Guerra no Irã expõe crise do poder dos EUA e pode redefinir a ordem global, diz Pepe Escobar
Analista afirma que ofensiva contra Teerã fracassou em seu objetivo inicial e abriu uma fase de desestabilização global
247 – Em vídeo publicado no Pepe Café, o jornalista e analista Pepe Escobar traça um quadro dramático da escalada militar no Oeste da Ásia e sustenta que a guerra contra o Irã ultrapassa em muito o confronto direto entre Teerã, Israel e os Estados Unidos. Para ele, o embate em curso representa uma disputa estratégica de proporções históricas, envolvendo também Rússia, China, BRICS e o chamado Sul Global.
Gravado em Bangcoc, no histórico hotel Mandarin Oriental, Escobar afirma que a ofensiva já vinha sendo preparada há meses e que o ataque lançado contra o Irã teria como objetivo central provocar um colapso imediato da estrutura de poder iraniana. Segundo ele, porém, esse plano fracassou logo nas primeiras horas. “Tudo, absolutamente tudo”, disse, ao resumir o que considera a desintegração da estratégia inicial de guerra e de mudança de regime.
Escobar vê plano de mudança de regime frustrado
Na avaliação do analista, a guerra foi concebida para durar poucos dias e produzir uma rápida desorganização do Estado iraniano, inclusive por meio da eliminação de lideranças políticas, militares e religiosas. Ele sustenta, no entanto, que o governo iraniano já havia se preparado para esse cenário com antecedência.
Segundo Escobar, a continuidade do poder em Teerã foi preservada por uma estrutura prévia de substituição de comando. Em um dos trechos centrais do comentário, ele afirma que os iranianos já haviam deixado prontos vários escalões de reposição. “Toda essas lideranças foram imediatamente substituídas porque já havia quatro escalões de substitutos prontos”, declarou.
Ele também descreve o sistema defensivo iraniano como um “mosaico descentralizado de defesa”, capaz de permitir respostas rápidas sem dependência exclusiva de um comando central. Na leitura do jornalista, isso explicaria por que a reação de Teerã teria começado pouco tempo após os ataques iniciais.
Resposta iraniana e regionalização do conflito
Escobar argumenta que a reação iraniana não se limitou ao território israelense, mas se espalhou por toda a região, atingindo alvos ligados aos interesses militares e de inteligência dos Estados Unidos. Em sua interpretação, o Irã transformou o confronto em uma guerra regional com um propósito político mais amplo.
“O objetivo principal do Irã é expulsar os Estados Unidos do Golfo Pérsico e do oeste da Ásia”, afirmou. Essa frase resume o eixo da análise desenvolvida ao longo do vídeo: a ideia de que Teerã não estaria apenas retaliando uma agressão, mas tentando alterar a correlação de forças em toda a região.
No comentário, Escobar menciona bases americanas em países como Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Catar e Arábia Saudita como partes de uma arquitetura militar agora colocada sob pressão. Ele sustenta que várias dessas estruturas teriam perdido capacidade operacional, o que, em sua visão, reduziria drasticamente a capacidade de resposta de Washington no teatro regional.
Críticas duras a Donald Trump e a Benjamin Netanyahu
Ao longo do vídeo, Escobar faz ataques frontais à atual administração dos Estados Unidos e ao governo de Israel. Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, é retratado por ele como alguém sem visão estratégica e manipulado por interesses externos. Em um dos trechos mais incisivos, o analista diz que o republicano tem “mentalidade de uma criança de 3 anos, muito inseguro, megalômano, narcisista, não estrategista”.
Sobre Benjamin Netanyahu, Escobar também adota tom severo e sustenta que a guerra atende, em primeiro lugar, aos objetivos do governo israelense. Em sua formulação, “esta guerra é deles. Esta não é uma guerra dos Estados Unidos. É uma guerra dos Estados Unidos via a gang criminal de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos”.
A dureza verbal do comentário se estende ao que ele chama de “eixo sionista Washington-Tel Aviv”, expressão usada para descrever uma aliança responsável, segundo sua leitura, pela desestabilização do Oeste da Ásia e pela sabotagem de qualquer possibilidade real de negociação diplomática.
Negociações em Omã e a acusação de cortina de fumaça
Um dos pontos mais importantes do relato de Escobar é a tese de que as conversas indiretas entre representantes dos Estados Unidos e do Irã, mediadas por Omã, não passavam de uma encenação diplomática. Segundo ele, os ataques já estavam decididos antes da continuidade das negociações.
No vídeo, o analista afirma que a rodada de diálogo foi usada apenas como “cortina de fumaça” para encobrir uma ofensiva militar já predeterminada. Ele recorda que havia expectativa de continuidade das tratativas, mas sustenta que a guerra começou antes que qualquer avanço diplomático se consolidasse.
Mais adiante, Escobar relata que teria havido uma tentativa posterior da Casa Branca de abrir um canal para cessar-fogo e retomar as negociações. A resposta iraniana, segundo ele, foi negativa. “Não há o que negociar”, resume o comentarista, atribuindo essa posição às autoridades iranianas.
Estreito de Ormuz e risco de choque global
Outro eixo central da análise é o impacto econômico da guerra. Escobar diz que o Estreito de Ormuz já estaria, na prática, bloqueado, e que esse movimento teria potencial para abrir uma nova fase de desorganização da economia internacional.
“O estreito de Ormuz, a partir do momento que eu estou falando com vocês, está oficialmente, totalmente, tecnicamente bloqueado”, afirmou. Na leitura do analista, esse bloqueio não seria um evento periférico, mas um gatilho para a elevação brutal dos custos de transporte marítimo, dos seguros e da circulação de energia.
Escobar afirma que o problema não se limitaria ao petróleo e ao gás, mas atingiria também a chamada indústria global de segurança marítima, concentrada sobretudo em Londres. Segundo ele, o aumento dos prêmios de seguro para navios ligados a interesses ocidentais já indicaria uma onda mais ampla de desestabilização financeira.
Ele vai além e argumenta que, se o fechamento de Ormuz persistir por semanas, os efeitos poderão atingir derivativos, cadeias logísticas e fluxos de energia em escala mundial. Em sua avaliação, isso colocaria mais pressão sobre economias dependentes do Golfo Pérsico e aprofundaria o custo político da guerra para o Ocidente.
China, Ásia e os limites da pressão energética
Escobar também dedica parte do comentário ao impacto assimétrico da crise sobre as principais economias asiáticas. Ele sustenta que a China teria mais margem de manobra do que Japão e Coreia do Sul, por contar com reservas, rotas alternativas e maior capacidade de reorganização de suas compras de energia.
Ao abordar esse ponto, ele argumenta que o petróleo iraniano não seria decisivo para a segurança energética chinesa e que Pequim dispõe de planos alternativos para enfrentar uma eventual prolongação do conflito. O foco, segundo ele, recairia mais intensamente sobre a rede financeira, logística e securitária do comércio marítimo global do que sobre um colapso imediato do abastecimento chinês.
Essa interpretação reforça sua tese de que a guerra não deve ser lida apenas como uma disputa militar regional, mas como uma ofensiva contra o arranjo internacional em transformação, no qual China, Rússia e BRICS desempenham papel crescente.
Irã como linha de defesa do sul global
No trecho final, Escobar amplia ainda mais o horizonte de sua análise e afirma que a guerra precisa ser compreendida como um ataque político ao sul global. Em sua visão, o Irã estaria ocupando a posição de vanguarda na resistência a uma ordem internacional marcada, segundo ele, por caos, rapina e tutela imperial.
“Esta é uma guerra contra o Irã, contra a Rússia e a China, contra os BRICS e contra o sul global”, afirmou. Em seguida, reforçou a centralidade atribuída a Teerã em sua leitura geopolítica: “O Irã está defendendo todo o sul global”.
Escobar insiste que o desfecho do confronto terá consequências que vão muito além do campo militar. Se o Irã resistir e conseguir impor custos estratégicos elevados aos Estados Unidos e a Israel, diz ele, o resultado poderá alterar de forma duradoura a presença militar americana na região. Caso contrário, o risco seria o aprofundamento de uma lógica de devastação comparável ao que ocorreu em outros cenários de guerra prolongada no Oriente Médio.
Um comentário marcado por tom alarmista e visão de confronto civilizacional
O vídeo combina descrição geopolítica, linguagem de forte indignação e uma visão de mundo em que a guerra atual aparece como capítulo decisivo de uma disputa sistêmica. Escobar sugere que o conflito pode durar mais do que o previsto por seus arquitetos e afirma que, quanto maior for sua extensão, maior será o custo para a ordem ocidental que o sustenta.
Em um de seus trechos finais, ele sintetiza essa percepção ao dizer que “essa é a guerra e essa guerra não vai acabar tão cedo”. A frase encerra um comentário em que a guerra no Irã é apresentada não como um episódio isolado, mas como um dos principais marcos da reorganização do poder global no século XXI.


