Países da América Latina não irão sacrificar seus interesses econômicos em favor dos Estados Unidos, diz analista geopolítico
Kishore Mahbubani afirma que a tentativa de reviver a Doutrina Monroe esbarra no peso do comércio com a China e na nova autonomia do Sul Global
247 – A tentativa dos Estados Unidos de reavivar, no século 21, uma lógica inspirada na Doutrina Monroe esbarra num obstáculo central: a América Latina já não vive numa realidade em que alianças estratégicas possam ser impostas contra a racionalidade econômica. Essa é a avaliação do professor e diplomata de Singapura Kishore Mahbubani, ex-presidente do Conselho de Segurança da ONU, ao discutir o retorno do discurso de “esferas de influência” e a crescente complexidade do sistema internacional.
A análise foi feita em entrevista publicada no YouTube, no vídeo “Singapore's Top Diplomat Reveals TRUTH About China and Future of USA”, em que Mahbubani sustenta que os países do chamado Sul Global ampliaram sua capacidade de decisão e não aceitarão ser empurrados para blocos rígidos em meio à disputa entre grandes potências.
A dificuldade de reviver a Doutrina Monroe na economia global do século 21
Ao ser questionado sobre a possibilidade de o mundo se dividir em áreas de influência — com os Estados Unidos concentrando poder no Hemisfério Ocidental e a China consolidando a Ásia — Mahbubani rejeita a hipótese como uma tentativa de reconstruir o século 19 em um contexto incompatível com a interdependência contemporânea. Para ele, os países não querem ser “aprisionados” em esferas de influência e, sobretudo, não estão dispostos a abrir mão de comércio, renda e bem-estar em nome de lealdades geopolíticas.
Nesse ponto, ele menciona diretamente a América do Sul como exemplo do limite prático de uma Doutrina Monroe “revivida”. Mahbubani reconhece que Washington ainda preserva superioridade militar na região, mas afirma que isso não se converte automaticamente em submissão econômica. “Todo país da América do Sul… faz mais comércio com a China hoje do que com os EUA. E você não pode pedir que países sacrifiquem renda e bem-estar só por ‘esfera de influência’”, disse, ao argumentar que mesmo aliados dos Estados Unidos mantêm na China seu principal motor comercial.
A fala do diplomata explicita uma mudança estrutural: a disputa contemporânea não se resolve apenas com presença militar ou pressão diplomática, mas com a capacidade de oferecer prosperidade e integração econômica. Assim, a tentativa de enquadrar a América Latina numa lógica de tutela estratégica tende a enfrentar resistências crescentes, porque os governos precisam responder a interesses domésticos — crescimento, empregos, investimento e preços — antes de atender a agendas externas.
América Latina, China e a lógica de “manter opções abertas”
A leitura de Mahbubani se conecta a um argumento mais amplo: países médios e regiões historicamente subordinadas passaram a operar com mais autonomia. Ele afirma que o “Sul Global”, que descreve como 88% da população mundial, não deseja escolher “um lado” de forma definitiva. A diretriz, segundo ele, é manter opções abertas, negociar com todos e reduzir dependências.
Essa racionalidade aparece na forma como ele descreve o novo ambiente: um mundo mais complexo, com mais atores e menos capacidade de mando unilateral. Na prática, isso significa que a América Latina pode manter cooperação com Washington em áreas específicas, mas sem aceitar um alinhamento que imponha custos econômicos altos, especialmente num cenário em que a China se tornou um parceiro central para exportações, financiamento e cadeias produtivas.
O pano de fundo: o Ocidente perdeu capacidade de ditar regras
A crítica à Doutrina Monroe, no raciocínio do analista, não surge isolada. Ela faz parte de sua tese de que o Ocidente precisa aceitar que não domina mais a ordem global. Logo no início da entrevista, Mahbubani defende que o Ocidente deve fazer “ajustes estratégicos fundamentais”, abandonar a postura condescendente e tratar o restante do mundo como igual.
Ele resume essa virada em termos diretos: “O Ocidente agora tem que aceitar um mundo que ele não pode mais dominar… tem que aprender a tratar o resto do mundo como iguais”, disse, argumentando que cooperação baseada em igualdade produziria um mundo melhor “não apenas para o resto, mas também para o próprio Ocidente”.
Essa reconfiguração, segundo ele, é alimentada por mudanças econômicas profundas, com a ascensão da Ásia e a reemergência de China e Índia como polos centrais. No entendimento de Mahbubani, essa transição reduz a eficácia de doutrinas de controle regional e amplia o espaço de manobra para países que antes tinham menos alternativas.
Menos esferas, mais pragmatismo econômico
O trecho sobre a América Latina funciona, na entrevista, como um aviso: pressões para alinhar mercados e cadeias de suprimento a uma lógica de blocos podem gerar o efeito inverso — estimulando diversificação e novas parcerias. Mahbubani insiste que, num mundo em que comércio e investimento definem a capacidade de crescimento, é improvável que governos aceitem perdas econômicas relevantes para cumprir uma agenda geopolítica externa.
Ao colocar a dificuldade de reviver a Doutrina Monroe como ponto de partida, o analista sugere que Washington terá de competir mais por influência oferecendo ganhos concretos — e não apenas exigindo adesão. E, do lado latino-americano, a tendência é buscar equilíbrio: dialogar com os Estados Unidos, aprofundar relações com a China e preservar autonomia para maximizar interesses nacionais num cenário internacional cada vez mais fragmentado e imprevisível.

