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Esperança como luta concreta: Alysson Mascaro resgata filosofia marxista e critica ilusões do liberalismo

Jurista explica teoria de Ernst Bloch e afirma que transformação social depende da articulação entre desejo, ciência e condições materiais

Alysson Mascaro (Foto: Reprodução Youtube)

247 – O jurista e filósofo Alysson Mascaro aprofundou, em aula publicada no YouTube pela TV 247, uma reflexão crítica sobre o papel da esperança na transformação social, resgatando a obra do pensador marxista alemão Ernst Bloch e criticando tanto o liberalismo quanto setores da própria esquerda. A análise foi feita durante o curso “A esperança, parte 2”, disponível na plataforma, em que Mascaro discute os limites das concepções tradicionais de mudança política e social.

Ao longo da exposição, Mascaro apresenta uma leitura densa e sistemática da teoria da esperança, defendendo que ela não pode ser reduzida a desejo abstrato nem a condições objetivas isoladas. Segundo ele, a verdadeira transformação depende daquilo que Bloch chamou de “utopia concreta”.

A centralidade da esperança na luta social

Mascaro explica que Ernst Bloch, autor de O princípio esperança, foi um dos principais filósofos do século XX a tratar do tema como motor da ação política. Para o pensador alemão, a esperança é inseparável da luta social.

 “Se nós lutamos é porque não nos conformamos com algo. E se lutamos é porque esperamos conseguir alguma coisa”, afirma Mascaro, sintetizando o pensamento de Bloch.

A esperança, nesse sentido, não é um sentimento vazio, mas uma condição essencial para qualquer projeto de transformação. Sem ela, não há ação política consistente.

Os quatro tipos de possibilidade

Um dos pontos centrais da aula é a explicação das quatro formas de “possibilidade” propostas por Bloch, que estruturam diferentes níveis de esperança:

  •  Possível formal: aquilo que não é impossível, mas também não é concreto. Exemplo: “o mundo pode acabar amanhã”. Trata-se de uma esperança frágil e abstrata. 
  •  Possível subjetivo: baseado na vontade individual. É o voluntarismo — a ideia de que “se quisermos, faremos a revolução”. 
  •  Possível objetivo: baseado nas condições materiais, como tecnologia ou crises econômicas, que supostamente levariam automaticamente à transformação social. 
  •  Possível dialético: a verdadeira esperança, que articula condições subjetivas e objetivas de forma concreta. 

Mascaro é enfático ao criticar os três primeiros níveis, especialmente quando aparecem na política:

 “Não adianta apenas falar: ‘vamos juntar um bocado de gente e a revolução sai’. O contexto importa”
 “A tecnologia não leva ao socialismo só por ser tecnologia”

Segundo ele, tanto o voluntarismo quanto o determinismo econômico são ilusões que impedem a construção real da mudança.

Crítica ao voluntarismo e ao economicismo

O filósofo identifica dois erros recorrentes na esquerda:

  •  Politicismo (voluntarismo): acreditar que basta vontade política para transformar a realidade. 
  •  Economicismo: confiar que melhorias materiais, como crescimento econômico, levarão automaticamente a mudanças políticas. 

Mascaro usa exemplos concretos para ilustrar a falha dessas abordagens:

 “O Lula dá casa pro povo, então automaticamente o povo é de esquerda? Não, porque não disputa o nível do afeto”

Para ele, a política não se sustenta apenas em dados econômicos, mas na disputa de valores, emoções e desejos.

A esperança como afeto e ciência

A “utopia concreta”, conceito central de Bloch, exige a combinação entre emoção e conhecimento:

 “A esperança é um sentimento, é um afeto. Mas também tem um grau de articulação intelectual e científica”

Essa combinação é chamada de docta spes (esperança douta), que significa uma esperança informada, consciente das condições materiais e capaz de agir sobre elas.

Mascaro critica tanto a esquerda acadêmica quanto o ativismo superficial:

 “Quem faz o marxismo só uma ciência… não ajuda na transformação. Mas também não é só um agir batendo palma”

O neoliberalismo e o ataque à esperança

A aula também aborda a crítica ao pensamento neoliberal contemporâneo, especialmente à ideia de que a esperança seria perigosa.

Mascaro cita o filósofo Hans Jonas como um dos responsáveis por essa virada:

 “A esperança é uma irresponsabilidade… porque ninguém sabe como vai dar no final”

Segundo essa visão, a transformação radical deve ser evitada em nome da “responsabilidade”, o que, na prática, significa manter o sistema existente.

Para Mascaro, essa lógica domina o mundo contemporâneo:

 “Faz 40 anos que esperança é uma palavra maldita… porque se quer dizer que quem tem esperança é irresponsável”

Capitalismo, crise e produção da desesperança

Outro eixo fundamental da análise é a relação entre capitalismo e subjetividade. Mascaro argumenta que o sistema atual não apenas produz crises, mas depende delas:

 “A crise não é um problema a ser resolvido. A crise é o negócio do capitalismo”

Nesse contexto, a desesperança se torna um produto social. O sistema gera frustração, ansiedade e competição permanente, ao mesmo tempo em que oferece mercadorias e soluções individuais para esses problemas.

O papel do desejo e da ideologia

Inspirado em autores como Althusser, Lacan e Žižek, Mascaro afirma que o desejo humano é moldado pela ideologia dominante:

 “O capitalismo é uma máquina de desejo”

Isso significa que não basta conscientizar as pessoas racionalmente. É preciso disputar o desejo:

 “Não adianta dizer ‘não consuma’. O inconsciente não opera com o ‘não’. O que importa é o X, não o não-X”

Ou seja, combater o capitalismo exige criar um desejo positivo por outra forma de sociedade.

A esperança como desejo do futuro

Mascaro retoma Bloch para diferenciar dois tipos de sonho:

  •  Sonho noturno: ligado ao passado e ao inconsciente. 
  •  Sonho diurno: projeção consciente do futuro — a verdadeira esperança. 
 “A esperança é o sonho que se sonha acordado”

Esse sonho, porém, precisa ser coletivo e estruturado, não apenas individual.

A transformação como articulação total

Na conclusão, Mascaro reforça que a mudança social só ocorre quando há convergência entre:

  •  condições materiais 
  •  mobilização subjetiva 
  •  organização política 
  •  desejo coletivo 
 “No dia que o desejo se abre… a pessoa não precisa ser ensinada a ter esperança. Ela vai pelo próprio desejo”

Para ele, a esperança não pode ser apenas um discurso ou uma promessa — deve se tornar uma força concreta, capaz de mobilizar indivíduos e sociedades.

Uma reflexão sobre o presente

A aula de Alysson Mascaro aponta para um diagnóstico contundente do tempo atual: a sociedade contemporânea não apenas enfrenta a falta de esperança, mas muitas vezes rejeita a própria ideia de transformação.

 “Nós não estamos num tempo em que todo mundo procura a esperança. Estamos num tempo em que a maioria das pessoas não quer procurar esperança”

Diante disso, a tarefa política deixa de ser apenas explicar a realidade e passa a ser reconstruir o desejo por um futuro diferente — condição indispensável para qualquer projeto de mudança estrutural.

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