é a agenda ambiental.
Desde 2021, a CAF passou a perseguir o objetivo de tornar-se o banco verde da América Latina e do Caribe.
Para isso, promoveu uma capitalização histórica de US$ 7 bilhões e estabeleceu a meta de que 40% de suas operações possuíssem componentes ambientais até 2026.
Segundo Asinelli, esse objetivo foi alcançado antes do prazo previsto.
Atualmente, 43% das operações do banco já incorporam iniciativas relacionadas à sustentabilidade, à adaptação climática e à preservação ambiental.
Conhecimento também é infraestrutura
O artigo introduz um conceito que o autor denomina "infraestrutura institucional".
Trata-se do conjunto de iniciativas voltadas ao fortalecimento das capacidades estatais, da formação de lideranças e da produção de conhecimento para orientar políticas públicas.
Segundo Asinelli, desenvolvimento sustentável exige não apenas recursos financeiros, mas também governos capazes de formular, implementar e avaliar políticas de qualidade.
A CAF investe na elaboração de estudos econômicos, programas de formação, cursos para gestores públicos, produção de indicadores e parcerias com universidades latino-americanas.
O objetivo é fortalecer a capacidade dos Estados de responder aos desafios contemporâneos.
Integração regional permanece estratégica
Outro eixo central do artigo é a integração física da América Latina.
Segundo o autor, a CAF participa historicamente do financiamento de corredores logísticos, obras de conectividade, infraestrutura fronteiriça e projetos de integração regional.
Recentemente, a instituição anunciou investimentos de US$ 10 bilhões em infraestrutura logística voltada à nova geopolítica internacional.
A integração, porém, não se limita às estradas.
Também envolve digitalização do Estado, governo eletrônico, transparência, inovação institucional e cooperação entre os países.
América Latina pode tornar-se região solução
Na parte final do estudo, Asinelli apresenta uma visão otimista sobre o papel da América Latina na nova economia mundial.
Segundo ele, a região concentra mais de 50% da biodiversidade do planeta, mais de 30% das reservas globais de água doce, uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e capacidade para alimentar mais de 1,3 bilhão de pessoas.
Além disso, possui enormes reservas de minerais críticos indispensáveis à transição energética.
Ao mesmo tempo, continua sendo a região mais desigual do planeta, convivendo com profundas disparidades sociais, limitações institucionais e déficits de infraestrutura.
Para o autor, transformar esse enorme potencial em desenvolvimento dependerá da capacidade de combinar investimento público, financiamento multilateral, fortalecimento institucional e integração regional.
O desenvolvimento exige coordenação política
Nas conclusões, Christian Asinelli afirma que os bancos multilaterais não podem ser vistos apenas como instituições financeiras.
Na sua avaliação, eles funcionam como instrumentos permanentes de coordenação política entre os países, permitindo mobilizar recursos, compartilhar conhecimento e construir agendas comuns para enfrentar desafios globais.
O artigo sustenta que o desenvolvimento latino-americano dependerá menos da disponibilidade de recursos naturais — abundantes na região — e mais da capacidade de organizar instituições sólidas, ampliar a cooperação regional e formular estratégias comuns de longo prazo.
Nesse contexto, conclui o autor, bancos de desenvolvimento como a CAF tornam-se peças centrais para transformar as vantagens naturais da América Latina em crescimento econômico, inclusão social e maior autonomia estratégica diante das profundas mudanças da ordem internacional.



