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Guerra contra o Irã se transforma em batalha global pela nova ordem mundial, diz Alastair Crooke

Ex-diplomata britânico afirma que o conflito já ameaça a arquitetura financeira e geopolítica liderada pelos EUA

Guerra entre Irã e Estados Unidos (Foto: Brasil 247)

247 – O ex-diplomata britânico Alastair Crooke afirmou que a guerra envolvendo o Irã deixou de ser apenas um conflito regional e passou a representar uma disputa global pela própria ordem mundial. Em entrevista publicada ao professor Glenn Diesen, Crooke disse que Teerã busca romper o paradigma de sanções, cercos militares e controle financeiro imposto pelo Ocidente há décadas.

Segundo ele, a ideia de que o Irã poderia simplesmente voltar a um acordo nos moldes do JCPOA, o pacto nuclear firmado no governo Barack Obama e abandonado posteriormente por Donald Trump, é hoje irrealista. “Por que o Irã iria querer voltar a isso? É como estar em liberdade condicional de uma prisão”, afirmou.

Irã muda os termos da negociação

Crooke sustenta que houve uma mudança substantiva na posição iraniana. Segundo ele, Teerã não está disposto, neste momento, a discutir a questão nuclear antes de resolver temas considerados prioritários: o fim dos ataques, o bloqueio no Estreito de Hormuz, as sanções e as ações contra aliados regionais, como o Hezbollah no Líbano.

“Eles não estão preparados para discutir uma questão nuclear até que tenham resolvido os pontos sobre a guerra, sobre o bloqueio de Hormuz, sobre os ataques contra eles e contra iranianos, e também sobre as sanções”, disse.

Para Crooke, o Irã considera o controle de Hormuz uma carta estratégica. Ele afirma que a capacidade iraniana de influenciar o fluxo de petróleo, gás e insumos críticos dá a Teerã uma vantagem no conflito de desgaste contra os Estados Unidos e seus aliados.

Hormuz, petróleo e pressão econômica

O ex-diplomata argumenta que o Ocidente subestima o impacto econômico de uma interrupção prolongada nas rotas energéticas do Golfo. Além de petróleo e gás, ele citou insumos como hélio, ácido sulfúrico, gálio e alumínio.

Segundo Crooke, os efeitos ainda não foram plenamente sentidos, mas tendem a se acumular. “Há uma espécie de ruído de catástrofe já aparente”, afirmou. Ele prevê que, quando o impacto chegar, poderá afetar postos de combustível, transporte, alimentos, energia e o custo de vida em países europeus.

Crooke também disse que a estratégia de bloqueio naval dos EUA é porosa e não conseguiu impedir a saída de petroleiros iranianos. Para ele, a leitura de Washington de que o Irã estaria perto de capitular é equivocada.

Trump, Netanyahu e os obstáculos a um acordo

Na avaliação de Crooke, há dois grandes obstáculos para uma solução negociada: Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, e Israel. Sobre Trump, ele afirma que o republicano buscaria um acordo que pudesse apresentar como uma vitória superior ao pacto nuclear de Obama.

“Ele precisa de algo como isso, um JCPOA melhor que o de Obama, para provar que Trump foi o melhor negociador”, disse.

Mas Crooke avalia que qualquer novo acordo aceitável para Teerã teria de ser mais favorável ao Irã do que o pacto anterior, o que seria politicamente difícil para Trump e inaceitável para o governo israelense.

Em relação a Israel, Crooke descreveu uma transformação profunda no ambiente político e religioso do país. Ele afirmou que setores messiânicos e expansionistas ganharam força e tornam improvável uma contenção do conflito.

Israel pressionaria os EUA a manter a guerra

Crooke disse que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu enfrenta pressão interna porque suas guerras contra o Irã e o Hezbollah não teriam alcançado os objetivos prometidos. Por isso, segundo ele, Israel teria interesse em prolongar a ação militar norte-americana.

“O que se vê na imprensa israelense, inclusive hoje de manhã, é: temos que fazer os americanos continuarem a guerra”, afirmou.

Para o ex-diplomata, há uma divergência entre os interesses dos Estados Unidos, que poderiam buscar uma saída para reduzir custos políticos e econômicos, e os interesses de Israel, que enxergaria o conflito de forma mais ideológica e territorial.

Uma guerra contra a arquitetura financeira ocidental

Na parte final da entrevista, Crooke ampliou o diagnóstico. Ele afirmou que o Irã não luta apenas contra sanções ou ataques militares, mas contra a arquitetura financeira global construída em torno do dólar, do petrodólar, de Wall Street e das instituições multilaterais ocidentais.

“Isto também é algo muito maior. É por isso que faz parte de uma guerra global”, disse.

Segundo ele, a guerra atinge a lógica dos mercados financeiros e expõe a distância entre preços formais e preços reais de commodities estratégicas, como o petróleo. Crooke afirmou que a manipulação de mercados e o descolamento entre economia financeira e economia produtiva poderão ter consequências duradouras.

Para ele, o objetivo iraniano é romper um sistema que combinaria hegemonia militar, hegemonia financeira, sanções, inspeções internacionais e controle institucional. “O objetivo do Irã nesta guerra é quebrar todo o paradigma”, concluiu.

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