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O que acontece quando o “policial do mundo” rasga o livro de regras

Um ano após o retorno de Trump, ações militares e abandono de organismos internacionais acendem alertas sobre a erosão da ordem pós-1945

O que acontece quando o “policial do mundo” rasga o livro de regras (Foto: Creative Commons | AP | Reuters)

247 – Um ano depois do retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 20 de janeiro, a política externa dos Estados Unidos aparece retratada por críticos como mais unilateral, mais confrontacional e menos comprometida com os freios do direito internacional, mesmo quando isso impõe custos elevados ao restante do mundo.

A avaliação é apresentada pelo analista Liang Xiao, em artigo publicado na Beijing Review, que reúne dados históricos, exemplos recentes e declarações atribuídas ao próprio Trump para sustentar a tese de que Washington estaria desmontando, por iniciativa própria, elementos centrais da ordem internacional criada após 1945.

A hegemonia que construiu regras e, ao mesmo tempo, as contornou

Liang Xiao recorda que a imagem global dos Estados Unidos, há décadas, combina liderança institucional e uso recorrente da força. O texto cita um relatório de 2021 da Tufts University, “U.S. Military Interventions 1776-2019”, que contabiliza 392 intervenções militares norte-americanas entre 1776 e 2019, com aproximadamente metade após 1950 e cerca de um quarto depois do fim da Guerra Fria, em 1991.

Esse histórico é apresentado como parte de um “paradoxo” do papel norte-americano no sistema moderno: ao mesmo tempo em que foi o principal arquiteto e defensor do arranjo pós-1945 — baseado em soberania e direito internacional para impedir anexações arbitrárias —, também teria atuado como o “mau policial” do sistema, usando poder dominante para suprimir desafiantes e avançar interesses próprios.

Nessa leitura, mesmo quando lançava operações militares, Washington buscava algum tipo de justificativa. Liang Xiao descreve esse esforço como uma “folha de figueira” de legitimidade jurídica e diplomática, necessária para sustentar a liderança internacional, ainda que sob críticas.

Venezuela e a disputa explícita por petróleo

O artigo afirma que, no início de janeiro, os Estados Unidos realizaram ataques aéreos na Venezuela e enviaram forças especiais para sequestrar o presidente legítimo do país latino-americano. Em seguida, diz o texto, vieram sinais ainda mais perturbadores: declarações e movimentos de políticos norte-americanos teriam exposto a ambição de acessar as vastas reservas venezuelanas de petróleo.

Segundo Liang Xiao, autoridades em Washington passaram a afirmar abertamente que os EUA controlariam as vendas de petróleo da Venezuela por tempo indefinido. E, em 9 de janeiro — menos de uma semana após a ação militar descrita — Donald Trump teria reunido mais de uma dezena de grandes companhias petrolíferas na Casa Branca, incentivando investimentos na reconstrução da indústria do petróleo venezuelana e prometendo retornos elevados.

A Beijing Review sustenta que as principais ações militares norte-americanas desde o início do século XXI, em diversos casos, giraram em torno de assegurar controle sobre recursos petrolíferos regionais. A diferença, no caso venezuelano, estaria na franqueza do discurso: em vez de invocar “humanitarismo” e “reconstrução pós-guerra”, Washington teria abandonado essa moldura narrativa e passado a sinalizar uma política de maximização de lucro com investimento mínimo.

Para o autor, caso essa abordagem se consolide, o precedente poderia ampliar riscos para outros países ricos em recursos, que poderiam enfrentar pressões semelhantes, com perda de soberania econômica e crescente vulnerabilidade a coerções externas.

Groenlândia, aliados e a lógica da anexação

Outro exemplo citado como símbolo de escalada é a insistência norte-americana em reivindicações sobre a Groenlândia. Liang Xiao observa que a maior ilha do mundo tem alto valor estratégico e econômico, e lembra que as Forças Armadas dos EUA já operam bases no território. Ainda assim, afirma o texto, o governo Trump teria mantido fixação em obter “propriedade” formal da ilha, chegando a ameaçar o uso de força militar para tomá-la.

A gravidade, segundo a análise, está no fato de a Groenlândia ser um território autônomo do Reino da Dinamarca — e a Dinamarca é integrante da OTAN, aliança liderada pelos Estados Unidos. O autor sugere que, se Washington pudesse engolir a Groenlândia, abriria margem para outras pressões expansionistas, levantando inclusive a hipótese de o Canadá ser tratado como “o 51º estado” norte-americano.

“Não preciso do direito internacional”, diz Trump, e a escalada militar em série

Liang Xiao atribui a Donald Trump uma declaração feita em entrevista ao The New York Times, em 7 de janeiro, na qual ele teria afirmado não ter “nenhuma necessidade do direito internacional”. O artigo afirma que, nessa mesma ocasião, Trump teria dito que seus próprios “padrões morais e vontade” seriam as únicas restrições para orientar operações militares pelo mundo.

A Beijing Review contrasta essa autoimagem de “líder amante da paz” com um balanço do primeiro ano do segundo mandato: segundo o texto, Trump já teria lançado ataques militares contra sete países — Venezuela, Iêmen, Síria, Irã, Iraque, Somália e Nigéria. Ainda conforme o artigo, ao longo do período ele teria ordenado mais de 620 ataques aéreos contra territórios estrangeiros.

No campo orçamentário, o texto diz que Trump anunciou a intenção de elevar o orçamento militar dos EUA a US$ 1,5 trilhão no ano fiscal de 2027, o que representaria um aumento de 50% em relação ao US$ 1 trilhão projetado. O artigo também afirma que, atualmente, os gastos militares norte-americanos já responderiam por 40% do total global.

Saída de organismos e a corrosão da ordem pós-1945

Liang Xiao inclui, como parte do mesmo movimento, o afastamento de espaços multilaterais. Em 7 de janeiro, segundo o artigo, os Estados Unidos anunciaram que se retirariam de 66 organizações internacionais que “não servem mais aos interesses americanos”. O texto afirma que, desta vez, os alvos seriam instituições dedicadas a direito internacional, desenvolvimento econômico, cooperação ambiental e igualdade de gênero — áreas em que Washington, historicamente, se apresentou como líder e defensor.

O autor argumenta que o conjunto — desrespeito ao direito internacional, ambição aberta por recursos de outros países, abandono de organismos multilaterais e expansão acelerada do aparato militar — representa uma espécie de demolição, “com as próprias mãos”, do arranjo do pós-guerra que os EUA ajudaram a construir.

Nessa leitura, o mundo seria empurrado para uma “era de selva”, descrita como um cenário em que “a força faz o direito”. A Beijing Review encerra com um paralelo histórico: lembra que, menos de um século atrás, outro país teria mobilizado sentimentos de honra perdida, criado bodes expiatórios internos e recorrido à agressão militar externa para encobrir fracassos econômicos, empurrando o planeta para uma guerra catastrófica com dezenas de milhões de mortos e feridos.

Ao retomar esse paralelo, Liang Xiao deixa um alerta: quando potências abandonam regras e instituições que limitam o arbítrio, o sistema internacional se torna mais instável, mais violento e mais propenso a conflitos de grande escala.

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