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Ocidente vive desintegração e deriva belicista, dizem Emmanuel Todd e David Teurtrie em debate sobre guerra e BRICS

Intelectuais franceses apontam crise estrutural do Ocidente, criticam papel dos Estados Unidos e veem nos BRICS alternativa baseada na soberania

Emmanuel Todd (Foto: Reprodução Youtube)

247 – O Ocidente atravessa uma crise profunda de identidade, coesão e legitimidade, marcada por conflitos crescentes e pela perda de centralidade no sistema internacional. Essa foi a principal conclusão do debate entre o historiador Emmanuel Todd e o geógrafo David Teurtrie, realizado no Institut Catholique d’Études Supérieures (ICES), na França, e divulgado em vídeo.

O ICES é uma instituição de ensino superior privada francesa, com sede em La Roche-sur-Yon, voltada à formação em áreas como direito, ciência política, história e economia, e conhecida por promover debates acadêmicos sobre temas geopolíticos e sociais contemporâneos.

Ocidente como construção militar liderada pelos EUA

Na conferência, Todd questionou a própria definição de Ocidente, frequentemente associada a valores como democracia liberal e economia de mercado. Para ele, essa ideia encobre uma realidade mais concreta: a predominância militar dos Estados Unidos.

“Para mim, o Ocidente é simplesmente o espaço de dominação militar americana”, afirmou.

O intelectual destacou que, do ponto de vista histórico e cultural, não existe uma unidade homogênea entre os países ocidentais. Ele diferenciou o núcleo anglo-americano — composto por Estados Unidos, Reino Unido e França — de países como Alemanha e Japão, que, segundo ele, foram incorporados ao bloco ocidental após a Segunda Guerra Mundial sob influência direta de Washington.

Desintegração interna e crise europeia

Todd argumentou que o principal fenômeno em curso não é a ascensão dos BRICS, mas sim a decomposição interna do próprio Ocidente.

“A derrota do Ocidente não é a vitória dos BRICS, é um processo de autodesintegração do espaço ocidental”, declarou.

Ele também destacou o agravamento da crise na Europa, especialmente na União Europeia, que, segundo sua análise, deixou de ser um projeto de paz para se transformar em um ator cada vez mais militarizado.

“Há uma crise da União Europeia enquanto sistema […] com essa conversão da Europa de máquina de paz em máquina de guerra”, disse.

O autor ainda afirmou que, em vez de divergência estratégica entre Europa e Estados Unidos, o que se observa é uma “convergência no delírio”, citando a continuidade do apoio europeu à guerra na Ucrânia mesmo diante do desgaste americano.

Guerra na Ucrânia e tensões globais

David Teurtrie reforçou a leitura crítica sobre o conflito ucraniano, afirmando que o projeto de enfraquecimento estratégico da Rússia não atingiu seus objetivos.

Segundo ele, houve uma transferência de responsabilidades dos Estados Unidos para os europeus:

“Uma América que faz o constat de que esse projeto de derrota estratégica da Rússia não funcionou e que transmite esse projeto aos europeus”, afirmou.

Teurtrie também criticou a postura europeia diante das contradições do direito internacional, especialmente ao comparar a guerra na Ucrânia com as ações dos Estados Unidos no Oriente Médio.

“Temos duas grandes potências que violam o direito internacional […] e a União Europeia continua nessa lógica impulsionada por Washington”, disse.

Conflitos como “guerras por procuração”

Os dois analistas apontaram semelhanças entre a guerra na Ucrânia e as tensões envolvendo Estados Unidos e Irã, caracterizando ambos como conflitos indiretos entre grandes potências.

Teurtrie explicou que essas disputas seguem uma lógica semelhante à da Guerra Fria:

“As grandes potências não se enfrentam diretamente, mas em terrenos interpostos”, afirmou.

Ele destacou, no entanto, diferenças importantes. No caso da Ucrânia, há fatores históricos e territoriais que complexificam o conflito, enquanto a relação entre Estados Unidos e Irã seria marcada por um “imperialismo em sua versão mais brutal”.

BRICS e a nova ordem internacional

Ao abordar os BRICS, Teurtrie destacou que o grupo não deve ser visto como uma aliança militar, mas como um fórum flexível que expressa uma mudança nas relações internacionais.

“Há um desejo profundo de seus membros […] de questionar a centralidade do Ocidente na definição das regras internacionais”, afirmou.

Ele argumentou que, ao contrário das alianças rígidas herdadas da Guerra Fria, como a OTAN, os BRICS operam com maior flexibilidade e adaptabilidade ao cenário contemporâneo.

Todd, por sua vez, relativizou a coesão do grupo, mas reconheceu seu papel como suporte a um eixo formado por Rússia, China e Irã.

Crítica à política externa dos Estados Unidos

Os dois intelectuais também analisaram a transformação da política externa americana, especialmente após o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

Segundo Teurtrie, houve uma mudança significativa em relação ao período neoconservador:

“Antes, havia um projeto ideológico — a democracia liberal. Agora, resta apenas a potência bruta destrutiva”, disse.

Todd foi ainda mais contundente, afirmando que o Ocidente estaria entrando em uma fase de niilismo político e estratégico.

“Estamos em um mundo onde o Ocidente está em mutação para um grupo de Estados terroristas”, declarou.

Europa sem projeto e dependente

Outro ponto central do debate foi a fragilidade da Europa no cenário internacional. Teurtrie destacou a dependência estrutural do continente em relação aos Estados Unidos, tanto no campo militar quanto tecnológico.

“Os europeus continuam a assumir essa dependência e não desejam sair dela”, afirmou.

Ele também chamou atenção para a ausência de soberania digital na Europa, que depende de plataformas americanas para circulação de informação.

Crise do direito internacional

Os debatedores apontaram ainda o enfraquecimento do direito internacional, especialmente diante da incapacidade de aplicação das normas por uma autoridade global efetiva.

Teurtrie observou que, durante a fase unipolar, os Estados Unidos atuavam como reguladores — ainda que seletivos — do sistema internacional. No entanto, esse papel estaria sendo abandonado.

“O hegemon que utilizava o direito internacional agora está se desfazendo dele como algo contra-produtivo”, afirmou.

Um mundo em transição

Ao final, Todd apresentou uma visão pessimista sobre o momento atual, destacando o risco de escalada de conflitos e a dificuldade das sociedades em reconhecer a gravidade da situação.

“O que leva às piores coisas é a incapacidade de imaginá-las”, disse.

Apesar disso, ambos reconheceram que o cenário atual também abre espaço para uma reorganização do sistema internacional, com maior protagonismo de países emergentes e novas formas de cooperação.

Nesse contexto, os BRICS aparecem como um dos principais vetores de transformação, ao defenderem um modelo baseado na soberania nacional e na multipolaridade — em contraste com a hegemonia ocidental das últimas décadas.

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