Moedas locais e Pix internacional podem fortalecer a soberania financeira do Mercosul
Marian Salles Gomes Bellamy, Elder Mauricio Souza e Marcela Marquez de Amorim Coutinho Alves defendem integração financeira regional
247 – O aprofundamento da integração financeira no Mercosul, com o uso de moedas locais, modernização dos sistemas de pagamentos e redução da dependência do dólar e da rede Swift, tornou-se um tema estratégico para a soberania regional em meio à transição geopolítica global. Essa é a tese central do artigo “Integração financeira no Mercosul: sistemas de pagamentos em moeda local, inovações tecnológicas e governança”, publicado na edição nº 40 da revista Tempo do Mundo, lançada nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Brasília.
O estudo é assinado por Marian Salles Gomes Bellamy, Elder Mauricio Souza e Marcela Marquez de Amorim Coutinho Alves, todos auditores do Banco Central do Brasil. O artigo ressalva que as opiniões expressas são exclusivamente dos autores e não representam necessariamente a posição institucional das entidades às quais estão vinculados.
Segundo os autores, a arquitetura financeira internacional, estruturada em torno do dólar como moeda dominante e de sistemas de mensageria como a Swift, passou a ser cada vez mais mobilizada em disputas geopolíticas. Esse cenário torna mais urgente a construção de alternativas regionais, especialmente por meio de sistemas de pagamentos em moeda local e de novas tecnologias capazes de tornar transações internacionais mais rápidas, baratas e menos dependentes de intermediários tradicionais.
O dólar como instrumento de poder
O artigo recupera a trajetória histórica do dólar desde Bretton Woods, em 1944, quando a moeda norte-americana passou a ocupar posição central no sistema financeiro internacional. Mesmo após o rompimento da conversibilidade do dólar em ouro, em 1971, a moeda dos Estados Unidos manteve seu papel dominante como meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor nas transações globais.
Para os autores, essa centralidade produz vantagens extraordinárias para os Estados Unidos, permitindo ao país financiar sua dívida em condições privilegiadas e reduzir custos de transação de suas empresas. Ao mesmo tempo, aumenta a vulnerabilidade de economias periféricas, que ficam mais expostas à volatilidade cambial, à necessidade de acumular reservas e às decisões de política monetária tomadas por uma única jurisdição.
O texto destaca que esse arranjo passou a ser questionado com mais força diante do uso crescente de sanções financeiras internacionais. O congelamento de cerca de US$ 300 bilhões em reservas do Banco Central da Rússia após a guerra na Ucrânia e a exclusão de bancos russos da Swift são apontados como exemplos de como instrumentos financeiros podem ser usados como mecanismos de coerção geopolítica.
Swift também enfrenta limites tecnológicos
Além da dimensão política, o artigo aponta limitações operacionais da Swift. Embora seja uma infraestrutura central para a mensageria financeira internacional, a rede depende de bancos correspondentes, tem custos elevados e pode levar de dois a cinco dias úteis para concluir liquidações internacionais.
Segundo os autores, o avanço de tecnologias como blockchain, registros distribuídos, moedas digitais e sistemas de pagamentos instantâneos passou a desafiar a arquitetura tradicional das transações transfronteiriças.
Nesse cenário, países e blocos regionais buscam alternativas que combinem velocidade, menor custo, transparência e maior autonomia.
O Mercosul já tem uma base para avançar
No caso do Mercosul, o artigo destaca o Sistema de Pagamentos em Moeda Local, conhecido como SML. Administrado pelo Banco Central do Brasil em parceria com os bancos centrais da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, o mecanismo permite que exportadores e importadores realizem operações em suas próprias moedas, sem necessidade de contratar dólar em cada transação individual.
O SML permite que empresas brasileiras, argentinas, uruguaias e paraguaias faturem, paguem e recebam em moeda local, reduzindo custos operacionais, simplificando fluxos de pagamento e diminuindo a necessidade de contratos de câmbio.
Apesar disso, o sistema ainda tem limitações relevantes. A liquidação diária entre bancos centrais continua sendo feita em dólares, e as mensagens trafegam pela rede Swift. Ou seja, embora reduza a dependência da moeda norte-americana nas transações individuais, o sistema não elimina completamente a presença do dólar nem a exposição às infraestruturas tradicionais.
Sistema ainda é pouco utilizado
Um dos pontos centrais do artigo é a subutilização do SML. Embora o mecanismo funcione desde 2008 nas operações entre Brasil e Argentina e tenha sido posteriormente ampliado para Uruguai e Paraguai, sua participação no comércio intrabloco ainda é baixa.
Segundo os dados analisados pelos autores, o SML representa, em média, cerca de 5% das transações entre Brasil e Argentina, 3,5% entre Brasil e Uruguai e 2% entre Brasil e Paraguai.
O comércio entre Brasil e Argentina é o mais relevante dentro do sistema. Em 2025, as exportações brasileiras pelo SML para a Argentina somaram cerca de R$ 4,46 bilhões, enquanto as importações ficaram próximas de R$ 10 milhões.
No caso do Uruguai, em 2025, as exportações brasileiras pelo SML chegaram a R$ 612,1 milhões, e as importações, a R$ 73,1 milhões. Já com o Paraguai, o sistema movimentou R$ 1,04 bilhão em exportações brasileiras e R$ 310 milhões em importações no mesmo ano.
Os autores observam que há forte assimetria no uso do mecanismo, com predominância de exportadores brasileiros. No caso argentino, uma possível explicação é a preferência de exportadores locais por receber em dólares, diante da trajetória de depreciação do peso frente à moeda norte-americana.
Por que o SML é pouco usado
O artigo identifica vários fatores que ajudam a explicar a baixa utilização do sistema.
O primeiro é a adesão não obrigatória por parte das instituições financeiras. Mesmo quando aderem ao SML, os bancos podem continuar processando operações pelo modelo tradicional, com contratos de câmbio, spreads e tarifas mais vantajosas para as próprias instituições.
Isso cria um desincentivo para que o sistema seja amplamente oferecido a exportadores e importadores.
Outro obstáculo é a preferência de algumas empresas pelo dólar, seja por razões de proteção cambial, seja pela necessidade de usar a moeda norte-americana em outras transações internacionais.
Há também desafios tecnológicos. O tempo médio de liquidação do SML é de três dias, o sistema funciona em horário comercial e ainda utiliza a Swift para o tráfego das mensagens.
O papel do Pix e dos pagamentos instantâneos
Para os autores, a modernização da integração financeira regional passa necessariamente pelos sistemas de pagamentos instantâneos, conhecidos internacionalmente como fast payment systems.
O Brasil possui uma das experiências mais bem-sucedidas do mundo nesse campo: o Pix. Criado pelo Banco Central, o sistema já é usado por mais de 170 milhões de pessoas físicas, o equivalente a cerca de 80% da população brasileira, e realizou mais de 7 bilhões de transações apenas em janeiro de 2026.
O Pix tornou-se um instrumento de inclusão financeira, redução de custos e aumento da eficiência dos pagamentos domésticos. No entanto, o artigo ressalta que o sistema ainda não foi efetivamente internacionalizado.
Há experiências informais de uso do Pix em estabelecimentos comerciais na Argentina e em operações voltadas ao turismo, mas elas não representam uma verdadeira conexão entre sistemas nacionais de pagamentos instantâneos. Nesses casos, o brasileiro paga em reais, uma instituição privada faz a conversão cambial e o comerciante recebe em pesos. A liquidação entre os países continua ocorrendo por arranjos privados, muitas vezes com uso da Swift e de contas correspondentes.
Para os autores, esse modelo informal é limitado, caro e frágil, pois depende da atuação opcional de instituições financeiras, pode ser afetado por mudanças regulatórias e não resolve a questão da dependência estrutural de dólar e Swift.
Uma integração financeira mais moderna
O artigo aponta experiências internacionais que podem servir de referência ao Mercosul. Na Ásia, já existem conexões entre sistemas de pagamentos instantâneos, como o PromptPay, da Tailândia, e o PayNow, de Singapura. Essas iniciativas reduziram prazos e custos de transferências entre países.
A principal experiência global em desenvolvimento é o Nexus, projeto do Banco de Compensações Internacionais, o BIS, voltado à interoperabilidade entre sistemas nacionais de pagamentos instantâneos.
Segundo o estudo, uma solução regional do Mercosul poderia se conectar a iniciativas desse tipo no futuro, desde que preservasse uma governança adequada e a autonomia dos países participantes.
A governança, nesse ponto, é decisiva. Os autores alertam que a tecnologia, por si só, não garante soberania financeira. Um sistema pode ser rápido e eficiente, mas continuar subordinado a estruturas externas se sua arquitetura institucional não for bem desenhada.
Integração financeira e soberania regional
Nas considerações finais, o artigo afirma que a arquitetura financeira se tornou um elemento estratégico para a soberania das nações em um mundo em transição para uma ordem mais multipolar.
O Mercosul, segundo os autores, está em posição privilegiada porque já possui um acordo de livre-comércio e um sistema de pagamentos em moeda local. No entanto, precisa modernizar esse arranjo com novas tecnologias, maior integração entre sistemas de pagamentos e mecanismos de governança capazes de reduzir vulnerabilidades externas.
O uso de moedas locais, combinado com infraestrutura regional de pagamentos, pode reduzir custos, diminuir a dependência de intermediários tradicionais, facilitar o comércio intrabloco e ampliar a autonomia das políticas econômicas nacionais.
A conclusão do estudo é que a integração financeira do Mercosul deve avançar a partir dos mecanismos já existentes, mas incorporando inovações tecnológicas e regras de governança robustas. O objetivo não é apenas tornar pagamentos mais rápidos, mas fortalecer a soberania financeira regional em um mundo no qual moedas, sistemas de pagamento e redes de mensageria se tornaram instrumentos de poder geopolítico.



